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Ataques de pânico e casos de burnout. O “sofrimento dos trabalhadores” levou à suspensão do diretor-executivo do Mundial de 2023

Um relatório que revelou as condições que os funcionários do grupo organizador do Mundial 2023 têm enfrentado levou o governo francês a tomar medidas. Claude Atcher, diretor-executivo do torneio, foi suspenso e corre o risco de ser despedido

Rita Meireles

Aurelien Meunier - World Rugby

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Claude Atcher já não é o diretor-executivo do próximo Campeonato do Mundo de râguebi, que terá a França como anfitriã, em 2023. Pelo menos por agora. Um ano antes do evento, com início a 8 de setembro, o diretor foi suspenso pelo Ministério do Desporto francês e foi aberta uma investigação na sequência de acusações de um “clima de terror”.

Esta decisão está relacionada com um relatório do comité de ética do Groupement d’Intérêt Public (GIP), do Mundial 2023, sobre a organização interna desta estrutura que supervisiona o Mundial. No documento surgem situações em que os funcionários chegam a sofrer de ataques de pânico, burnout e abusos verbais.

Amélie Oudéa-Castera, ministra do Desporto francesa e ex-tenista, reagiu ao sucedido numa entrevista ao “L'Equipe”, dando o passo a passo do que foi feito desde que soube do relatório até à suspensão de Atcher.

“Recebi o relatório da comissão de ética a 18 de agosto. A 19 de agosto, pedi a Bernard Laporte (presidente da Federação Francesa de Râguebi) e a Jacques Rivoal (presidente do GIP) para me apresentarem, no prazo de 10 dias, um plano de ação com prioridade absoluta, que passava pela restauração imediata das condições de trabalho normalizadas para os funcionários do GIP. O relatório identificou problemas de ataques à integridade económica e financeira e confirmou um profundo mal-estar social, uma crise aguda de confiança, o sofrimento dos trabalhadores e, por conseguinte, riscos psicossociais”, disse.

Depois da suspensão de Atcher, Julien Collette, seu adjunto, foi nomeado substituto provisório para o cargo. Todas estas decisões levaram a World Rugby a mostrar preocupação com as alegações relativas ao Atcher, mas também a garantir que continua a ter confiança na organização do torneio.

“A World Rugby apoia plenamente a revisão independente e o plano de ação comunicado pelo Ministério do Desporto francês em relação à cultura de trabalho no seio do Comité Organizador do Mundial 2023”, lê-se num comunicado. “A World Rugby estava profundamente preocupada com as alegações feitas através dos meios de comunicação social franceses. O bem-estar da família do râguebi é primordial e central para os valores de unidade, inclusão e divertimento que são a essência do Campeonato do Mundo de Râguebi, a grande celebração da união no desporto”.

O próximo passo será perceber se a suspensão de Claude Atcher deve ou não ser um despedimento definitivo: “Este despedimento preventivo visa proteger a saúde e a segurança dos trabalhadores. Implicará necessariamente o início de um inquérito disciplinar. Veremos, tendo em conta as conclusões da inspeção do trabalho, se requer o despedimento”, afirmou a ministra.

Esta não é a primeira vez que o râguebi assiste à substituição do diretor-executivo de um Mundial a pouco tempo do torneio, apesar de ser a primeira a envolver situações tão graves. Debbie Jevans demitiu-se seis meses antes do início do Campeonato do Mundo de 2015, citando "motivos pessoais", e foi substituída por Steve Brown.