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Há a iminência oval de um ex-All Black jogar pela Austrália. E o râguebi faz mira aos novos critérios que facilitam a troca de seleções

Em novembro último, a World Rugby alterou as regras sob as quais um jogador poderia representar outra seleção: ter pais ou avós nascidos noutro país e estar há, pelo menos, três anos sem jogar pela nação anterior. Vários já fizeram a troca, mas Tawera Kerr-Barlow, um médio de formação que ganhou o Mundial de 2015 pela Nova Zelândia, pôs-se à disposição de ser chamado pela Austrália. Seria a primeira vez que alguém jogaria por duas seleções de topo do râguebi

Diogo Pombo

Hannah Peters/Getty

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Dizer que “regras são regras” é uma rotunda redundância e carta mais banal do baralho quando não se tem a argumentação aprumada ou, simplesmente, o vagar é nulo para discutir sobre o porquê de algo ser como é por estar escrito que assim o deve ser. As regras são regras, mas antes houve quem as tivesse de regrar e, no râguebi, quem pretenda representar a principal seleção de mais do que um país pode fazê-lo se respeitar os regulamentos com que o mundo oval se fez por peculiarizar um pedaço mais em novembro do ano passado.

Qualquer jogador pode trocar de seleção se cumprir os critérios de elegibilidade definidos pela World Rugby e, por várias vezes, já alterados pela entidade que dita leis na modalidade. A fornada de mudanças mais recentes mexeu com os prazos, encurtando-os e facilitando, na prática, que alguém possa representar a nação de dos pais ou avós caso tenham nascido num país diferente - e depois de já ter jogado pela sua equipa nacional. De todas as regras que entraram em vigor na viragem para 2022, uma é basilar: terem passado 36 meses desde a última chamada do jogador à seleção de origem.

E chegamos a Tawera Kerr-Barlow, um neozelandês de barba ruiva.

Ele é alguém no râguebi devido ao mecânico ato de filtrar bolas de aglomerados de corpos tombados no relvado que a sua posição exige, Kerr-Barlow é um médio de formação e as suas mãos são das que mais tocam na bola durante um jogo. Em 2015, tão esmerado era a executar esta e outras funções, fazia parte da seleção dos All Blacks que conquistou o primeiro de dois Mundiais consecutivos. Não era um titular, esse lugar ainda é propriedade Aaron Smith, mas o então jogador dos Chiefs deixou algumas das 29 internacionalizações pela Nova Zelândia nesse torneio - marcou até os únicos dois ensaios pela seleção nos quartos-de-final, contra a França.

Para lá viajou em 2018, aterrando em La Rochelle onde desmanchou as malas que empacotara em Hamilton, cidade da Nova Zelândia que fizera sua desde os 13 anos, quando se mudou com a família. Tinha vindo de Melbourne, na Austrália, proveniência que puxa a ponta do fio que desentrelaça a história conveniente a este relato. Kerr-Barlow passou as últimas quatro épocas a jogar râguebi em França, deixando de ser convocável para os All Blacks devido à regra de apenas poderem ser chamado quem jogue na Nova Zelândia. Também foi em arrabaldes gauleses que, na quarta-feira, deu conta de uma intenção: “Se a Austrália me chamar, irei sem hesitar”.

Hoje com 32 anos e de estatuto recheado na Europa, onde disputou a final da Heineken Cup na última época (derrota contra os irlandeses do Leinster), o jogador falou à “Rugbyrama” da Eurosport sem pruridos, maior ciente de que a sua mais recente aparição com a camisola preta dos All Blacks foi em novembro de 2017. “Ao contrário da Nova Zelândia, a Austrália tem uma regra que permite aos jogadores que atuam no estrangeiro serem selecionáveis. Estou disponível para os Wallabies”, garantiu o médio de formação, recordando o êxodo familiar que lhe recheia as veias.

Por ter vivido na Austrália até à idade em que os falantes do inglês começam a colar o “teen” aos números antes de chegarem a adultos, Taweta Kerr-Barlow explica que tem “bastantes ligações com o país” de nascimento dos progenitores que lhe inculcaram o râguebi no sangue: a mãe, Gail, foi internacional australiana na mesma posição dele. Em 2015, citado pelo “Stuff”, contudo, o jogador dizia que “sempre se [considerou] um Kiwi” e atribuía a ter visto a Nova Zelândia de Jonah Lomu destroçar adversários no Mundial de 1995 a ‘culpa’ de “desde então” sempre ter “querido tornar-se um All Black”

Israel Folau o segundo a contar da direita, a representar a seleção do Tonga

Israel Folau o segundo a contar da direita, a representar a seleção do Tonga

LEON LORD/Getty

Mas as pessoas mudam, mal algum cai sobre o mundo por isso. Como as regras também podem ser alteradas e, só em 2022 e após a World Rugby autorizar jogadores a trocarem de equipas nacionais se cumprirem os critérios, vários já o fizeram - embora sem o perfil de Kerr-Barlow, que poderia ser o primeiro jogador a representar duas nações do Tier 1, lote atribuído às melhores seleções do mundo.

O centro Malakai Fekitoa também se adornou integralmente de preto (chuteiras incluídas) em 2015, quando os All Blacks conquistaram o Campeonato do Mundo, antes de ir jogar para França, Inglaterra e Irlanda; já se estreou pela seleção do Tonga, à semelhança de Charles Piutau, arrier e outro ex-internacional pela Nova Zelândia. A eles juntou-se Israel Folau, destaque durante anos na seleção da Austrália até a federação terminar o seu contrato após fazer comentários polémicos contra homossexuais e casamentos entre pessoas do mesmo sexo com base na sua interpretação da Bíblia.

Este trio de casos ilustram as vantagens inflacionadas aquando da votação das alterações, em novembro de 2021, de que as nações de segundo e terceiro plano do râguebi iriam beneficiar da maior ‘facilidade’ em recrutarem jogadores de outro nível, equilibrando assim uma modalidade que assenta numa balança disforme - a disparidade entre as seleções da Tier 1 para as restantes ainda é quase abissal. Olhando para o outro gume da faca, as novas regras também poderão levar os jogadores a limarem os seus dotes de planeamento - caso o possam, dedicam os melhores anos da carreira à seleção mais forte pela qual são elegíveis, dando depois três anos de tempo até conseguirem representar outra nação lá mais para o minguar da luz das suas carreiras.

A hipótese de Tawera Kerr-Barlow saltar de uma das melhores seleções do mundo para outra (terá sempre de ter uma de três vagas na “Regra Giteau”, que permite convocar australianos que joguem no estrangeiro desde 2015, quando a federação criou a exceção para chamar a antiga lenda ao Mundial) não pareceu agradar, de todo, a quem hoje se pede que escolha os All Blacks. “É uma consequência das mudanças nos critérios de elegibilidade, não assenta bem em mim, mas ele tem esse direito (...) não há qualquer julgamento”, opinou Ian Foster, selecionador da Nova Zelândia que já integrava a estrutura técnica quando Kerr-Barlow ainda era convocado.

O treinador redundou, também, que “regras são regras” e assim vai o râguebi, agora com um novo e enorme leque de possibilidades de, daqui por uns anos, vermos jogadores que destroçaram corpos com uma bola oval nas mãos (os manos Vunipola, ingleses que têm raízes no Tonga, ou Virimi Vakatawa, gaulês nascido na Nova Zelândia e com pais fijianos) a trocarem de seleções, baralhando as diferenças de poderio entre nações que se julgavam ser de cimento.