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Jogadores australianos de râguebi boicotam camisola histórica de apoio à comunidade LGBTQ+ e reacendem debate sobre a homofobia no país

Sete atletas dos Manly Warringah Sea Eagles, da Liga Nacional de Rugby League da Austrália, irão faltar a um jogo importante por causa da nova camisola do clube

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Sete jogadores de râguebi dos Manly Warringah Sea Eagles, que disputam a Liga Nacional de Rugby League (NRL) da Austrália, vão boicotar um jogo importante em protesto contra a decisão do seu clube de usar uma camisola que apoia o orgulho gay. Na quinta-feira, os Sea Eagles vão tornar-se na primeira equipa da NRL a usar equipamento que promove a inclusão da comunidade LGBTQ+ no desporto.

A BBC diz que os atletas que rejeitam a ideia alegam questões religiosas e culturais, mas também o facto de não terem sido consultados previamente. O clube já veio pedir desculpa pela forma como tem lidado com a situação. O treinador, Des Hasler, afirmou que os Sea Eagles cometeram “um erro significativo” que provocou “confusão, desconforto e dor a muita gente”. “Particularmente aos grupos cujos direitos humanos estávamos precisamente a querer apoiar”, disse Hasler.

Numa conferência de imprensa esta terça-feira, o técnico não se coibiu de criticar o clube pela forma como conduziu o processo: “Eles [jogadores] não foram incluídos em qualquer das conversas e, no mínimo, deveriam ter sido consultados”.

As regras da NRL não permitem que jogadores da mesma equipa usem camisolas diferentes. Alguns média locais identificaram os sete jogadores que vão faltar ao jogo de quinta-feira, expondo as suas visões ao público em geral. As redes sociais foram, entretanto, inundadas de opiniões sobre a atitude dos atletas.

Pam Whaley, conhecida jornalista desportiva australiana, escreveu no Twitter: “O que me enfurece (e sempre me enfureceu) é que os jogadores boicotem um arco-íris, mas nunca o façam a um companheiro de equipa que tenha sido acusado de violência contra mulheres ou de outros comportamentos moralmente reprováveis”.

A BBC relata acusações de hipocrisia, uma vez que o clube é patrocinado por uma cervejeira e por uma agência de apostas. O treinador Des Hasler diz respeitar a decisão dos seus atletas e está preocupado com o seu bem-estar no meio do tumulto. Já Ian Roberts, antigo jogador do clube e o primeiro atleta da NRL a assumir a homossexualidade, diz que o boicote lhe “parte o coração”. “É triste e desconfortável”, disse Roberts ao “Daily Telegraph” de Sydney.

Até hoje, apenas algumas das muitas estrelas do desporto australiano declararam publicamente a sua homossexualidade. Ian Roberts diz que a homofobia continua bem presente entre adeptos e jogadores nas competições nacionais de topo.

O futebolista Josh Cavallo, do Adelaide United, que se assumiu em outubro, denunciou o abuso que tem sofrido da parte do público. Em 2015, Israel Folau, antigo jogador de râguebi ao mais alto nível, foi despedido pela Rugby Australia por publicar mensagens anti-gay nas redes sociais.

O primeiro-ministro do país, Anthony Albanese, elogiou a atitude dos Sea Eagles: “É importante que, na sociedade australiana, respeitemos todos pelo que são”.