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Como ser turista na Nova Zelândia? Os irlandeses já sabem: 28 anos depois, os All Blacks perderam uma série contra uma seleção visitante

Em 62 digressões feitas por uma seleção estrangeira à Nova Zelândia, esta é apenas a quinta vez que os turistas vão sair do país-papão do râguebi com uma vitória. Depois da estreia a ganhar de há uma semana, a Irlanda de novo venceu (22-32) os All Blacks, causando uma comoção na nação: há 28 anos que a equipa não perdia uma série de jogos contra um conjunto visitante

Diogo Pombo

Phil Walter/Getty

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Homens de musculatura refinada por incontáveis horas na companhia do ferro também choram, grotesco seria pensar o contrário, não há corpanzil que barre a emoção de chegar ao lugar cá dentro onde os olhos de humedecem até soltarem as comportas e este sábado, em Wellington, mal o característico silvado de um apito de râguebi soou pela última vez, eram vários os matulões de verde a taparem a cara com as mãos, a colarem-se em abraços e a pularem campo dentro com as molas da alegria.

O cenário era de tipos graúdos invadidos por felicidade descontrolada, quase de miudagem. Era noite na capital da Nova Zelândia, o país onde as ovelhas largamente superam as pessoas em número e outro dos estereótipos colados à nação é o de ser um lugar onde o râguebi é sagrado, onde os postes unidos por uma trave brotam como árvores em qualquer pedaço de relva e toda a criança é adubada pelo sonho ser alguém com uma bola oval nas mãos. No sábado, também foi contra tudo isto que os irlandeses jogavam.

Eles e qualquer colheita do melhor que um país tenha para jogar râguebi que vá em digressão à Nova Zelândia sabem-no: a par com ganhar um Mundial, ir à terra dos All Blacks e tentar ganhar-lhes numa série à melhor de três jogos é o cálice da modalidade do qual mais tramado é bebericar. Mas, ao som do derradeiro apito já na manhã deste sábado em latitudes portuguesas, os jogadores da seleção da Irlanda rejubilavam com uma vitória por 22-32 frente à equipa que faz gazeta quando perde.

Porque é raro, ou pelo menos costumava ser.

Os integralmente equipados de negros venceram o primeiro dos duelos por 42-19, margem ludibriosa que intuía a uma supremacia da seleção que já conquistou três Mundiais. Volvida uma semana, porém, os irlandeses empataram a série com um 12-23, por si só, escriba de história. Foi a primeira vitória da Irlanda em terras neozelandesas, logo aí se motivou uma festa mesmo que contida à falta do derradeiro jogo em Wellington, onde os homens da seleção do trevo garantiram de vez que a sua condição de turista será recordada para sempre.

Ao intervalo, a Irlanda vencia por 19 pontos pelos castigos metódicos que impunha a cada erro cometido pelos neozelandeses, cheios de falhas no jogo à mão e nas formações alinhadas que os visitantes ora forçavam, ora aproveitavam à primeira oportunidade. Guiados por Jonathan Sexton, o médio de abertura de 37 anos que apenas falhou um pontapé, ultrapassou os mil pontos marcados pela seleção (apenas o segundo jogador a fazê-lo) e a quem o nadir da carreira não lhe está a fazer mal algum (chegou à final da Champions do râguebi com o seu Leinster, onde perdeu com os franceses do La Rochelle), os irlandeses, depois, sustiveram o que se esperava dos All Blacks.

Sendo-lhes tão típica a reação de rompante quando se apanham a perder, indo buscar o melhor que têm em cada jogador - individualmente, têm o melhor talento do mundo - e atinando toda a gente para o resgate de um resultado, os neozelandeses forçaram-se contra os adversários, marcando três ensaios. Um deles teve o centro Will Jordan a correr quase 80 metros de campo, com a derradeira imagem de ser Johnny Sexton a tentar vagarosamente alcançá-lo e aos 13 anos que os separam na idade.

Mas os irlandeses resistiriam. “Os turistas merecem inteiramente o reconhecimento e aclamação que lhes será dirigido”, lê-se no “New Zealang Herald”, que cronicou a derrota dos All Blacks com “os sons de gritos ensurdecedores por mudança” e “os recordes indesejados que continuam a aparecer”. Escrevendo do outro lado da barricada, o irlandês “Independent” defende que “na verdade, teria sido uma travestia se a Irlanda tivesse perdido o jogo”, pois os seus jogadores “foram muito melhores e clínicos”.

Joe Allison/Getty

A vitória é bastante engrandecida se for contextualizada, primeiro com outro facto vivido em campo - a Nova Zelândia jogou durante 10 minutos com mais um jogador, devido a um cartão amarelo -, depois com a bagagem da história.

A Irlanda fica como apenas a quinta seleção a levar do país a conquista de série de jogos e tal já não se via desde 1994, quando a França dos seus tempos de râguebi frenético de passes à mão, de recurso aos pontapés só em última instância, se impôs aos All Blacks. Antes, só os vizinhos da África do Sul e a Austrália lograram o mesmo, além dos British and Irish Lions, que não são uma seleção convencional: reúnem-se, por norma, a cada quatro anos para uma digressão numa das três nações mais fortes do hemisfério sul, com um misto dos melhores jogadores dos cinco países britânicos que disputam o torneio europeu das Seis Nações.

Foi a 62.ª vez que a Nova Zelândia se armou em anfitriã de uma digressão alheia e a magreza da repetência dos números ajuda a compreender as lágrimas de êxtase que se soltaram no final do jogo, em Wellington. Para acrescentar ao choro de felicidade, os irlandeses são a primeira seleção a conseguir o feito na era profissional do râguebi, que arrancou em 1995. Virando a agulha para a própria Irlanda, entende-se um coche mais o oxigénio rarefeito desta proeza. Foi a quinta vitória frente aos All Blacks e até é bem recente: aconteceu em 2016, na neutra cidade de Chicago.

Os homens não choram por isto, a vida é obreira mestra de ocasiões que puxam pelas lágrimas e especializa-se nessa função junto de cada pessoa, mas, quando os motivos são risonhos e a raridade se junta à felicidade, acontece isto. Uns irlandeses feitos turistas pelo râguebi a chorarem por uma conquista histórica.

Os homens não choram por isto, a vida é obreira mestra de ocasiões que puxam pelas lágrimas e especializa-se nessa função junto de cada pessoa, mas, quando os motivos são risonhos e a raridade se junta à felicidade, acontece isto. Uns irlandeses feitos turistas pelo râguebi a chorarem por uma conquista histórica. Falando sobre quem ficou por casa, Jonathan Sexton deixou uma garantia: “Tenho a certeza que há muitas caras felizes na Irlanda. As nossas celebrações não foram as mais humildes, mas só demonstra o significado que tem para nós”.

E o feito pode ficar como irrepetível quase por decreto, porque antevê-se, por estes dias, que a World Rugby venha a alterar em breve o calendário internacional, reformulando-se os períodos para jogos entre seleções e acabando com o formato típico de reservar alturas do ano (em novembro/dezembro e em junho/julho) para que seleções partam em digressão para o lado de lá da linha do equador. Algum mantimento para as lágrimas dos irlandeses também terá vindo desta hipótese.