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De Montevidéu a Doha, episódio 2: Maradona e os Mundiais, uma história de alegrias e tristezas, sonhos e pesadelos, céu e inferno

De Montevidéu a Doha

El Grafico

A vida de Diego Armando Maradona não se entende sem os Mundiais, o “sonho” de criança que o glorificou em 1986. Da tristeza por não ter sido convocado em 1978 às epopeias do México, das dores de 1990 às “pernas cortadas de 1994”, passando pela experiência como selecionador em 2010, recordamos el diez com a ajuda de quem viveu muitos destes episódios por dentro. De Montevidéu a Doha é a rubrica em que, semanalmente e até ao arranque do Mundial no Catar, a Tribuna Expresso trará reportagens e entrevistas sobre a história da mais importante competição global

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Pedro Barata

Pedro Barata

Jornalista

A bola parece quase do tamanho da criança, numa desproporção que pode levar a pensar que aquele objeto lhe causa desconforto ou estranheza. Mas mal o rapaz, de 10 anos e com uma camisola com o número 10 às costas, começa a dar toques na bola, a sensação é de união cósmica, de dança elegante, de suave saltitar em doces toques de pé esquerdo ou intermináveis carícias no topo da cabeça.

Num potrero de um bairro desfavorecido de Buenos Aires, rodeado de casas sem luz ou água canalizada, Diego Armando Maradona, um ser com uma década de vida, mostra a intimidade com a bola que o levava a já causar burburinho e sensação no apaixonado mundo do futebol argentino. Depois de ter mostrado o magnetismo que o seu corpo tinha para com o brinquedo que sempre fora o predileto, el pelusa — alcunha dada pela sua família pela quantidade de pêlos que desde cedo teve em todo o corpo — foi questionado sobre aquilo em que a mente pensava quando os olhos se fechavam e podiam viajar pelas esquinas da imaginação.

“O meu sonhar é jogar no Mundial”, foram as palavras que saíram da boca do primeiro homem filho de Doña Tota e Don Diego, depois de quatro raparigas.

Passados 47 anos daquele dia de 1970, em 2017, o mesmo homem está sentado numa cadeira. Só tem 57 voltas ao sol, mas viveu tantas vidas, deu tantas voltas numa montanha-russa pessoal que até levou a que, por mais do que uma vez, o declarassem morto, que o seu corpo parece de alguém bem mais velho. O olhar não reluz como outrora, a voz é pesada e rouca, o raciocínio não é tão claro.

Mas algo muda quando um objeto de 36,8 centímetros e 6,1 quilos lhe é dado para as mãos. A cara enche-se de uma felicidade ternurenta, como que indo buscar sentimentos puros que, outrora, teriam enchido a alma do pibe de Villa Fiorito, o bairro pobre de onde vem.

Uff, é linda”, é o primeiro que Maradona diz quando agarra o troféu de campeão do mundo.

A 29 de junho de 1986, debaixo de um sol abrasador no estádio Azteca, na Cidade do México, Diego levantara, como capitão, aquele mesmo troféu, depois de a Argentina bater, por 3-2, a Alemanha Federal. E ali, 31 anos depois, el diez reencontrava-se com o “mais bonito” que “pode passar a um jogador de futebol”, que é “saber quanto pesa” aquele pequeno pedaço de glória global.

La amo!”, exclama.

31 anos depois de 1986, um reencontro: Maradona e o troféu mais desejado em 2017

31 anos depois de 1986, um reencontro: Maradona e o troféu mais desejado em 2017

Alexander Hassenstein - FIFA/Getty

Desde que, na primeira aparição televisiva com 10 anos, Maradona falou do “sonho” que tinha, que o Mundial foi a competição futebolística que mais umbilicalmente esteve ligada à vida do mais icónico jogador da história da mais popular modalidade desportiva do planeta.

Se para relatar a vida de Maradona uma enciclopédia talvez se revelasse um formato demasiado pequeno, para contar toda a história de Diego e os Mundiais seriam precisos, pelo menos, vários livros, mas é possível tentar recordar um pouco do trajeto que resume o que foi o argentino: há glória suprema e descida aos infernos, idolatria e iconografia extremas e saídas pela porta dos fundos, desaparições precoces e ressurreições improváveis, tudo dentro de uma personalidade de tudo ou nada, sem pontos médios ou ponderados.

1978 e 1982: desilusão por ausência, desilusão por presença

É 17 de maio de 1978 numa Argentina governada pela ditadura militar. O Mundial começará dentro de 15 dias e, por isso, a seleção da casa já o prepara. Mas, naquela noite de inverno no hemisfério sul, um adolescente de 17 anos chora.

Carlos Ares, jornalista da revista “El Gráfico”, conta que encontrou Maradona sentado, lágrimas no olhos, debaixo de uma árvore. César Luis Menotti, selecionador argentino, acabara de deixar o grande prodígio do futebol mundial de fora da lista definitiva para a competição que se jogaria no país e Diego, o craque do Argentino Juniors que se estreara na equipa principal dois anos antes, em 1976, fora excluído no último momento.

O jornalista tentou consolar aquele rapaz desolado, dizendo-lhe “tens noção de quantos Mundiais vais jogar?” [spoiler: serão quatro nos 16 anos seguintes, com 21 jogos realizados, seis golos normais, um vindo de outro planeta e outro ilegal, com duas finais disputadas e um título ganho]. Mas Diego tinha uma preocupação fundamental.

“E agora como é que vou contar isto ao meu pai?”

Diego, ainda antes de Maradona: o jovem (ao centro, em baixo), com a família e amigos

Diego, ainda antes de Maradona: o jovem (ao centro, em baixo), com a família e amigos

Getty Images/Getty

No meio de um contexto político complexo, pela presença da ditadura, a Argentina de Menotti, sem Maradona, sagrar-se-ia, pela primeira vez, campeã do Mundo. Já Diego diria, anos depois, que naquele momento começou a aperceber-se que “a irritação era um combustível” para si.

Pouco depois daquelas lágrimas, em setembro de 1978, Juan Simón, um defesa do Newell´s Old Boys também nascido em 1960, conheceu Maradona. Tendo em vista o Mundial sub-20 do ano seguinte, no Japão, Menotti começara a trabalhar com um grupo de jovens e, naquele dia, todos se juntaram no campo do San Lorenzo. Além do técnico campeão do mundo, também Diego foi, ainda que o estatuto que já tinha — a maior parte dos jogadores ainda não se tinham estreado na primeira divisão e ela já era uma das figuras da prova — fizesse com que, naquela sessão, só fosse assistir, e não treinar.

Ao telefone de Buenos Aires, Juan Simón recorda à Tribuna Expresso como era aquele canhoto que ainda não tinha atingido a maioridade: “Era um miúdo como nós, na verdade, apesar de incrivelmente mais talentoso. Olhando para trás, sinto que, naquela altura, Diego ainda não era Maradona, ainda não se transformaria em tudo o que foi depois, com tudo o que isso significa. Era um chico que, naquele grupo de gente da idade dele, se sentia muito protegido”, recorda.

Apesar da frustração provocada pela ausência do Mundial de 1978, Maradona sempre se confessou Menottista. A decisão não deixou sequelas na relação entre ambos, bem pelo contrário, garante Juan Simón, que lembra uma “relação de pai e filho” entre técnico e jogador que, julga, partilhavam “admiração mútua”.

Em 1979, aquele grupo venceria o Mundial sub-20, no Japão, na primeira glória internacional de Maradona. Com a base de 1978, a liderança de Menotti e o crescimento de Diego, a Argentina iria para o Mundial 1982, em Espanha, como favorita.

Maradona e Menotti num treino

Maradona e Menotti num treino

Sigfrid Casals

Mas se 1978 foi a desilusão pela ausência, a presença de 1982 não gerou tristeza muito menor. Em plena guerra das Malvinas, os jogadores estavam com um olho no relvado e com outro nas mortes que sucediam do outro lado do oceano. Osvaldo Ardiles, um dos principais jogadores daquela equipa, havia perdido o seu primo, o piloto José Leónidas Ardiles.

Na fase de grupos, a Argentina começou por perder 1-0 contra a Bélgica, batendo depois a Hungria por 2-1, com Maradona a fazer os seus dois primeiros golos em Mundiais. Um triunfo por 2-0 contra El Salvador abriria as portas de uma traumática segunda fase de grupos.

Diego disse, depois do campeonato, que a equipa “não estava fisicamente bem”. Houve também críticas ao local eleito para o estágio da equipa, perto de Benidorm.

E Maradona descobria, também, que ser um génio carregado de talento não era fácil, como se tamanha genialidade fosse um fardo a carregar. Além das expectativas que um jovem de 21 anos tinha que suportar, as marcações impiedosas de que seria alvo, com dureza impensável para os padrões de 2022, seriam um obstáculo a que Diego se teria de habituar.

Contra Itália, a Argentina perdeu por 2-1, com Gentile a fazer um implacável policiamento ao 10 adversário. “O futebol não é para bailarinas”, disse, depois da partida, o defesa da Juventus. Frente ao Brasil, a equipa de Menotti perderia por 3-1. Aos 85', com o destino da Argentina selado, a frustração de Maradona levou-o a fazer uma entrada muito dura perante Batista, futuro jogador do Belenenses, e a ser expulso.

Com o peso de uma guerra cujo resultado era manipulado pela ditadura militar argentina bem presente, as enormes expectativas e o tratamento de choque dado pelos adversários foram adversidades que aquele craque de 21 anos não conseguiu superar. Quatro anos depois de não ter estado presente no Mundial em casa, 1982 ainda não seria o campeonato de Diego. A consagração definitiva chegaria no México.

A dureza das marcações sofridas por Maradona, num Bélgica - Argentina de 1982

A dureza das marcações sofridas por Maradona, num Bélgica - Argentina de 1982

Mark Leech/Offside/Getty

A 28 de junho de 1983, o Barcelona realizava o seu último treino no Camp Nou antes da final da Taça da Liga contra o Real Madrid. Foi aí que Fernando Signorini, preparador físico, conheceu o compatriota Maradona. Três meses depois, em setembro, Diego sofreria uma lesão muito grave num duelo contra o Athletic Bilbao e, a partir de novembro, Signorini trabalharia pessoalmente com o jogador para o ajudar na recuperação.

De 1983 até 1996, Maradona e o seu preparador físico pessoal seriam uma dupla inseparável, que se voltaria a reunir quando Signorini, 10 anos mais velho que Diego, fez parte da equipa técnica do diez no Mundial da África do Sul, em 2010.

Fernando Signorini fala com o tom e música que os argentinos parecem dominar como ninguém, com um conteúdo cheio de referências, metáforas, imagens e ziguezagues discursivos. À Tribuna Expresso, resume a sua relação com Maradona como “de enorme amizade”: “Mais do que falar, eu ouvia-o e tentava falar pouco e dizer muito, ajudando-o a baixar um pouco os decibéis. Ele tinha sempre o acelerador no máximo, mas preparar um futebolista é muito mais cuidar da parte emocional que física. Foi isso que sempre tratei de fazer”, conta Signorini, que recorda “um rapaz fantástico, muito divertido e reguila, com uma ternura bárbara com a família e amigos”.

Tocar no tecto do mundo em 1986

Algum tempo depois de começarem a trabalhar juntos, Signorini virou-se para o seu pupilo e disse: “O próximo Mundial é feito para ti”. Ao ser jogado no México, com temperaturas elevadas — os encontros eram durante o dia —, com cidades localizadas a grande altitude e com baixa pressão atmosférica, Signorini apercebeu-se rapidamente que “esses elementos jogariam a favor dele”, porque “tornariam impossíveis marcações intensas e perseguições individuais durante 90 minutos, tal como as que vimos no Mundial de Espanha”.

Assim, ambos começaram a preparar o Mundial no início de 1986, como um ciclista que aponta um pico de forma para a Volta a França. Ainda que Signorini garanta que “treiná-lo era muito fácil”, sendo algo como “treinar um gato para caçar ratos, não é muito difícil porque sai tudo naturalmente”.

Diego e o brinquedo favorito, a 22 de maio de 1986, pouco antes do Mundial

Diego e o brinquedo favorito, a 22 de maio de 1986, pouco antes do Mundial

JORGE DURAN/Getty

A seleção era orientada por Carlos Salvador Bilardo, treinador nos antípodas, em termos de filosofia, de Menotti. Bilardo era o obcecado com a preparação, a ordem, um supersticioso sem grandes preocupações estéticas, que “vivia exclusivamente para o futebol e exigia que os jogadores fizessem o mesmo”, recorda Juan Simón, orientado por el narigón no Mundial 1990; Menotti era uma espécie de defensor do jogo pensado, pausado, de toque, com um discurso cheio de metáforas, longe das ideias diretas do seu sucessor na seleção.

Mas o caminho para o México foi turbulento, com uma grande divisão em torno da seleção e resultados frouxos, o que levou a que, na antecâmara do torneio, fosse “utópico pensar em vencer o Mundial”, recorda Signorini. Com efeito, a Argentina só assegurou a qualificação no último jogo, contra o Peru, com um golo do tigre Gareca perto do final.

Enquanto o coletivo gerava dúvidas, Diego, já estrela em Nápoles, ia ultimando a sua preparação com Signorini. O preparador acompanhava-o a todos os treinos no clube, desenhando-se planos de trabalho individuais e pensados para um atleta “com um físico não feito para esforços de larga duração, mas sim explosivos”, lembra.

Bilardo, para tentar afastar a seleção do ruído existente na Argentina, levou a seleção muito cedo para o México. O estágio foi “uma espécie de Alcatraz”, lembra Signorini, com quartos pouco luxuosos, condizentes com a ideia quase militar que o técnico tinha da preparação de uma equipa para uma grande competição

Maradona sempre se declarou 'Menotista', mas foi a duas finais de Mundiais com Bilardo

Maradona sempre se declarou 'Menotista', mas foi a duas finais de Mundiais com Bilardo

David Cannon/Getty

“Nunca vi um jogador tão determinante para a conquista de um Mundial. O treinador do Canadá, que foi a pior equipa do torneio, disse que com Maradona eles teriam vencido a competição”.

As palavras de Fernando Signorini expressam o que os olhos testemunharam durante aquele mês no México. Foram cinco golos, a assistência para o golo do título, uma infinidade de fintas elásticas, malabarismos circenses, receções com cola pegajosa, passes impossíveis de ver até para os pássaros e uma liderança maradoniana, quase de caudilho. Depois daquele Mundial, não havia dúvidas sobre quem era o número um.

¿DE QUÉ PLANETA VINISTE?

Mas, se a Taça foi levantada na final contra os alemães, nenhuma partida daquele Mundial — nem da carreira de Maradona — concentra tanta mitificação como a que se disputou a 22 de junho de 1986.

Com o sofrimento causado pela guerra das Malvinas ainda bem fresco na memória, Argentina e Inglaterra defrontaram-se nos quartos-de-final. Em escassos segundos, entre os minutos 51 e 54, concentraram-se quase todos os Maradonas que havia em Diego.

Primeiro foi o rapaz rebelde, indiferente às convenções ou juízos sociais. O patriota exacerbado que marcou um golo com a mão e recordou as mães que choraram pelos filhos mortos na guerra; depois foi o génio, o escultor, o artista capaz de fintar meia equipa e marcar “o golo do futebol”, como o chamou Guillermo Coppola, seu histórico empresário.

“Em 20 segundos está Diego: uma personalidade maniqueísta, incómoda para os conservadores e hipócritas, mas incomparável, cheia de cor quando muita gente não sai de uma variante de cinzento”, comenta Signorini.

Um dos mitos mais recorrentemente abordados na Argentina é o do “Sueño del pibe”, nome de um tango de 1942. Na canção fala-se de uma criança que, graças ao futebol, consegue subir na vida e tirar a sua família da pobreza.

O tema, que foi depois cantado por Maradona, descreve um jogador que “agarra na bola” e “finta-os a todos”, marcando um golo heróico. Mais de quatro décadas depois da composição musical, Maradona marcou esse golo, entrando para o topo do imaginário lendário de um país.

No topo do mundo: Diego depois da final de 1986

No topo do mundo: Diego depois da final de 1986

ullstein bild/Getty

Com o Mundial de 1986, e em particular com a exibição contra Inglaterra, Maradona tornou-se no símbolo nacional que repõe orgulho pátrio perante o opressor colonial; cumpriu o destino do rapaz pobre que sai de um bairro e triunfa no mais elevado patamar — “deram-me um pontapé no traseiro e fui de Villa Fiorito para o topo da Torre Eiffel”, descreveu ele; ergueu-se como líder de um grupo de homens que não era o mais talentoso, porque Diego sempre foi herói e proteção na adversidade: sustento para uma família pobre, craque para um Nápoles anteriormente humilhado, capitão para uma Argentina necessitada.

O êxito no Mundial e a devoção que despertava em Nápoles levou, definitivamente, a uma espécie de multiplicação da identidade daquele jovem de 25 anos. Fernando Signorini explica-o na primeira pessoa.

“Um dia, fui jantar com ele num restaurante dos arredores de Nápoles. Mal chegámos, as pessoas tentavam aproximar-se dele, agarrando-lhe no cabelo, metendo as mãos nos nossos pratos, uma loucura. No dia seguinte, ele estava a conduzir o carro para o treino e eu disse-lhe: ‘nunca mais me convides para ir jantar fora. Com Diego eu vou até ao fim do mundo, mas com Maradona não vou, sequer, ao fim da esquina. Encarrega-te tu do Maradona’. Ele sorriu, olhou-me e disse ‘tens razão, mas sem Maradona eu ainda estava em Villa Fiorito’”.

"Maradona foi a personagem defensiva que Diego inventou para conseguir suportar o assédio, a perseguição, com ter passado, num ápice, de rapaz pobre para a pessoa mais famosa do mundo. Mas, para ele, a defesa era atacar, os medos e as inseguranças levaram-no ao ataque. Por outro lado, Diego era o Diego da intimidade, um rapaz incrivelmente carinhoso. Mas quando saía à rua, uff, tinha de se vestir de Maradona".

1990 e 1994: dor, choro, ressurreição, queda

De 1986 a 1990, Maradona consolidou o estatuto de astro do desporto mundial, com títulos nacionais e europeus no Nápoles. O Mundial de Itália era a oportunidade para um bicampeonato inédito para a Argentina, mas havia alguns condicionamentos à partida.

Juan Simón (à esquerda), Goycochea e Maradona, antes da final do Mundial 1990

Juan Simón (à esquerda), Goycochea e Maradona, antes da final do Mundial 1990

Alessandro Sabattini/Getty

Por um lado, as “condições climatéricas não o favoreciam tanto como no México”, recorda Signorini, e por outro “a seleção não jogou bem nos meses antes do torneio”, assume Juan Simón. O defesa foi, além de Maradona, o único jogador da seleção a ter disputado todos os minutos de todos os jogos, uma “honra enorme” num “momento que foi o culminar da carreira” para quem passou, além do Newell's, por Mónaco e Estrasburgo, em França, e Boca Juniors.

A juntar a isto, aquele verão das notte magiche foi um conjunto de provações físicas para El Pibe. Diego começou “a preparação com uma forte gripe”, lembra Juan Simón, e depois “teve de ser-lhe arrancada uma unha do pé esquerdo e feita uma de carbono", diz Signorini. Na estreia, contra os Camarões — que a Argentina perdeu por 1-0 —, Maradona levou um golpe duro no tornozelo e a partir daí jogou “como um pianista a quem tinham dado com um martelo nos dedos”, compara o preparador físico.

“Qualquer jogador com o tornozelo naquele estado não jogava. Ele infiltrava-se e ainda fazia um buraco na ponta da bota para que esta não roçasse no dedo gordo. Disputou todos os minutos de todos os jogos, mas em condições muito difíceis”, resume Juan Simón.

Apesar da inferioridade física da sua estrela e de um futebol pouco convincente, a competitividade argentina e a mestria do guardião Sergio Goycochea nos penáltis, desempate através do qual foi eliminada a Jugoslávia nos quartos-de-final e Itália nas meias-finais, foi permitindo aos campeões do mundo avançarem.

Ainda assim, houve momentos de genialidade em 1990. Contra o Brasil, nos oitavos-de-final, o astro diz que, ao minuto 80, “acendeu-se a lâmpada” de génio que tinha dentro de si: ludibriou três adversários, passou a bola por entre as pernas de Ricardo Rocha e assistiu Caniggia, que marcou.

Com o Brasil aos seus pés, em 1990

Com o Brasil aos seus pés, em 1990

Ross Kinnaird - EMPICS/Getty

Juan Simón não partilhava balneário com o seu companheiro de geração desde o Mundial sub-20, 11 anos antes, e diz que, “se em 1979 ele ainda era só Diego, ali já era Maradona. Líder, bandeira, referência”.

Depois do triunfo nos quartos de final, frente à Jugoslávia, o capitão chegou ao balneário e disse “vou dividir Itália”. Vinha aí um duelo frente aos anfitriões, disputado na Nápoles que tinha colocado Maradona no lugar de santo padroeiro da cidade, e o argentino, hábil entendedor de dinâmicas sociais, fez um apelo aos “napolitanos” — aos quais ele se dirigia sempre na primeira pessoa do plural —, lembrando que, enquanto o resto de Itália os desprezava, ele lutava há vários anos por eles e que, agora, tinha chegado a hora da retribuição em forma de apoio.

“Utilizou a figura dele para nos beneficiar a todos. Era o tipo de líder que assumia e concentrava toda a pressão para ele, libertando os outros”, expõe Juan Simón. O Itália - Argentina dividiu o público napolitano e, no final, os penáltis voltaram a fazer sorrir os vigentes campeões.

Na final, contra a Alemanha Federal, Juan Simón recorda “uma equipa muito debilitada”, pelas ausências de Caniggia, principal dianteiro, e Olarticochea, Batista e Giusti, campeões do mundo em 1986, todos suspensos. Ao intervalo, Ruggeri, outro vencedor de quatro anos antes, saiu lesionado, pelo que “a equipa jogou muito tempo carente de muitas referências".

Apesar das baixas, o espírito de luta da equipa voltou a vir ao de cima e, só aos 85' e já com a Argentina com 10 pela expulsão de Pedro Monzón, conseguiram os alemães marcar. “Só perdemos com um penálti em cima do final, e com um penálti que ainda hoje se discute se era falta ou não”, sublinha Simón sobre o lance que deu o golo a Andreas Brehme.

O choro depois da final perdida em 1990

O choro depois da final perdida em 1990

ullstein bild/Getty

A derrota foi o começo da primeira descida aos infernos de Maradona. Começaram os problemas em Nápoles e veio a primeira suspensão por doping, num positivo a cocaína que lhe valeu 15 meses de fora dos relvados. Houve uma temporada, 1992/93, em Sevilha, mas a seleção e os Mundiais pareciam capítulo terminado.

Aclamação popular

A 5 de setembro de 1993, a Argentina de Alfio Basile, renovada com jovens como Diego Simeone, Fernando Redondo ou Gabriel Batistuta — e com Beto Acosta como suplente utilizado —, era bicampeã da Copa América. O processo pós-Maradona parecia correr bem até que a Colômbia visitou o Monumental numa partida de qualificação para o Mundial dos EUA.

Argentina 0-5 Colômbia. O resultado chocante levou o público a lembrar-se de alguém que, nos três anos anteriores, pouco tinha jogado.

Diegooo, Diegooo, Diegooo

Pela pressão popular, Maradona disputou o play-off contra a Austrália. A Argentina venceu e estava no Mundial, mas Maradona não estava em condições de o disputar.

“Ele tinha estado suspenso e tinha 33 anos. Chegou a ter 15 quilos a mais e tinha um problema de vício de drogas”, diz Fernando Signorini. Então, para regressar ao topo do mundo, o preparador físico propôs a Diego “um regresso ao início”.

Como o herói mitológico que tem de descer aos infernos para chegar ao paraíso, Signorini levou Maradona para treinar na Pampa, no meio do campo, no meio do nada. Sem luxos, sem mediatismo. “Para chegar onde já chegaste tens de sair de onde estás, voltar a Fiorito e sentir a necessidade de dar tudo como no primeiro dia”, disse-lhe o preparador.

“Naquele período de treinos, ele deixou evidente o amor incrível que tinha pela bola, pela camisola da Argentina e pela família. Sofreu síndrome de abstinência, porque não levou nem um miligrama de cocaína. Queria tornar realidade o sonho de dedicar o Mundial à Dalma e à Giannina, que nunca tinham visto um”, recorda Signorini.

Diego treinou como nunca, num dos períodos mais romantizados da sua romantizada vida. Signorini recorda os treinos exigentes, o frio que fazia, os passeios pela natureza a ver o pôr-do-sol. O regresso aos 76 quilos, o peso ideal. Um “reencontro com o pelusa de Villa Fiorito, com a mente na bola e só pureza ao redor”.

Resultou. Porque, como metaforiza Signorini, “como um clone de uma Fénix, Maradona voltava sempre”. Um corpo que teve mil e uma formas, uma cabeça que foi além da estratosfera e desceu abaixo da terra, uma vida quase sem zona planas. Depois do doping, da suspensão, da semi-retirada, Maradona estava de regresso a um Mundial, à competição com a qual sonhara em criança.

Na primeira partida nos EUA, a Argentina ganhou por 4-0 e o capitão marcou um golaço, com celebração cheia de raiva junto à câmara incluída. Estava de volta. Basile, o técnico, estava “convencido” que aquele conjunto ergueria o título. O segundo jogo, contra a difícil Nigéria, foi um triunfo por 2-1.

Seria o último jogo de Maradona em Mundiais, o derradeiro pela Argentina. Depois do apito final, foi levado pela mão por uma enfermeira para o controlo anti-doping.

O último momento de Maradona num relvado num Mundial: sendo levado para o controlo anti-doping que daria positivo

O último momento de Maradona num relvado num Mundial: sendo levado para o controlo anti-doping que daria positivo

Michael Kunkel/Getty

Fernando Signorini tinha acabado de fazer um treino com Diego, que estava “muito feliz” por ter “conseguido fazer um alongamento que já não realizava há uns 10 anos”. Saltou, abraçou-se à mulher. Signorini estava no seu quarto e ia tomar um banho quando alguém bateu à porta.

Era Daniel Cerrini, nutricionista. “Diogo deu positivo a efedrina”, foi a bomba em forma de frase que o preparador físico ouviu.

Basile, o selecionador, foi quem comunicou a notícia ao jogador, à espera da contra-análise. Quando esta surgiu, Signorini estava num quarto, à frente do do capitão, quando um dirigente da Federação Argentina entrou. Mal o homem cruzou a porta, não foi preciso que dissesse nada para que fosse evidente qual o resultado da nova análise.

Signorini entrou no quarto de Diego, que estava a dormir. Despertou-o e disse-lhe, acariciando-lhe os caracóis. “Estamos fora”.

O preparador físico saiu da habitação e, dois minutos depois, ouviu um grito e um golpe muito forte na parede. Em seguida, Maradona saiu, com os olhos inchados de chorar, e deu uma entrevista em que proferiu uma das suas muitas frases históricas: “Cortaram-me as pernas”.

Diego sempre considerou aquele positivo uma conspiração, uma vingança do poder. Basile, o selecionador, associou o sucedido à influência de João Havelange, brasileiro presidente da FIFA.

Signorini considera que aquela foi “a pior tristeza da vida desportiva de Maradona” e acredita que o jogador foi vítima “de uma manipulação do poder”: “O Mundial tinha um valor de marketing se fosse vendido com Maradona, e outro se fosse vendido sem Maradona. Então, venderam o Mundial com ele mas, depois, fizeram-no pagar o preço de ter sido tão irreverente e rebelde com o poder. Diego nunca fumou o cachimbo da paz e ali fizeram-no pagar essa ousadia”.

Com uma segunda suspensão em pouco tempo, Maradona foi definhando até ao final da carreira. Penduradas as botas, a vida deixou de fazer sentido para quem só foi verdadeiramente feliz dentro de um campo de futebol.

E voltaram as drogas, as dívidas, as polémicas. Clínicas de reabilitação, passagens por Cuba, conflitos contra tudo e todos. O anúncio da sua morte depois de uma festa de fim de ano.

Uma imagem deteriorada, de anjo caído, de Maradona que já só continha a parte bélica de Maradona e tinha perdido a ternura de Diego. Mas há tantos Maradonas em Diego que o regresso é sempre possível.

Em agosto de 2004, um Maradona obeso vai à televisão dizer que “está a perder por knockout. Parece mentira ou fantasia, mas quatro anos depois era o selecionador nacional argentino.

2010: “Ternura” com Messi, “ansiedade” contra Alemanha

Em 2008, Diego assumiu o comando técnico do “maior amor desportivo” que viveu. O caminho rumo à África do Sul foi complicado — a derrota por 6-1 na Bolívia, o épico golo de Palermo ao Peru, o “que la chupen” depois de obtida a qualificação —, mas lá estava Diego, em junho de 2010, no seu quinto Mundial, o primeiro no banco.

Signorini e Maradona falam num treino antes do Mundial 2010

Signorini e Maradona falam num treino antes do Mundial 2010

DANIEL GARCIA/Getty

Para a equipa técnica, o agora treinador chamou Fernando Signorini, que “não esperava” voltar a viver um campeonato com quem “só tinha falado três ou quatro vezes ao telefone” nos derradeiros 14 anos. “Mas, como diz José Luis Borges, a amizade não precisa da frequência, ao contrário do amor”, assinala.

Em 2010, Diego orientou Lionel Messi, o único da interminável lista dos “novos Maradonas” que não foi sufocado pelo rótulo. Signorini recorda uma “relação extraordinária, de muita ternura” entre os dois craques, que eram como “o mestre e o seu melhor aluno”, com “uma profunda admiração mútua”.

No Mundial da África do Sul

No Mundial da África do Sul

JUAN MABROMATA/Getty

Como sempre que havia Maradona no caminho, África do Sul 2010 foi marcado pelo folclore à sua volta. Dos treinos a fumar ao “chamava Copperfield” quando questionado sobre os comentários de Cristiano a Queiroz, passando pelo espetáculo que dava em todos os jogos.

Depois de uma fase de grupos e uns oitavos-de-final superados sem problemas, a Alemanha foi o adversário rumo às quatro melhores equipas da competição. Aí, a desequilibrada seleção de Maradona foi atropelada pela vertigem germânica, com um 4-0 que não deixou dúvidas.

Signorini recorda “um plantel muito jovem”, que ficou “muito ansioso” quando a Alemanha marcou logo aos 3 minutos. “Messi, Otamendi, Aguero, Di María, Higuaín, Pastore ou Romero tinham todos 23 anos ou menos, nós pagámos isso. A Alemanha, simplesmente, era melhor”.

O “ás de espadas”

O Mundial 2010 foi o último com presença desportiva de Maradona. Em 2014 e 2018 foi comentador televisivo, convidando todo o tipo de estrelas para o seu programa com Victor Hugo Morales, o narrador do mítico golo a Inglaterra.

Tal como as suas intensas arrancadas, a vida mitificada de Maradona parece ter sido construída para momentos de máxima vibração, mas nem sempre de longa duração. Os Mundiais, concentração de emoções globais em escassas semanas, foram o palco preferencial para a expressão de todas as faces maradonianamente possíveis, sem travões.

Fernando Signorini, antes de desligar o telemóvel, pede para fazer uma última reflexão. “Quando os crentes dizem que deus fez todos os homens iguais, eu digo que com estes génios se deve ter enganado, deve tê-los deixado mais tempo a cozer na panela”.

E como era partilhar um campo com Diego? Juan Simón responde: “Era como jogar com um extra-terrestre. Na Argentina há o truco, um jogo de naipes, cujo carta mais importante é o ás de espadas. Nós jogávamos sempre com o ás de espadas, tínhamos algo que mais ninguém tinha”.

“Eu conheci-o desde os 18 anos, mas sempre tive a sensação de estar a jogar com deus ao meu lado”.

De Montevidéu a Doha é a rubrica em que, semanalmente e até ao arranque do Mundial no Catar, a Tribuna Expresso trará reportagens e entrevistas sobre a história da mais importante competição global. Desde a primeira edição, no Uruguai em 1930, até à que se realizar em novembro e dezembro, vamos recordar figuras, destacar heróis e realçar proezas, não ignorando as questões de direitos humanos associadas ao Catar

  • De Montevidéu a Doha, episódio 1: o que fazer para remediar um pouco um Mundial imoral e manchado de sangue?
    De Montevidéu a Doha

    Nada devolverá a vida aos pelo menos 6.500 trabalhadores migrantes que, segundo uma investigação do “The Guardian”, morreram na construção das infraestruturas do Mundial, nem se recuperará uma década de promoção de um país com graves desrespeitos pelos direitos das mulheres ou onde a homossexualidade é crime. Mas diversas organizações pressionam a FIFA, as Federações ou os jogadores para que ainda façam algo para que este Mundial não seja “uma oportunidade perdida”. De Montevidéu a Doha é a rubrica em que, semanalmente e até ao arranque do Mundial no Catar, a Tribuna Expresso trará reportagens e entrevistas sobre a história da mais importante competição global

  • Vi os 630 minutos de Diego Armando Maradona em 86 e também eu pergunto de que planeta veio Ele
    Futebol internacional

    Passam-se sete dias da morte de Maradona, a Tribuna Expresso viaja até ao México-86 para explicar o que por lá aconteceu. Jogo por jogo, com análises e confissões, num texto que é uma homenagem ao futebolista cósmico a quem chamaram Deus. No dia em que faz um ano da morte de Maradona, recordamos El Pibe de Oro com este texto originalmente publicado a 2 de dezembro de 2020

  • “Maradona, sueño bendito”: retratos da vida de um imortal
    Futebol internacional

    A série original da Amazon, que estreia esta sexta-feira, leva-nos por uma viagem ao planeta de Diego, desde o começo em campos de terra em Villa Fiorito até ao sofrimento com as drogas, passando pela glória desportiva. Um ano após a morte de Maradona, continua bem presente o legado de alguém que, mais do que uma estrela do futebol, é um ícone cultural