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De Montevidéu a Doha, episódio 1: o que fazer para remediar um pouco um Mundial imoral e manchado de sangue?

De Montevidéu a Doha

As queixas sobre abusos cometidos sobre trabalhadores migrantes que participaram nas obras de construção dos estádios no Catar, para o Mundial deste ano, têm sido recorrentes

Francois Nel/Getty

Nada devolverá a vida aos pelo menos 6.500 trabalhadores migrantes que, segundo uma investigação do “The Guardian”, morreram na construção das infraestruturas do Mundial, nem se recuperará uma década de promoção de um país com graves desrespeitos pelos direitos das mulheres ou onde a homossexualidade é crime. Mas diversas organizações pressionam a FIFA, as Federações ou os jogadores para que ainda façam algo para que este Mundial não seja “uma oportunidade perdida”. De Montevidéu a Doha é a rubrica em que, semanalmente e até ao arranque do Mundial no Catar, a Tribuna Expresso trará reportagens e entrevistas sobre a história da mais importante competição global

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Pedro Barata

Pedro Barata

Jornalista

6.500 mortes.

A 20 de novembro de 2022, o Catar-Equador dará início à 22.ª edição do Mundial de futebol, a mais importante competição da modalidade desportiva mais popular do planeta, organizada pela FIFA, entidade com 211 membros, mais do que a Organização das Nações Unidas. A FIFA, que entre 2015 e 2018 faturou €5,9 mil milhões e tem €2,5 mil milhões em reservas, calcula que lucrará cerca de €5,7 mil milhões com o Mundial 2022, fazendo do torneio o mais rentável de sempre para a organização.

Mas há uma mancha de sangue por debaixo de cada estádio onde a bola rolar, de cada principesco hotel onde comitivas se alojarem, de cada estrada sobre a qual andarão carros de alta cilindrada transportando dirigentes e variados altos cargos.

Uma investigação do “The Guardian”, publicada em fevereiro de 2021, revelou que 6.500 trabalhadores da Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka morreram na construção de infraestruturas associadas ao Mundial desde que, em 2010, o torneio foi atribuído ao Catar, a um ritmo de 12 falecimentos por semana de um cidadão destes cinco países. Contactadas pela Tribuna Expresso, organizações como a Amnistia Internacional, a Equidem e a Human Rights Watch indicam que a maioria destas mortes são oficialmente atribuídas a “causas naturais”, não se ativando seguros e deixando famílias que dependiam do dinheiro destes trabalhadores sem nada.

Muitas destas pessoas que foram para o Catar trabalhar em obras relacionadas com o Mundial tiveram de pagar “taxas de recrutamento” ilegais na casa dos €1.200. Maya Kumari Sharma, embaixadora nepalesa em Doha, disse que o Catar se tornou “numa prisão a céu aberto” para os trabalhadores do seu país.

Um trabalhador numa das camaratas que acolhiam diversos migrantes que trabalhavam nas obras para o Mundial 2022, fotografado em maio de 2015

Um trabalhador numa das camaratas que acolhiam diversos migrantes que trabalhavam nas obras para o Mundial 2022, fotografado em maio de 2015

MARWAN NAAMANI/Getty

Mustafa Qadri é o fundador da Equidem, organização que investiga e protege os direitos humanos e laborais de comunidades marginalizadas. A entidade conta com vários trabalhadores em Doha, que contam as suas experiências em relatórios. Uma profissional de limpeza num dos hotéis oficiais do Mundial revelou, num estudo publicado pela Equidem, que se queixou a um dos gerentes do local onde trabalhava de “assédio sexual” por parte de clientes. “Isso é normal, é a natureza do trabalho”, foi a resposta que Mustafa Qadri diz à Tribuna Expresso que a mulher, cidadã indiana, recebeu.

Atribuído em 2010 ao Catar de forma comprovadamente corrupta, o Mundial 2022 é uma competição multimilionária que centra as atenções do mundo e se realizará em instalações — hotéis, redes de transportes, estádios — luxuosas num país que, segundo o FMI, é o quarto com maior PIB per capita do mundo. Tudo isto assenta numa mancha de sangue, violação de direitos humanos, impunidade e ganância que não deixa dúvidas: estamos na presença de um campeonato alicerçado em imoralidade.

“O primeiro Mundial feito num país maioritariamente muçulmano poderia estar a ser uma grande história sobre como o futebol ajudou a mudar as coisas no Catar e, consequentemente, no Médio Oriente, mas a história está a ser a oposta: como o futebol ajudou a que morressem pessoas, sem indemnizações que deixaram famílias inteiras sem dinheiro, encobrindo e lavando a imagem de um país onde a homossexualidade é um crime e as mulheres precisam de autorização masculina para tomarem decisões sobre a sua vida”, resume Mustafa Qadri.

Mais de uma década de sinais ignorados

O Mundial foi atribuído ao Catar em 2010, num processo de votação em que participaram 22 homens do Comité Executivo da FIFA. Desses, 16 foram banidos ou acusados por corrupção, estiveram envolvidos numa investigação do FBI à corrupção no futebol ou foram acusados de violação ética nos últimos anos.

Sepp Blatter no momento em que a organização do Mundial foi atribuída ao Catar

Sepp Blatter no momento em que a organização do Mundial foi atribuída ao Catar

Laurence Griffiths/Getty

Entre eles estavam Sepp Blatter, então presidente da FIFA, condenado por “violação do dever de lealdade, conflitos de interesse e subornos quanto a torneios da FIFA”. Blatter, segundo as diversas investigações, aceitou pagamentos ilegais no valor de €22,4 milhões e aprovou outros €44,8 milhões em “benefícios económicos indevidos a funcionários da entidade”; e Michel Platini, na altura líder da UEFA, suspenso por seis anos de exercer atividades no futebol após receber €1,6 milhões de Blatter em 2011. A quantia, não registada nas contas oficiais da FIFA, foi, segundo os condenados, o pagamento por um “contrato verbal” existente entre ambos pelo trabalho feito, no período de 1998 a 2002, pelo francês como conselheiro do suíço. A transferência, descreveriam as autoridades, tratou-se de uma “omissão séria” que “poderia ser vista como falsificação de contas”

As investigações feitas pelo FBI levaram a que, a partir de 2015, quase todos os altos cargos da FIFA fossem caindo como um frágil castelo de cartas, assente em anos de “lavagem de dinheiro, corrupção, subornos e más práticas em geral”, conforme se lê nos relatórios da investigação. O processo culminou na saída de Blatter da entidade e na eleição, em fevereiro de 2016, de Gianni Infantino.

A aposta do Catar em acolher este Mundial insere-se na política de sportswashing seguida pelo país, utilizando “eventos desportivos, de grande mediatismo e que tocam na paixão e irracionalidade das massas, para lavar, melhorar e encobrir a imagem de países ou regimes com graves problemas de direitos humanos”, define, em conversa com a Tribuna Expresso, Wolfgang Buettner, diretor associado da Humans Rights Watch na Alemanha.

O investimento no Paris Saint-Germain é outra parte fundamental desta política, que também é seguida na Arábia Saudita — investe no Newcastle e alberga competições de futebol ou Fórmula 1 —, pela China — organizadora dos Jogos Olímpicos de verão de 2008 e de inverno de 2022 — ou vista na Rússia — o beija-mão que houve a Vladimir Putin durante o Mundial 2018 é uma boa forma de entender como estas competições são fonte de legitimação e prestígio internacionais.

Nasser al-Khelaifi, o dono do PSG, ladeado por Nicolas Sarkozy e Aleksander Ceferin

Nasser al-Khelaifi, o dono do PSG, ladeado por Nicolas Sarkozy e Aleksander Ceferin

Anadolu Agency/Getty

Para Paulo Fontes, diretor de campanhas da Amnistia Internacional Portugal, “fazer um Mundial num país como o Catar, com os desafios que tem, não é por si só um problema”. É-o, sim, quando “não se utiliza a ocasião para fazer pressão para que existam mudanças positivas”, mas sim para “legitimar a imagem do país e agravar ainda mais a situação de certas pessoas, como estes trabalhadores migrantes”.

No congresso da FIFA, realizado no dia anterior ao sorteio do Mundial, a 1 de abril, Gianni Infantino, presidente da entidade, apresentou um vídeo que fez de intervalo entre duas partes do seu discurso final. As imagens projetadas no ecrã gigante mostravam elogios às “condições de segurança” e às “inspeções feitas” à construção dos estádios e demais infraestruturas.

À Tribuna Expresso, Paulo Fontes aponta para estudos da sua organização que mostram que, além das mortes, há “muitos outros abusos laborais” em torno das mesmas infraestruturas que merecem elogios por parte de Infantino. “O que algumas empresas de segurança contratadas para trabalhar em instalações do Mundial fazem pode ser considerado trabalho forçado”, porque “obrigam os seus empregados a trabalhar sem lhes ser dada a devida compensação e sem direito a qualquer folga ou descanso”. O dirigente aponta ainda “relatos que chegam” sobre “trabalhadores que passaram meses e meses sem folgas, sem terem baixa por doença ou que viram ser-lhes descontado o ordenado de dias em que, por exemplo, iam ao médico”.

Mustafa Qadri, da Equidem, acrescenta queixas sobre racismo, com “cidadãos de alguns países a revelarem que, por serem de onde são, recebem automaticamente menos que outros”. “Há algo de incrivelmente pernicioso em tudo isto: estes trabalhadores estão em ambientes de luxo e têm vidas de escravidão. E eles apercebem-se disso, não são parvos, e é muito duro”, aponta Qadri.

Os sinais destes abusos começaram a surgir pouco depois da atribuição do Mundial ao Catar. Ainda antes de virem a público as acusações de corrupção a Blatter, Platini e restante elite dirigente, já relatos desumanos chegavam do Catar.

Em 2013, uma investigação do “The Guardian” revelou as condições de “escravatura” na qual trabalhavam os migrantes que estavam na construção das infraestruturas para o Mundial do Catar. No verão desse ano, trabalhadores nepaleses terão morrido no país “ao ritmo de quase um por dia”, a maior parte devido a “ataques cardíacos ou acidentes no local de trabalho”.

Trabalhadores da construção do estádio al-Wakrah, em maio de 2015

Trabalhadores da construção do estádio al-Wakrah, em maio de 2015

MARWAN NAAMANI/Getty

Entre as diversas acusações, migrantes apontaram salários em atraso ou retidos para evitar que saíssem do Catar, confisco dos seus passaportes ou acesso negado a água enquanto trabalhavam no deserto. A investigação encontrou ainda trabalhadores que dividiam quartos entre 12 pessoas para dormirem ou que adoeceram devido à falta de condições de higiene dos seus alojamentos.

Tim Sparv, antigo capitão da seleção da Finlândia que já falou quer à distância, quer em encontros presenciais no Catar, com associações de trabalhadores ou de direitos humanos no pais, diz à Tribuna Expresso que “nem tudo é preto e branco” no Estado do Médio Oriente, havendo “casos de trabalhadores que ganham bom dinheiro e o mandam para casa”. Ainda assim, o antigo médio internacional pela Finlândia realça que “muitos vivem muito mal”, estando “desconectados da sociedade”, “sem apoio” e “sentindo-se invisíveis”.

Com mais de uma década de más práticas laborais nos locais que albergaram a sua endinheirada competição, para Paulo Fontes, da Amnistia Internacional, a FIFA “ou sabia, ou tinha a obrigação de saber” destes abusos. Wolfgang Buettner, da Human Rigths Watch, vai mais longe, apontando que “toda a gente sabia” que “a situação dos direitos humanos no Catar não era boa” e a FIFA “simplesmente nunca teve isso em consideração na avaliação da candidatura do país”.

O apelo (ainda não respondido) de indemnizações

Além das 6.500 mortes de trabalhadores da Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka que a investigação do “The Guardian” aponta, Paulo Fontes acredita que “existam muito mais mortes do que as contabilizadas”. Houve vários outros acidentes laborais que, indica Wolfgang Buettner, foram assinalados como “causas naturais”, sem indemnizações a serem pagas.

Desta forma, trabalhadores de regiões muito pobres, que tiveram de pagar “taxas de recrutamento” ilegais para irem para o Catar, deixaram “famílias inteiras sem pai, marido e o único sustento”, indica o diretor associado da Humans Rights Watch na Alemanha. “Na Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh, Sri Lanka e noutros locais há agregados familiares que deixaram de receber o único dinheiro a que tinham acesso por culpa da falta de condições nos trabalhos de preparação para o Mundial”, explica Wolfgang Buettner.

Nasser al-Khater, CEO do Mundial 2022

Nasser al-Khater, CEO do Mundial 2022

KARIM JAAFAR/Getty

Em maio, para tratar de repor algo de justiça — que já não será inteiramente cumprida, dada a irreversibilidade de muitos danos —, um grupo de 10 organizações humanitárias (incluindo a Amnistia Internacional, a Humans Rights Watch e a Equidem, com quem a Tribuna Expresso esteve em contacto nos últimos meses) redigiu uma carta aberta dirigida a Gianni Infantino, presidente da FIFA.

O apelo contido na missiva era que a entidade máxima do futebol internacional pagasse, pelo menos, €418 milhões, o valor do prémio monetário que será distribuído às seleções participantes, em indemnizações e compensações aos trabalhadores migrantes e respetivas famílias que sofreram abusos de direitos na construção de infraestruturas para o Mundial. A Amnistia Internacional indica que “será fácil” à FIFA pagar este valor, mencionando os “lucros de €5,7 mil milhões” que a organização prevê ter com a competição, além dos “€2,5 mil milhões que guarda em reservas”.

“O mínimo que a FIFA e as federações de futebol podem fazer é ajudar as famílias que perderam os seus entes queridos e o seu sustento nas construções de um evento milionário que lucra com estas tragédias”, opina Wenzel Michalski, diretor da Human Rights Watch na Alemanha. “Se a FIFA tem €177 milhões para pagar ao Beckham para ser embaixador do Mundial, então tem de ter dinheiro para compensar quem, literalmente, deu a vida para colocar a competição de pé”, acrescenta Mustafa Qadri.

No começo de julho, a FIFA comprometeu-se a responder ao pedido feito pelas organizações “no prazo de três semanas”. À Tribuna Expresso, fonte oficial da Amnistia Internacional indica que “a FIFA ainda não prestou respostas sobre se estão a ser estudados” estes mecanismos de indemnização, ainda que haja “esperança” que tal resposta “chegue até ao início de outubro”.

A Federação Portuguesa de Futebol integra um grupo de trabalho da UEFA, criado em maio de 2021, que se deslocou ao Catar para “discutir a defesa dos direitos humanos, direitos LGBTQI+ e liberdade de imprensa”, indicou a FPF em julho. A Federação garante que o grupo de trabalho “acordou o princípio de que qualquer ferimento ou morte em qualquer local de trabalho em qualquer país deveria ser compensado”, recordando, no comunicado publicado no início de julho, o compromisso da FIFA em “responder no prazo de três semanas” às organizações, algo que não sucedeu.

Janeiro de 2014: Bhupendra Malla, nepalês, atravessa uma estrada em Kathmandu com uma perna partida e problemas de mobilidade, danos sofridos a trabalhar nas construções no Catar para o Mundial

Janeiro de 2014: Bhupendra Malla, nepalês, atravessa uma estrada em Kathmandu com uma perna partida e problemas de mobilidade, danos sofridos a trabalhar nas construções no Catar para o Mundial

PRAKASH MATHEMA

Wenzel Michalski, diretor da Humans Rights Watch na Alemanha, diz à Tribuna Expresso que “a Federação Alemã tem repetido e sublinhado o seu apoio ao fundo de compensação”, um apoio que também foi manifestado pela Federação da Noruega, país que não se apurou para o Mundial. A Human Rights Watch, acrescenta Michalski, questionou a Federação Alemã sobre a possibilidade de esta colocar algum dinheiro para as indemnizações — o pedido inicial era para que a FIFA o fizesse —, mas esta “ainda não disse se o faria ou não”.

O dirigente apela a que “outras Federações sigam a liderança da Alemanha” e mostrem “de forma inequívoca” que apoiam esta intenção de compensação, sem estarem à espera do que a FIFA faça. “Há boa vontade da Inglaterra ou dos Países Baixos, mas que eu saiba ainda nenhuma fez uma manifestação tão clara como a Alemanha. A França ou o Canadá ainda estão a meio caminho, deveriam ser mais corajosas. Se as Federações não acreditarem na justiça de ajudar pessoas extremamente pobres do Nepal ou do Paquistão, que o façam pelo menos para salvaguardar a sua imagem e reputação”, considera Michalski.

O condicionamento da liberdade de imprensa

Não só o desrespeito dos direitos dos trabalhadores traz imoralidade ao Mundial do Catar. Há, também, “enormes discriminações para as mulheres, subsistindo um sistema de tutela em relação a um homem (pai, irmão, marido) para pedir autorização em decisões como estudar no estrangeiro, aceder a certas profissões ou questões de saúde reprodutiva. E para a comunidade LGBTQIA+, com a homossexualidade a ser ainda considerada crime”, explica Paulo Fontes.

Nos últimos anos, a FIFA tem-se adjudicado a responsabilidade por várias “mudanças positivas”, tais como a abolição do sistema kafala, o qual assenta numa lógica de patrocínio, em que o empregador, e não o Estado, controla o direito de residência do trabalhador. Neste sistema, a lei laboral não se aplica ao trabalhador estrangeiro, que não pode ter acesso aos tribunais para disputas laborais ou o direito de juntar-se a um sindicato.

Paulo Fonte, da Amnistia Internacional Portugal, considera que as mudanças que FIFA e governo do Catar dizem ter existido “não se notam na prática”, com os “empregadores a continuarem a ter o poder de impedir que o trabalhador mude de trabalho”. Wolfgang Buettner, da Humans Rights Watch, vai mais longe, classificando de “mentira” que o sistema kafala tenha sido abolido. “Há muitos trabalhadores migrantes que ainda precisam de uma autorização do empregador para terem uma permissão de residência”, salienta, mantendo-se um “enorme desequilíbrio de poder” entre empregador e empregado que é “a base” deste sistema.

“Rejeitamos esta narrativa que diz que têm havido progressos e que é só uma questão de tempo até ficar tudo bem. É mentira, é uma narrativa do governo do Catar e da FIFA”, garante.

Vista da parte de fora de um local de alojamento de trabalhadores migrantes no Catar, em junho de 2011

Vista da parte de fora de um local de alojamento de trabalhadores migrantes no Catar, em junho de 2011

Sam Tarling/Getty

Outra preocupante situação no Catar prende-se com a liberdade de imprensa. Em novembro, Halvor Ekeland e Lokman Ghorbani, respetivamente jornalista e repórter de imagem da televisão norueguesa “NRK”, foram ao Catar para “investigar como estava a situação dos direitos humanos a um ano do Mundial”, recorda à Tribuna Expresso Halvor.

Logo no primeiro dia no Médio Oriente, a 14 de novembro, havia uma entrevista marcada com Abdullah Ibhais, antigo diretor de comunicação do Mundial que, nos últimos anos, se tornou crítico da organização. Ibhais foi detido horas antes da entrevista.

Durante vários dias, os noruegueses falaram com “muitos trabalhadores migrantes”, tendo “quase todos queixas”, lembra Ekeland, desde “turnos de 12 horas por dia, durante sete dias por semana”, até “empregadores que confiscam passaportes”, passando por “vários meses de salários em atraso”.

Mas havia um problema: quando os jornalistas pediam para gravar depoimentos, os trabalhadores rejeitavam, dizendo que “tinham medo de represálias”. “Não falámos só com pessoas da construção, mas também pessoal de limpeza, seguranças, todo o tipo de atividades, e ninguém quis falar on the record, nem quando lhes dizia que não lhes filmaríamos a cara e distorceríamos a voz”, relata Halvor Ekeland.

Feito o trabalho no terreno, jornalista e repórter de imagem preparavam-se para regressar à Noruega quando foram detidos. Aqui o relato torna-se mais preciso nas palavras de Halvor Ekeland.

“Disseram-nos que fomos detidos por filmar uma propriedade privada onde viviam migrantes, mas nós tínhamos uma autorização para gravar lá. Fomos levados à esquadra e interrogados durante várias horas sobre tudo o que tínhamos feito no Catar nos últimos dias. Quando perguntávamos o que se passava, só diziam: ‘vocês não fazem perguntas, nós é que fazemos'. Estivemos detidos 32 horas, sem direito a qualquer chamada telefónica ou a um advogado”.

No final das 32 horas, os dois noruegueses foram autorizados a sair da cela, mas todo o equipamento de filmagens que levavam ficou “confiscado”.

O regresso de Halvor Ekeland e Lokman Ghorbani à Noruega

O regresso de Halvor Ekeland e Lokman Ghorbani à Noruega

HAKON MOSVOLD LARSEN

Enquanto Halvor e Lokman estiveram detidos, e perante a impossibilidade de efetuarem chamadas telefónicas, as notícias só chegaram à Noruega porque Ekeland tinha combinado com a sua mulher que todos os dias e noites lhe mandaria uma mensagem dizendo que estava tudo bem. Perante a ausência de informação no dia em que ambos deveriam voltar a casa, a mulher de Ekeland informou as autoridades, que rastrearam a localização do telemóvel e aperceberam-se de que algo se passava.

Primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros e embaixador da Noruega em Doha pediram explicações ao governo do Catar sobre o sucedido, mas “é difícil entender o que é que se passou”, desabafa Ekeland. “Foi a prova do muito que há para progredir em relação à liberdade de imprensa no Catar, um país que receberá muitos jornalistas que têm de se sentir seguros e livres no desempenho do seu trabalho”.

Além das indemnizações, o que fazer?

Paralelamente à questão das indemnizações, várias das entidades e pessoas contactadas pela Tribuna Expresso indicam formas de “não fazer do Mundial uma oportunidade perdida”, como refere Mustafa Qadri.

Em novembro de 2021, a Federação da Dinamarca informou que, durante o Mundial, não terá mensagens publicitárias nos seus equipamentos, cedendo esses espaços para mensagens humanitárias. Os nórdicos anunciaram também que os seus parceiros comerciais não irão participar em atividades de promoção no Catar e prometeram “estar atentos” ao cumprimento dos direitos dos trabalhadores que estiverem no hotel e nas instalações que a equipa utilizar.

Em entrevista à Tribuna Expresso, Jakob Jensen, CEO da Federação da Dinamarca, começa por ressalvar que se a entidade em que trabalha “tivesse tido o poder de voto” em 2010, teria “votado contra” um Mundial no Catar. “O que temos visto desde então confirma que se trata de um local problemático para acolher a competição”, diz.

Ainda que ressalve que a Federação dinamarquesa tem “como prioridade jogar futebol”, sendo “as mudanças no país anfitrião do torneio responsabilidade das autoridades do Catar ou da FIFA”, Jakob garante o “compromisso da Dinamarca em lutar para que o Mundial possa forçar progressos nos direitos humanos”. O CEO explica que “boicotar” a prova “não é a melhor fórmula”, pois “perder-se-ia a capacidade de pressão”.

Assim, ao longo dos últimos meses, a Federação da Dinamarca tem trabalhado com a Amnistia Internacional, da qual recebe “conselhos” sobre “a melhor forma de atuar”. A entidade já promoveu, aliás, reuniões entre os jogadores da seleção e a Amnistia Internacional, para que os futebolistas “saibam onde vão jogar e conheçam o contexto”, explica Jakob Jensen.

“Nos diálogos que temos tido com os jogadores, é muito claro para nós que não queremos passar ao lado das questões humanitárias deste Mundial. Sabemos, também, que vamos ao Catar numa vertente desportiva, e não para promover o país”, explica o CEO da Federação da Dinamarca.

Trabalhadores da construção de infra-estruturas para o Mundial em Doha, em junho de 2011

Trabalhadores da construção de infra-estruturas para o Mundial em Doha, em junho de 2011

Sam Tarling/Getty

A Human Rights Watch Alemanha também tem estado em “contacto próximo” com a Federação do país, dizem-nos dirigentes da organização. O presidente da Federação já teve encontros com a entidade e, em conjunto com outras entidades, já houve reuniões com os jogadores da seleção.

“Diria que a abordagem da Federação alemã tem sido muito boa. As conversas com os jogadores correram muito bem, com muito interesse da parte deles, que colocaram muitas questões. Não é uma questão de pedir-lhes que façam declarações públicas, mas dar-lhes informação. Sinto que tem havido um aumento da consciencialização dos jogadores alemães e um maior comprometimento”, diz Wolfgang Buettner, da Human Rights Watch.

Em Portugal, fonte oficial da FPF contactada pela Tribuna Expresso manifesta o “cumprimento total das responsabilidades sociais” da Federação, que “tem trabalhado na defesa dos direitos humanos, dentro e fora do futebol”. A FPF aponta para o que tem sido feito junto do grupo de trabalho da UEFA que tem visitado o Catar, acreditando que “um dos maiores legados deste Mundial será precisamente o reforço dos direitos das mulheres”.

Explica a mesma fonte que a FPF reuniu com a Organização Internacional do Trabalho, com representantes de cinco grandes grupos hoteleiros e com o “grupo de trabalho do setor hoteleiro”. No encontro, terá sido “clarificado que cada hotel no Catar foi auditado pelo menos duas vezes como parte do processo em curso para assegurar o cumprimento da legislação em vigor”.

Um trabalhador do Nepal lava-se ao ar livre em al-Khor, no Cata, em junho de 2011

Um trabalhador do Nepal lava-se ao ar livre em al-Khor, no Cata, em junho de 2011

Sam Tarling/Getty

Tim Sparv, antigo capitão da seleção da Finlândia, assegura que ainda não foi contactado por nenhum jogador atual para discutir questões de direitos humanos sobre o Mundial. O ex-médio, que já se encontrou diversas vezes com trabalhadores migrantes do Catar, ficará “desiludido se os jogadores não aproveitarem o Mundial para falar sobre direitos humanos”, até porque “estarão numa competição cheia de cobertura mediática, que lhes dá a hipótese de ter impacto em todo o mundo”.

“Acho que podemos pedir mais de alguns dos grandes nomes do futebol, para que sejam modelos. Estou um pouco desiludido com alguns jogadores, às vezes sinto que não são conscientes do poder que têm. É tudo numa base individual, sem ações consertadas. Podemos pedir um pouco mais às estrelas mais velhas que não pensem só em futebol e neles mesmos. Espero que, no Mundial, não fujam às questões e criem consciência, por exemplo, sobre como é ser homossexual naquela parte do mundo”, apela Tim Sparv.

A Amnistia Internacional, a Humans Rights Watch e a Equidem fazem o mesmo apelo a adeptos e agentes desportivos: fazer pressão nas autoridades. “Pedimos que se aproveite a ocasião para que a voz dos direitos humanos seja ouvida. Se as pessoas colocarem o foco nas questões dos direitos humanos, pressionando para que haja mudanças e justiça, o Catar perceberá que há milhões de pessoas atentas e a FIFA compreenderá que os adeptos estão comprometidos”, realça Paulo Fontes, da Amnistia Internacional Portugal.

Mustafa Qadri, fundador da Equidem, lamenta que “os estádios do Mundial estejam cheios de convites para os patrocinadores, mas não tenha havido nenhuma iniciativa para dar bilhetes aos trabalhadores que construíram os estádios e viram colegas de trabalho a morrerem ou em sofrimento”.

Durante quase um mês, a bola vai rolar no Catar. Antes, durante e depois, há verdadeiras questões de vida ou morte diretamente relacionadas com o Mundial. Contribuir para promover acriticamente o regime que possibilitou estes abusos ou pressioná-lo para a mudança é uma escolha de todos.

De Montevidéu a Doha é a rubrica em que, semanalmente e até ao arranque do Mundial no Catar, a Tribuna Expresso trará reportagens e entrevistas sobre a história da mais importante competição global. Desde a primeira edição, no Uruguai em 1930, até à que se realizar em novembro e dezembro, vamos recordar figuras, destacar heróis e realçar proezas, não ignorando as questões de direitos humanos associadas ao Catar