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Gémeas e árbitras: eis Charlotte e Julie Bonaventura, a dupla que apitou um jogo de Portugal no Mundial de andebol

Terminam as frases uma da outra e compreendem o que cada uma está a pensar apenas com um olhar. Talvez seja coisa de gémeas, ou quiçá seja pela constante convivência desde sempre. É o suficiente para funcionarem como dupla de árbitras no andebol, tanto no feminino como no masculino, onde estão a apitar no Campeonato do Mundo que decorre na Suécia e na Polónia

Rita Meireles

Pixsell/MB Media

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O final do jogo entre Portugal e o Brasil, a contar para a main round (segunda fase de grupos) do Mundial de andebol, foi bastante confuso, mas não o suficiente para colocar o país inteiro a ver a dobrar. As árbitras Charlotte e Julie Bonaventura, que após serem chamadas ao vídeo-árbitro apitaram o lance que colocou a calculadora nas mãos da seleção portuguesa, são mesmo gémeas.

E são também donas de uma carreira que tem vindo a quebrar barreiras para as mulheres no andebol.

A lista de conquistas é longa, mas algumas chegam mesmo a ser históricas. As irmãs Bonaventura foram as primeiras mulheres a apitar uma final de andebol nos Jogos Olímpicos, um jogo entre a Noruega e Montenegro em Londres (2012); a arbitrar um Campeonato do Mundo masculino, em 2017; e a ficarem responsáveis por uma semifinal da Taça EHF masculina, em 2019. Apitam Europeus femininos desde 2009 e nos Jogos Olímpicos de Tóquio, que só aconteceram em 2021 por causa da pandemia, e estiveram em jgos femininos e masculinos.

“Tem de se ser apaixonado pela arbitragem, caso contrário não se pode fazê-lo”, garantiu Julie à AFP.

A árbitra fala de paixão, mas é a falta de emoções que caracteriza o trabalho que fazem em campo. Ou a facilidade de “desligar o cérebro”, como descreve Charlotte. “Quando começámos, por exemplo, na mais alta divisão masculina de França, tivemos jogos com o Jackson Richardson”, contou Julie ao site dos Jogos Olímpicos. “Ele era a grande, grande estrela, famoso em todo o mundo. E nada de especial, nenhuma emoção”.

Começaram a carreira como jogadoras, com oito anos, em Aubagne, perto de Marselha. Cerca de sete depois descobriram a arbitragem “um pouco por coincidência”, contaram numa entrevista à Federação Europeia de Andebol. A equipa era dividida em grupos de três para os treinos e era necessária uma dupla para arbitrar os jogos. “Os nossos colegas de equipa pensaram: precisamos de dois árbitros. Dois? As gémeas”.

O facto de terem seguido esta espécie de sugestão forçada dos colegas levou a que, durante algum tempo, tivessem que conciliar vários compromissos. Durante a semana eram estudantes e continuavam os treinos como jogadoras, ao fim de semana jogavam e arbitravam. “Tínhamos três cérebros na altura”, disse Charlotte à “AFP”. Mas, aos 23 anos, puseram um ponto final nesta correria e escolheram a arbitragem.

Alex Grimm

Ainda assim, nem sempre é fácil ter apenas a profissão de árbitra. Segundo um artigo publicado pela “AFP” em 2019, as irmãs Bonaventura recebiam 600 euros para arbitrar jogos da primeira divisão masculina e 350 euros se fosse na feminina. Nos Mundiais, recebiam entre 70 e 90 euros por encontro, mais um bónus final. Quando tiveram que conciliar o andebol com outras áreas, Charlotte dedicou-se às Finanças e Julie à Informática.

A matemática que Charlotte estudou tem também influência nos pavilhões, mais propriamente no facto de recusarem superstições - à exceção de uma.

“É talvez um stress inútil”, contou a árbitra. “Colocar a meia esquerda primeiro e depois a direita, como o Zidane e outros. Eu estudei matemática, não há nenhuma razão lógica para isso. É a mesma coisa. E se o vosso leitor de música não estiver a funcionar, o que acontece na vossa mente? 'Oh meu Deus, hoje vou ser um desastre porque não consegui ouvir as Spice Girls'. Mas nós compreendemos, ajuda a acalmar algumas pessoas. A nós não”.

O pré-jogo das gémeas francesas passa antes por garantir que conhecem as equipas, os jogadores e os diferentes estilos de jogo de cada um. “Assistimos com bastante frequência aos jogos online ou na televisão, por isso estamos preparadas para tudo o que possa ocorrer no campo”, contam.

Sobre o facto de serem mulheres num mundo onde a maioria são homens, e ainda por cima pioneiras na modalidade, as irmãs deixam claro que a falta de representatividade não é um problema exclusivamente do desporto, mas sim da sociedade no geral.

No andebol? “A maioria dos jogadores não se preocupam em ter mulheres ou homens árbitros. Eles só querem ter um bom árbitro”, dizem.

A história repete-se

Mantendo a tendência, também esta história é a dobrar. Marta e Vânia Sá são uma dupla de árbitras do andebol nascidas em Portugal.

As irmãs Sá são conhecidas dos pavilhões há algum tempo, mas em 2014 iniciaram o processo de internacionalização para levarem a carreira para outros voos. Em 2018, a dupla estreou-se na Liga dos Campeões feminina.

Curiosamente, começaram a carreira da mesma forma que as árbitras francesa: foi no desporto escolar, quando as equipas necessitaram de duplas para a arbitragem dos jogos. Depois de terem a primeira experiência, nunca mais pararam e contam já com uma carreira de 20 anos.

“Cá em Portugal ainda há muito esta noção do sexismo, que o desporto é só para homens e que nós mulheres nem vamos ganhar títulos, nem vamos ganhar dinheiro, nem vamos fazer feitos. Isso não é bem assim”, contou Marta à “RTP”. “Ser mulher e ser árbitra ainda se torna mais difícil. E sempre que entramos num pavilhão ouvimos bocas do género ‘vai para casa’ ou ‘vai lavar a louça’. Ainda é um caminho longo que temos de percorrer”.

A nível das próprias carreiras, esse caminho tem um destino bem traçado. Depois dos Europeus e Mundiais femininos, querem chegar às competições masculinas e, principalmente, arbitrar nos Jogos Olímpicos.