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“Clima insustentável e tóxico”, “discriminação” e pedidos de “respeito”: a carta aberta de sete judocas portugueses do projeto olímpico

"Após muitas tentativas de diálogo, e perante a falta de compreensão, de flexibilidade e sensibilidade do Presidente da Federação Portuguesa de Judo", Telma Monteiro, Anri Egutidze, Bárbara Timo, Catarina Costa, Patrícia Sampaio, Rochele Nunes e Rodrigo Lopes assinaram uma carta a traçar um cenário sombrio da modalidade. "Não há condições para evoluir no regime de funcionamento atual da FPJ"

Hugo Tavares da Silva

David Ramos

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A menos de dois anos para os Jogos Olímpicos de Paris, sete judocas portugueses do projeto olímpico escreveram uma carta aberta denunciando “o clima insustentável e tóxico” no judo português e exigindo “respeito” e melhores condições de treino.

Os signatários da carta são Anri Egutidze, Bárbara Timo, Catarina Costa, Patrícia Sampaio, Rochele Nunes, Rodrigo Lopes e Telma Monteiro, ou seja, seis dos sete judocas que estiveram nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

“Após muitas tentativas de diálogo, e perante a falta de compreensão, de flexibilidade e sensibilidade do Presidente da Federação Portuguesa de Judo (FPJ), senhor Jorge Fernandes, para a necessidade de reajustar a gestão no plano desportivo e psicossocial”, pode ler-se na carta, “os atletas abaixo assinados vêm por este meio tornar público o clima insustentável e tóxico que envolve, neste momento, o Judo português, apelando à intervenção da Secretaria de Estado do Desporto, do Instituto Português do Desporto e Juventude e do Comité Olímpico de Portugal”.

A Tribuna Expresso tentou contactar diretamente Jorge Gomes, o presidente da federação, mas não obteve qualquer resposta. Enviou também um pedido de reação ou comentário à FPJ, pelos canais tradicionais.

Os atletas, que exigem o fim da “opressão e represálias” e denunciam um clima de controlo e de discriminação, apresentaram a 13 de julho uma carta ao presidente da federação com algumas sugestões. Ei-las:

- Participação em estágios internacionais, assim como competições fora do país, de acordo com as necessidades e planeamento de cada atleta com recurso à Bolsa do Projeto Olímpico – planeamento que, aliás, deve ser pensado e organizado em conjunto com o atleta e treinador do mesmo;

- Alteração da exigência da participação em todos estágios nacionais realizados por mês, para um estágio exigido por mês;

- Ajuste do valor pago por deslocação a cada atleta, de acordo com as tabelas oficiais do valor de subsídio de transporte.

Uma das temáticas mais importantes da carta prende-se com os estágios semanais sediados em Coimbra, “onde reside o presidente da FPJ”. Se esta medida temporária, por motivos de saúde pública e regras sanitárias, pareceu “excelente” no passado (durante a pandemia), agora é uma fonte de “desgaste emocional”, pois há a obrigatoriedade de estarem presentes em 70%/80% dos 52 estágios do ano. Se não cumprirem esses mínimos, acusam, existiu “a ameaça” por parte de Jorge Gomes de não serem convocados.

Anri Egutidze nos Mundiais de Judo, em junho de 2021

Anri Egutidze nos Mundiais de Judo, em junho de 2021

ATTILA KISBENEDEK

Os judocas referem na mesma missiva que “a federação desconta da bolsa olímpica do atleta o pagamento das despesas do treinador da seleção nacional que acompanha esse mesmo atleta”, uma verba que, entendem, “deveria ser suportada pela própria federação”. Por isso, sugerem que as bolsas dos judocas olímpicos passem a ser geridas pelo Comité Olímpico de Portugal, havendo pontes estreitas com com clubes e treinadores

“As grelhas de plano de atividades e relatórios de contas que somos obrigados a assinar não vão ao encontro daquilo que consideramos ser uma gestão responsável, eficaz e justa”, escrevem.

Saúde mental e o atleta-herói

A carta identifica mais problemas. Os atletas acusam a federação de pedir a treinadores para controlarem as judocas que treinam, um pedido que terá acontecido com Ana Hormigo. É mencionada também a exigência a Anri Egutidze, que terá sido proibido pelo presidente do organismo que rege o judo nacional de falar georgiano, a sua língua materna, “com outro atleta também oriundo da Geórgia”.

Mas também terá havido a proibição de os atletas falarem abertamente sobre “saúde mental”, uma flecha supostamente apontada a Bárbara Timo. Segundo os signatários, o presidente Jorge Gomes terá dito que essa admissão atenta contra a ideia de que “o atleta é um herói”.

Bárbara Timo

Bárbara Timo

David Finch/Getty

Já os atletas nascidos no Brasil, como Bárbara Timo, Rodrigo Lopes e Rochele Nunes, terão ouvido desabafos desavindos por parte do presidente da FPJ, como “vieram do Brasil, foram ingratos connosco ao assinar esta carta”, “mas ninguém te obrigou a vir para cá do Brasil (…) e agora queres alterar o que não conseguiste no Brasil”. Ou ainda: “vocês lá no Brasil nem uma Coca-Cola bebiam e agora chegam aqui, a gente dá-vos a mão e vocês querem tudo”.

Este ponto indigna os judocas que assinam a carta: “Como se o facto de terem nascido no Brasil lhes retirasse qualquer espaço de reivindicar os seus direitos como atletas portugueses”.

Na parte final da missiva é referido que tornaram públicas estas denúncias e sugestões para que “as entidades que regem o desporto no nosso país” os ajudem a “chegar a uma solução”. Caso nada mude, “não vemos condições para continuar a fazer face às exigências da alta competição e do apuramento olímpico. “Reforçamos que os atletas que assinam esta carta são medalhados em Mundiais, Europeus, Olímpicos. Merecemos respeito, verdade e justiça!”

E sentenciam: "Não há condições para evoluir no regime de funcionamento atual da FPJ".