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Os Mundiais da Nike? O atletismo vai à pequena cidade da marca do swoosh, onde os atletas dos EUA são favoritos

As marcas fazem com que a competição aconteça, mas são os atletas que brilham na pista. Os Mundiais de atletismo trocaram as grandes cidades por Eugene, no estado norte-americano de Oregon, onde, nos próximos dias, diversas medalhas serão distribuídas. A jogar em casa e com um vasto historial de vitórias, os EUA têm o favoritismo do seu lado

Rita Meireles

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Não é pela forte ligação às artes ou pelos diversos museus. Não é pelo Alton Baker Park ou o Owen Rose Garden. Não é pelas caminhadas nas trilhas ou pelos passeios de domingo no mercado da cidade. Mas, se não é por nada disto, o que leva o Mundial de atletismo até Eugene, Oregon, na costa oeste dos Estados Unidos? A resposta é só uma: a Nike.

Foi em Eugene que a ideia surgiu, a marca nasceu e a sua fábrica esteve instalada até à década de 90, altura em que se mudou para Portland, capital de estado. E foi em Eugene que Phil Knight, fundador da Nike, investiu na remodelação do estádio Hayward Field, o local onde, a partir de quarta-feira, cerca de 2 mil atletas de 192 países irão participar no maior evento de atletismo do mundo a seguir aos Jogos Olímpicos.

Os holofotes estarão todos virados para a Nike, dada a história que a liga a cidade, com algumas pessoas a apelidar esta competição de “Mundial da Nike”, mas talvez o termo mais certo fosse “Mundial das marcas”. Várias empresas mundiais de calçado desportivo vão invadir Eugene com dois objetivos: divulgação e competição. Fora da pista existirão lojas e eventos, lá dentro a esperança de ver um dos atletas que patrocinam chegar ao primeiro lugar.

Num conjunto de modalidades que têm perdido adeptos ao longo dos anos, são exatamente estas marcas que permitem que eventos como o Mundial de atletismo sejam ainda uma realidade.

"Claramente, o Sr. Knight tem sido o financiador e a inspiração por detrás do maravilhoso estádio de Eugene", disse Jon Ridgeon, presidente da World Athletics, órgão que gere o atletismo a nível mundial, ao "OregonLive". "Mas vai além da Nike. As empresas de calçado são a força vital do desporto. Não poderíamos ter um desporto sem elas".

As empresas são responsáveis pelos equipamentos de equipas nacionais, patrocinam eventos, têm as suas próprias equipas e, principalmente, patrocinam milhares de atletas. Os números não deixam ignorar o quão importante são. Segundo dados divulgados pelo “OregonLive”, só a Nike traz por dia 128 milhões de dólares em receitas (cerca de €127 milhões), mais do dobro do que o World Athletics regista num ano.

Enquanto as marcas roubam os holofotes, quem responde ao verdadeiro desafio é a cidade e, claro, os atletas. Eugene recebe o evento que algumas das maiores cidades do mundo costumam receber, como Paris, Londres ou Pequim. Com a previsão de que 55 mil pessoas marquem presença na competição, espera-se que os hotéis e restaurantes estejam sempre cheios.

Da parte dos atletas, a pressão está do lado da equipa dos Estados Unidos. Depois de algumas deceções nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a equipa procura um resultado diferente durante os Mundiais. O objetivo passa por recuperar os títulos perdidos nos 100 metros, com atletas como Fred Kerley e Trayvon Bromell; nos 200 metros, com Erriyon Knighton e Noah Lyles; e nos 110 metros com barreiras, onde vai competir Grant Holloway.

Os Estados Unidos são quase os líderes absolutos na contagem de medalhas por campeonato. Na época moderna, só não o conseguiram na Rússia, em 2001, e no Quénia, em 2015. A jogar em casa, é muito provável que consigam um número considerável de vitórias.

Martin Rickett - PA Images

Aos 36 anos, Allyson Felix, vencedora de sete medalhas de ouro olímpicas, compete nos seus últimos mundiais e pretende sair pela porta grande. Esta será a sua 10.ª participação na competição, onde já venceu 18 medalhas, 13 delas de ouro. Mas a verdadeira despedida está marcada para o mês seguinte, a 7 de agosto, em Los Angeles.

Para Ryan Crouser, natural do Oregon, será quase como competir no quintal de casa no lançamento do peso e do disco. Ganhar um campeonato mundial é a única coisa que falta no currículo do atleta de 29 anos. Nos Mundiais do Catar, em 2019, falhou o ouro por apenas um centímetro, algo que lhe pode dar uma motivação extra para fazer bonito em frente aos seus adeptos.

Quem, com certeza, terá uma motivação extra será a delegação da Ucrânia. O caminho até aqui não foi fácil, mas estes atletas querem dar uma alegria ao seu país, que continua em guerra depois de ser invadido pela Rússia em fevereiro. "É realmente difícil mentalmente porque, durante 24 horas por dia, estou preocupada com a minha família e os meus amigos que estão agora na Ucrânia", admitiu Anna Ryzhykova, atleta especializada nos 400 metros com barreiras, à “CBS”. A grande esperança da Ucrânia chama-se Yaroslava Mahuchikh, a saltadora que venceu a medalha de bronze dos Jogos de 2020.

Portugal também marca presença em Eugene a partir de sexta-feira e até 24 de julho. Será a primeira vez que o país não leva nenhum atleta à maratona, onde já foi bem-sucedido, mas conta com outros 23 atletas a competir.

"É uma seleção de 23 atletas, mas que nos deixa extremamente confiantes no futuro, porque é transversal a todas as disciplinas da modalidade, desde a marcha, aos lançamentos, à velocidade e ao fundo. Dá um sinal de que, além de haver talento entre os atletas e treinadores, de que estamos a trabalhar muito bem em todos os setores", disse Luís Pereira, líder da delegação, à Lusa.

Pedro Pablo Pichardo e Patrícia Mamona, no triplo salto, e Auriol Dongmo, líder do ranking mundial no lançamento do peso são três das maiores esperanças portuguesas. E há quem até vá competir perto da que é a sua casa durante grande parte do ano: Marta Pen Freitas vive em Seatlle, no estado vizinho de Washington, a cerca de 450 quilómetros, e competirá nas provas dos 800 e 1.500 metros.