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Atletas trans: presidente do COP diz que “não pode haver só um pensamento médico” e que há também questões de natureza “social e filosófica”

José Manuel Constantino lembra que "há questões não apenas de natureza desportiva" na participação de atletas trans, pede "maior amadurecimento" do tema e lembra que "as organizações desportivas têm de fazer estudos científicos e técnicos e tomar decisões que salvaguardem o direito de todos de praticar desporto tendo em conta as condições de equidade, não somente de sexo, mas também de outra natureza"

Lusa

Catherine Ivill - AMA/Getty

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A criação de novas regulamentações competitivas para os desportistas transgénero exige “maior amadurecimento”, defende o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), que entende que a questão é mais social e filosófica do que médica.

“A diferenciação não é apenas anatómica, fisiológica, mas também social. Não pode haver aqui um pensamento médico, mas social, filosófico. Para perceber o que se faz às pessoas que querem mudar de sexo e querem continuar a praticar desporto”, resumiu José Manuel Constantino, em declarações à Lusa.

Entre a posição institucional do COP, de seguir as diretrizes do COI, e o pensamento pessoal de alguém que “pensa os problemas do desporto”, Constantino deseja evitar “precipitações”, alertando para o facto da ambicionada equidade desportiva ir muito além deste tema.

“Aqui não está somente em causa uma questão de verificar se alguém mudando de sexo depois da puberdade tem ou não vantagens competitivas relativamente a outras do sexo que passa a competir: é evidente que tem. Há até memória motora que fica inscrita no músculo, não há volta a dar a isso”, assumiu.

Para o dirigente, o verdadeiramente importante é saber como lidar com essa constatação: “O que se faz com essas pessoas? Uma competição à parte? Competir num sexo a que já não pertencem. Isto é um 31. Não pode ser visto de forma ligeira, antes muito aprofundada, com muita cautela e prudência. Há questões não apenas de natureza desportiva, mas social e filosófica”.

Constantino lamenta que o “frenesi mediático” atual complique um debate que diz só existir no desporto, nomeadamente para a garantia da “equidade das competições”, conceito que acha merecer uma mais profunda reflexão, por defender que não devemos cuidar unicamente das características anatomofisiológicas, mas igualmente das “condições sociais que permitem o aproveitamento dessas capacidades”.

Exemplifica com o facto de um atleta africano não ter as “mesmas condições de explorar o seu talento” que um adversário norte-americano ou australiano.

“O desporto, contrariamente à sua utopia igualitária, foi sempre um elemento diferenciador. Sem conseguir regular as diferenças anatomofisiológicas ou das de natureza social”, apontou.

Constantino recorda que as questões dos atletas transgénero variam consoante a modalidade em causa e teme uma “precipitação relativamente a matérias insuficientemente estudados sobre as quais o debate internacional não é conclusivo”.

O responsável deseja um caminho no sentido da inclusão “salvaguardando os direitos das pessoas que entendem mudar de sexo e os princípios de equilibro a que a competição desportiva deve estar sujeita” e alerta para o facto de ser “difícil chegar a uma solução estabilizada” num dilema algo recente e sobre o qual a comunidade internacional se divide.

Recorda que o COP foi a única organização portuguesa a “promover uma reflexão e a produzir documentação sobre a matéria” e assume que o organismo vai seguindo as diretrizes do COI, que deixa a cada federação internacional os estudos e definição de critérios a adotar no respetivo desporto, “sendo que em várias modalidades essas questões nem se colocam”.

“Vou dar-lhe opinião pessoal. Esta é uma questão essencialmente política, institucional, não científica. As organizações desportivas têm de fazer estudos científicos e técnicos e tomar decisões que salvaguardem o direito de todos de praticar desporto tendo em conta as condições de equidade, não somente de sexo, mas também de outra natureza. Tem de haver alguma prudência, cautela, sem posições muito conclusivas quanto a matérias onde o nosso nível de reflexão é ainda muito insuficiente”, finalizou.