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Esta semana no mercado: a transferência que não o é, um recorde a norte e criatividade na modéstia a sul

Por enquanto, não há mais novidades milionárias a retirar do cesto de compras de futebolistas na Europa, onde a novela é algo que ainda nem chegou a ser: a badalada e suposta vontade de Cristiano Ronaldo em sair do Manchester United. Por cá, foi diferente, com os rivais de Lisboa a darem algumas boas-vindas

Diogo Pombo e Lídia Paralta Gomes

OLI SCARFF/Getty

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Houve um prelúdio no Manchester United, aconteceu umas quantas vezes no Real Madrid, a película replicou-se na Juventus e o círculo parece estar a fazer coincidir as suas linhas, de novo, no lado vermelho da cidade do norte de Inglaterra onde a chuva e o cinzento do céu são cidadãos honorários. Rumores a tilintarem pelo ar de que Cristiano Ronaldo quer ir embora soam a repetição, já quase a marca d’água com a qual um clube deve contar quando contrata um dos dois maiores abonos de golos desta era do futebol.

No United de outrora, havia o desejo de uma estrela em ascensão de ir para ao mais titulado clube do mundo em troféus orelhudos. Houve vários momentos nunca realmente confirmados, no Real Madrid, de que o português queria ver o salário aumentado quando se badalavam as notícias das suas pretensões em sair; quando saiu, já seria tanto ele como Florentino Pérez a quererem. Na Juventus, falou-se no desejo de Cristiano ainda querer farejar de perto a hipótese de conquistar a Liga dos Campeões, pista na qual se atribui a suposta razão para querer sair outra vez de Manchester, um ano depois.

É na transferência não feita que a presente janela de transferências se tem empanturrado, há modas passageiras, mas, nos termos deste figurado cesto de compras onde se colocam e tiram futebolistas, o moinho dos rumores é o que faz rodar a atenção a cada verão e inverno. Mantendo-nos em Cristiano Ronaldo, a enésima novela que protagoniza, aos 37 anos, terá um resumo não muito longo.

Ronaldo quer a Champions e não há Champions em Old Trafford

Ronaldo quer a Champions e não há Champions em Old Trafford

OLI SCARFF/Getty

O português mantém-se esfomeado pela Champions, desde que Alex Ferguson se reformou da vida de treinador para virar uma espécie de patriarca que o United não atina, o clube só terá a Liga Europa na próxima época e então o português fez Jorge Mendes ter de aferir de possibilidades. Falou-se no Bayern de Munique, que cedo fez xô a esse rumor; agora indica-se o Chelsea, novo-mas-velho-rico nas mãos de milionário americano que o comprou a Roman Abramovich, clube no qual redundam as crescentes questões colocadas sobre Ronaldo - os golos que ainda garante valerão os euros com que um clube de topo lhe terá de pagar o chorudo ordenado? Esses golos valem o peso com que o português condiciona qualquer modelo de jogo e treinador?

Sim para o Manchester United, que publicamente já negou que o português esteja à venda e lembrou o ano que lhe resto no contrato, indicando sem apontar o que seja que Ronaldo poderá acabar por ficar onde está, ao contrário do que esta semana se viu com vários jogadores pelos arrabaldes dessa Europa fora. Ao Barcelona chegaram, a custo zero, Frank Kessié, costa-marfinense vindo do AC Milan e de perfil pouco condizente com os moldes tradicionais dos médios de uma forma de jogar à Barça, e Andreas Christensen, defesa central dinamarquês com finura nos pés, ex-Chelsea. Nas modernices das redes sociais e quando os highlights pretendem ser vídeos que destaquem o melhor do dito jogador, ambos foram apresentados pelo clube com clips pouco abonatórios (entretanto, foram apagados). E fala-se que o Manchester United continua a mastigar uma forma de contratar Frenkie de Jong ao Barcelona.

Nos Países Baixos, enquanto o Feyenoord vai sendo um pouco esquartejado das peças com que chegou à final da Liga Conferências - o lateral esquerdo Tyrell Malacia foi, por €16 milhões, para o United (e prometemos que acabam aqui as referências aos red devils) - e o PSV Eindhoven perdeu Mario Götze depois de ficar sem o treinador Roger Schmidt, o Ajax segue na senda de reforços sonantes para o seu contexto: contratou o neerlandês Steven Bergwjin ao Tottenham por €31,2 milhões.

Kalvin Philips é reforço para o City

Kalvin Philips é reforço para o City

Matt McNulty - Manchester City/Getty

Em Inglaterra, a semana espreguiçou-se com mais uma compra do Manchester City, que pagou €58 milhões ao Leeds United por Kalvin Phillips, médio inglês maturado durante o tempo de Marcelo Bielsa no clube e que irá dar concorrência a Rodri na equipa de Pep Guardiola. Em outras de notícias de idas, esta é para sempre: Jack Wilshire, um dos mais talentosos jogadores ingleses a florescer neste século, a quem a sorte, as lesões e a cabeça nem sempre ajudaram, anunciou a retirada aos 30 anos. Ao Fulham de Marco Silva chegou João Palhinha, o ladrão de bolas que foi campeão nacional no Sporting e saiu a troco de €20 milhões para a equipa de Londres, recém-promovida à Premier League. Não deverá ser o único médio internacional português a zarpar para longe de um dito grande: estima-se que Sérgio Oliveira estará prestes a apanhar um avião do Porto para Istambul, onde o Galatasaray o esperará.

A Itália chegou um extremo esguio como esparguete, órfão da velocidade de outros tempos, mas em plena posse das capacidades técnicas e de decisão em espaços apertados que o fazem ainda ser mais do que decisivo. Por isso a Juventus contratou Ángel Di María, argentino cujo contrato com o Paris Saint-Germain terminou este mês. Mais para sul voou Zeki Celik, lateral direito turco com as quatro épocas anteriores feitas no Lille, para reforçar a AS Roma de José Mourinho por cerca de €7 milhões.

E por cá

Também por cá o mercado se vai movendo e com recordes e tudo. David Carmo, central do SC Braga, vai ser jogador do FC Porto e com direito a número de patrão da defesa nas costas: o 4. Os 20 milhões de euros que saem das contas dos campeões nacionais, que perderam Mbemba a custo zero, significam que estamos perante a maior transferência entre duas equipas portuguesas - e o SC Braga ainda pode ganhar mais 2,5 milhões de euros em variáveis.

Mais raro que o valor final parece ser o negócio em si, sem “qualquer encargo com serviços de intermediação”, como se tivéssemos voltado aos tempos em que tudo se tratava cara a cara e com um passou-bem no final. Apreciável.

Entre FC Porto e Benfica, quais bolinha de ping-pong (ou ténis de mesa, dependendo das vossas sensibilidades) andou João Vítor, outro central, confirmado finalmente pelos encarnados esta quinta-feira. A cláusula de rescisão é para afugentar até tubarões: 100 milhões de euros pelo brasileiro ex-Corinthians.

Do lado do Sporting, a maior modéstia dos negócios compensa-se com boa internet. Os vice-campeões nacionais gastaram parcos dois milhões de euros para ir buscar Rochinha ao V. Guimarães e no build up para o anúncio os recursos foram ainda mais escassos, mas é na necessidade que nasce o engenho e a criatividade.

Não está também mal jogado usar desde já outro dos reforços, o japonês Morita, para trabalhar no departamento criativo dos leões. O ex-Santa Clara já meteu Jeremiah St. Juste e Franco Israel, outro reforço confirmado esta semana, guarda-redes vindo dos quadros da Juventus, a dizer frases aleatórias em nipónico, o que traz sempre bons conteúdos digitais. E se o defesa neerlandês e o guardião uruguaio se adaptarem tão bem a Alvalade como decoraram japonês, o Sporting pode estar descansado.

Mas o título de campeão nacional da internet continua na mão do Paços de Ferreira. Depois do vídeo de apresentação do calendário, que terá deixado muito bom clube de orelhas a ferver (e a rir depois, se tiverem um bocadinho de sentido de humor e fair play), o carpinteiro Abílio voltou a meter mãos à obra para estar tudo pronto para o novo reforço: Nigel Thomas é neerlandês, vem com a chancela de qualidade da formação do PSV.

É um extremo de 21 anos que chegou a conquistar o Europeu de sub-17 pelos Países Baixos em 2018. No PSV nunca conseguiu confirmar o talento e terá agora nova oportunidade para o fazer no norte de Portugal, com direito a plaquinha de madeira e tudo.