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Só o Benfica foi gigante

Num duelo de bicampeões europeus, a equipa portuguesa foi a Turim derrotar, por 2-1, a Juventus. Os italianos até marcaram primeiro, mas um Benfica cheio de personalidade e embalado pela qualidade de António Silva, Enzo ou David Neres deu a volta ao marcador, chegando a vulgarizar a vecchia signora e desperdiçando oportunidades para obter um triunfo mais confortável

Pedro Barata

Chris Ricco/Getty

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A segunda parte em Turim estava mais ou menos a meio. David Neres, teórico habitante da direita do ataque do Benfica, viajou até à esquerda com a audácia dos talentosos e combinou com Gonçalo Ramos, referência ofensiva sempre disponível. O português olhou, esperou e serviu Rafa, que viu Perin defender o seu remate.

Logo a seguir, Neres, por duas vezes, invadiu a área adversária pela direita e ficou perto de marcar. Os jogadores do Benfica surgiam por todos os lados para ameaçar o 3-1, perante uma oposição atarantada, confusa, sem perceber bem o que estava a acontecer, ou percebendo-o mas não tendo armas para o contrariar.

Talvez tenha sido esta superioridade que a equipa de Roger Schmidt demonstrou em diversos períodos do triunfo, por 2-1, do Benfica em casa da Juventus a nota de maior destaque da partida. Porque não foi uma vitória sofrida, conseguida na base da resistência ou de acasos cósmicos; foi um triunfo em toda a linha, numa exibição digna de um bicampeão europeu na casa de outro duplo vencedor da mais importante competição europeia.

NurPhoto/Getty

Se à forma como o Benfica se impôs à Juventus acrescentarmos que os visitantes tiveram de dar a volta a uma desvantagem que surgiu logo aos 4', então o mérito dos lisboetas surge redobrado. Ainda o desafio estava a amanhecer quando o pé direito preciso de Paredes encontrou a cabeça de Milik, finalizador como poucos, para fazer o 1-0.

As camisolas estilo zebra da Juventus são um apelo à memória. Uma recordação constante de defesa de Buffon, cortes de Cannavaro, passes de Pirlo, livres de Platini ou remates de Del Piero. No entanto, o peso dessa história está longe de ter correspondência nesta indefinida equipa de Allegri que, depois de uns 10 minutos iniciais de muita agressividade, foi manietada pelo Benfica.

Pouco depois do 1-0, Kostic e Miretti estiveram perto de dobrar a vantagem local. Aos 12', Roger Schmidt batia com uma mão na outra, como que pedindo mais agressividade ou nervo nos duelos. Pouco a pouco, a pressão da Juve afrouxou, o Benfica foi conseguindo sair de perto de Vlachodimos e o que antes eram dificuldades tornaram-se em oportunidades.

Como que sabendo que, antes de atacar a baliza adversária, era importante estabilizar o seu futebol, o Benfica começou por juntar passes, ligar algumas jogadas através de passes curtos, instalar-se no meio-campo adversário. Passada a tormenta inicial, havia condições para ir à procura do golo.

Enzo Fernández, o dono da bola

Enzo Fernández, o dono da bola

Anadolu Agency/Getty

A partir de meio do primeiro tempo, a liderança autoritária de Enzo Fernández, o argentino que manda no meio-campo, juntou-se com a velocidade supersónica de Rafa e o drible com jeito de samba de David Neres. Aos 27' e aos 36', Gonçalo Ramos deu os primeiros avisos, ambos travados por Perin.

Aos 39', Rafa fez uma das conduções em que parece que as suas pernas se movem duas vezes mais rápido do que a realidade, qual opção de ouvir mensagens de voz mais velozmente. Paredes ainda tentou travar o português, mas este resistiu e, após combinação com João Mário, atirou em arco ao poste.

O golo chegaria em cima do intervalo. Depois de um canto da direita, Gonçalo Ramos aproveitou a lentidão de Miretti, espelho da apatia juventina, e foi derrubado pelo médio. Após consulta do VAR, o penálti foi marcado.

João Mário, com um (pouco feliz) passado no Inter de Milão que o levou a ser ferozmente assobiado pelos adeptos da Juventus, fez o 1-1 num remate forte e convicto. Na celebração, o português levou a mão aos ouvidos em frente aos adeptos da casa, o que não agradou a Bonucci, o xerife da defesa bianconera que passará os dias a ter saudades de Chiellini ou Buffon, companheiros do tempo em que as zonas próximas da baliza da Juventus eram propriedade de acesso restrito.

Anadolu Agency/Getty

A época dessa força defensiva da equipa de Turim já lá vai e, na segunda parte, o Benfica demonstrou-o na perfeição. Com muita agressividade nos duelos e expondo a falta de ligação de jogo e criatividade dos locais, a equipa de Roger Schmidt tanto ameaçava pelas conduções de Rafa como pelos dribles de Neres, tanto dominava o meio-campo pelos passes de Enzo como pelas interceções de Florentino, tanto conseguia progredir com auxílio dos apoios de Gonçalo Ramos como pela subtileza de João Mário.

Aos 55', Enzo impôs-se a Milik e Paredes, saindo vencedor da disputa física. Depois do momento de agressividade do argentino, veio a inteligência, com o passe para Gonçalo Ramos. Bremer cortou o lance do avançado, sobrando a bola para remate de Rafa. Na recarga, Neres fez o que seria o resultado final.

Nos 20 minutos seguintes, só houve uma equipa em campo. Neres dançava à frente de Danilo, levando os adeptos do Benfica a fazer-lhe vénias. Bonucci multiplicava-se e ainda conseguia evitar finalizações com selo de golo de Bah ou Neres. Rafa levava Perin a esforçar-se para impedir o 3-1.

A superioridade do Benfica foi quase indigna para a Juventus, equipa da casa e reputada bicampeã europeia. Nos minutos finais, e perante o desperdício das águias, os italianos estiveram, em lances isolados, perto do 2-2, sobretudo com a ajuda do génio de Di María, que serviu Bremer. O central não teve boa pontaria.

Num dos últimos lances da partida, Di María, craque consagrado do futebol mundial em reencontro com a equipa que o projetou no futebol português, enfrentou-se a António Silva, de 18 anos e a fazer o segundo jogo da sua carreira na Champions. O central cortou a iniciativa do argentino, celebrando-a como se de um golo se tratasse. Foi mais uma exibição consagratória do jovem defesa.

O Benfica ganhou porque foi indiscutivelmente melhor, ficando a dever assim mais golos num triunfo em casa de um grande europeu que tem sempre contornos históricos. Na noite numa casa habituada a grandes campeões, só o Benfica foi gigante.