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A persistência da insistência, uma forma de reação possível do FC Porto

Num jogo que acabou com quase um quarto de hora de descontos, a equipa de Sérgio Conceição salvou um empate (1-1) mesmo a acabar, com um penálti de Taremi, após se esburacar a tentar pressionar alto as saídas curtas e em posse do Estoril e acabar à boleia de muitas bolas postas na área

Diogo Pombo

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

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Uma chapada de luva branca é um gesto conceptual, todo uma manobra figurativa por jamais, em tempos recentes, termos visto alguém a sacar do bolso um adereço dessa cor, vestir uma mão e dar a sentir a palma na face de outrem, será gesto de outrora que hoje remete para a subtileza e a ironia, para um queixo erguido e o cocuruto da cabeça inclinado para trás em demonstração da superioridade moral que responde à baixeza de costumes. No Estoril, com o mar à vista lá em baixo, ainda a bola estava sossegada e os Conceição eram uns subliminares flagrantes, pai e filho a chaparem uma declaração.

Quatro dias contados do ataque com pedras ao carro no qual seguia Rodrigo com a mãe, à saída do Estádio do Dragão, feito por pessoas apresentáveis, primeiro, por variados adjetivos pejorativos antes de se saber o nome de quem prefere a selvajaria ao civismo, o filho é posto pelo treinador a titular na lateral direita da defesa do FC Porto. E a simbologia da decisão aos berros, num grito de afirmação estridente: como resposta à idiotice (perdoem o eufemismo) de quem acha razoável arremessar pedras contra um jogador, a sua mãe e mulher do treinador porque a equipa perdeu um jogo de futebol, eis esse futebolista a estrear-se como titular.

Mesmo que inócua, a primeira bola pontapeada por pés portistas que cai no meio-campo do Estoril é de Rodrigo Conceição, um mero chutão, um alívio necessário perante uma jogada de aperto dos anfitriões, também aqui o simbolismo de uma vontade em ultrapassar a agrura de uma paupérrima exibição para a Liga dos Campeões na casa de um adversário que, por natureza e fidelidade a um plano, quer usar cada bola que tenha na sua área para avançar com ela de forma rasteira, com passes curtos, deixando os seus atacantes lá longe para esticar a equipa do FC Porto e convidá-la a lançar-se no que perfaz várias costelas do seu jogo nos seis anos que leva de treino com Sérgio Conceição.

Na pressão alta e a todo o campo, tentando condicionar a construção do adversário e roubar bolas logo ali. Não há timidez no Estoril de Nélson Veríssimo a puxar jogadores seus para os momentos de saída da área e a agilidade do lateral Tiago Santos a tirar corpos da frente, combinada com a resistência à pressão de João Carvalho e Francisco Geraldes, faz a equipa livrar-se - não sempre, mas muitas vezes - dos cercos que o FC Porto monta com mais vontade do que eficácia. João Martins remata em arco, da esquerda (21’), Erison encontra a mancha rápida de Diogo Costa para, no ressalto, Tiago Gouveia rematar com força ao poste (29’) dois minutos antes de se escapar pelas costas de Zaidu e a receção orientada que faz, em corrida, lhe permitir rematar rasteiro e perigosamente.

Seria a acelerar-se nas traseiras do nigeriano que o potente extremo, dono de uma capacidade para explodir em arranques curtos, que o extremo aconchegaria outra bola na passada para, de novo, logo a rematar (41’) e marcar. Essa aptidão que o distingue foi demonstrada após um passe precipitado de David Carmo, outra ação infeliz do central não teve um dia para recordar frente ao Brugge, para a Liga dos Campeões, jogo que motivou Sérgio Conceição a fazer quatro mudanças na equipa.

O filho que protagonizou uma delas teve um slalom por entre dois adversários, uma bola esmurrada com frustração após um canto ganho, um outro par de investidas flanco direito acima numa primeira parte que teve um FC Porto esburacado na pressão alta e desinspirado a tricotar jogadas que lhe dessem para lançar Taremi ou Evanilson. Teve dois golos marcados, ambos anulados por fora-de-jogo, nem essas jogadas a apresentarem rasgos criativos numa equipa onde a ambidestreza driblística de Pêpê parecia ser a singela fonte de ideias distintas.

JOSE SENA GOULAO/LUSA

Vindo do balneário, o FC Porto logo reagiu como se esperava, talvez ainda não refeito mas seguramente chocalhado pelo treinador, logo após uma jogada em que o pequeno brasileiro dos dragões pregou dois adversários à relva viu-se Taremi a bater com estrondo (51’) a bola contra a barra, quando o Estoril era empurrado para trás e obrigado a formar uma linha defensiva de cinco para controlar as investidas. Era uma reação, não uma resolução, porque o outro extremo dos amarelos, Rodrigo Martins, teria uma raide de 50 metros em que foi ultrapassando corpos até cruzar, rasteiro e de trivela (55’), para Geraldes obrigar Diogo Costa a um salvamento com o pé.

Felizardo é o Estoril por ter um trio atacante com dois extremos de tal qualidade, coleções ambulantes de receções orientadas, dribles explosivos e boas decisões numa equipa que, com o tempo, se encurtou em cada vez menos metros da sua metade do campo, mais ainda quando o FC Porto passou a ter, à esquerda, as fintas intempestivas e rápidas de Galeno que torcem adversários. Apesar desses gestos do brasileiro não terem uma constância elogiosa por, mais vezes do que raras, serem procedidos por nem sempre a melhor decisão, as suas tentativas encostaram o adversário ainda para trás. E de forma frutífera: Taremi voltaria a rematar (63’) a passe seu e a cabeça de Evanilson desviou (66’) uma bola que rasou o poste.

As raízes dos estorilenses ao seu meio-campo engordaram, a proteção da área sobrepunha-se à capacidade de sair em ataques rápidos, mais ainda quando Mor Ndiaye foi expulso (78’) e já Rodrigo Conceição saíra numa das decisões-dominó de como o FC Porto age, esta época, quando um resultado lhe foge. No livre batido após a expulsão, Gabriel Verón cabeceou a bola ao poste e, na jogada seguinte, Toni Martínez rematou (81’) na área para as mãos de Dani Figueira o negarem. Com Pêpê a lateral direito - longe das relvas onde o que tem mais pode ser usado para a equipa - e sempre a forçar os momentos de um-para-um de Galeno, os dragões insistiram até ao fim.

A persistência da insistência encheu-se, com os minutos a findarem, de atabalhoamento mais do que com ordem, a urgência no futebol costuma ser-lhe avessa e outra invenção de Galeno fê-lo atrasar um cruzamento para Uribe rematar (84’) antes de serem retirados todos os filtros à invasão de bolas postas na área do Estoril. Uma delas, recheada de ressaltos, tocou no braço de Joãozinho para, longuíssimos minutos depois - o jogo acabaria quase um quarto de hora mais gordo -, Taremi bater o penálti que fixaria (90’+7) o empate na partida.

Um temporal de final de jogo deu um empate ao FC Porto após a intempérie sofrida para a Liga dos Campeões, que no olho desse furacão trouxe algo lamentável para a sociedade que, pelos vistos, teve uma metástase no Coimbra da Mota, estádio a centenas de quilómetros de distância que prova como a forma de viver futebol em Portugal tem demasiados episódios doentios a rodear o que, simplesmente, é um jogo.