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Futebol internacional

Cristiano e Messi, capítulo 37: os magos do século XXI iluminaram Riade e a chuva de golos fez a vontade aos cartolas

O português foi o capitão da Riyadh Season, uma seleção de futebolistas da Arábia Saudita, e marcou dois golos contra o PSG, que contou com Kylian Mbappé, Neymar Jr. e Lionel Messi, que faturou logo aos 3’. Os visitantes venceram por 5-4 num duelo que cheirou a tempos idos e em que as estrelas atuaram durante 60 minutos

Hugo Tavares da Silva

Aurelien Meunier - PSG

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Depois do despropósito das Supertaças de Itália e Espanha, numa muda moda em que o dinheiro ameaça levar os clubes para longe dos adeptos, Riade voltou a receber um clássico. Talvez o clássico dos clássicos dos tempos modernos para quem gosta de futebolistas: aos 37 e 35 anos, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi voltavam a estar frente a frente, pela 37.ª vez na carreira (e talvez a última?).

Na bancada viam-se algumas camisolas da Argentina e outras do Al-Nassr, o novo clube de Cristiano. O português, que mantém o mini-skipping e saltinho quando pisa a relva, foi o capitão e a grande figura do dream team saudita, que contava ainda com Gonzalo Pity Martínez, Moussa Marega e Luiz Gustavo. Do lado do PSG, talvez respeitando uma sólida cláusula do contrato que nos traz até aqui, estavam Kylian Mbappé, Neymar Jr. e, claro, Lionel Messi, acabadinho de ser campeão do mundo não muito longe dali. Renato Sanches também figurou no 11 titular de Christophe Galtier.

Antes de a bola rolar perante muitos milhares de entusiasmados adeptos e umas quantas cadeiras vazias, alguns cartolas, dos países em questão e do PSG pelo menos, entraram no relvado para cumprimentar os futebolistas. Convém não ignorar, apesar do que o futebol e o dinheiro podem fazer na perceção pública, que a Arábia Saudita, cujos tentáculos já chegaram à Premier League através do Newcastle, está na lista negra das Nações Unidas, por “abusos dos direitos humanos descontrolados”, que “incluem torturas, detenções arbitrárias e execuções”. As mulheres e as pessoas LGBTQI+, alvos de discriminação, não gozam da felicidade que se exibiu esta noite em Riade. Este jogo será mais uma exibição do tão badalado sportswashing.

Cristiano ia jogando atrás de Marega, com muita liberdade para cair nas linhas ou recuar no campo. Messi foi celebrado mais do que ninguém quando tocou pela primeira vez na bola. Já o estreante toque na bola de Ronaldo foi curiosamente um corte a uma intenção de passe de Leo, que marcou logo aos 3’, desviando com a sua simplicidade impossível do guarda-redes, Mohammed Al-Owais, um dos obreiros da bonita tarde da Arábia Saudita contra a Argentina, no Campeonato do Mundo. A assistência de Mbappé foi sublime.

Aurelien Meunier - PSG

Surpreendentemente, o jogo até estava algo competitivo. Não surpreende ver Cristiano Ronaldo a tentar marcar golos, talvez surpreenda ver como refilou com o árbitro depois de fazer uma falta sobre Neymar, mas já conhecemos o bicho competitivo. Os futebolistas do PSG, com tanto em jogo até ao final da época, não pareciam desdenhar o jogo. Ver Neymar e Messi a meterem o pé em certos lances causava assombro.

Houve uma altura em que o PSG dava a sensação de que podia ficar a trocar a bola durante 90 minutos. A Riyadh Season, assim se chamou ao conjunto saudita composta por jogadores de Al-Hilal e Al-Nassr, vivia dos atrevimentos de Pity Martínez (ex-River), que voltava a ver no banco Marcelo Gallardo, e Salem Al-Dawsari, o “10" da Arábia Saudita que fez o golaço a Emiliano Martínez, em Doha.

Depois dos cânticos que soavam a algo distante, como se saíssem dos megafones que transpiram as habituais rezas, os golos voltaram ao guião. Um choque entre Keylor Navas e Cristiano Ronaldo resultou num penálti para o português, que empatou o jogo. O “7” ficou com o rosto marcado, foi cortesia do braço do costa-riquenho.

Antes do intervalo, Marquinhos marcou para os parisienses (mais um passe de Mbappé) e Cristiano, com a ajuda do perdido Sergio Ramos, empatou pouco depois, corrigindo um belo, belíssimo cabeceamento ao poste. Neymar falhou um penálti antes do descanso, para onde já tinha seguido Juan Bernat, que viu um rigoroso vermelho direto. O jogo estava interessante, pois claro, esfregavam as mãos os senhores do dinheiro e os apaixonados por este desporto que ainda não aceitam (ou que lamentam) que a era Cristiano & Messi esteja a chegar ao fim. Era, então, nostalgia em movimento.

Cristiano, que mostrava alguns leves e serenos sorrisos, ia-se recreando com a bola. Lembrava, com outra velocidade e venenosa pertinência, alguns truques que exibia na primeira passagem por Manchester, quando a inconsciência e o bendito lado amador do seu jogo ainda pulsavam. Do outro lado era Mbappé, que a certa altura despertou, quem ia maltratando os rins de quem lhe aparecia à frente.

Yasser Bakhsh

Já com Vitinha em campo, por Renato Sanches, o defesa Sergio Ramos voltou a colocar os visitantes em vantagem. Mbappé assinou a terceira assistência. Hyun Soo Jang deixou tudo empatado, aos 56’. Num desvario emocionante, de penálti, Mbappé marcou finalmente o seu golinho.

Quando o cronómetro namorou os 60 minutos, as estrelas gigantes deste desporto saíram todas. Cristiano, substituído por Matheus Pereira (também Andre Carrillo e Anderson Talisca entraram), foi amigavelmente cumprimentado pelos elementos do banco caseiro. Já Messi foi abraçado carinhosamente por Gallardo, que em tempos idos também jogou no PSG, que supostamente com esta mini-digressão meteu 10 milhões nos cofres do clube. O ex-treinador do River Plate suspirou-lhe algumas palavras ao ouvido.

Com Danilo Pereira e Nuno Mendes já em campo, Vitinha tentou uma chapelada do meio-campo. O médio tem 22 anos e por isso já não se lembra (não existia, na verdade) do que fizeram por ali alguns bons futebolistas sub-20 portugueses em 1989, mas, e porque não?, este tipo de ação funcionava como homenagem aos nossos campeões do mundo.

Sem surpresa, o jogo sem Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e os outros magos ficou desinteressante. O jogo em si não mudou assim tanto e a inferioridade numérica do PSG talvez tenha até contribuído para o bom e digno andamento protocolar da coisa. O golo de Hugo Etikité, um tiro, só não selou o que seria o resultado final porque Talisca tinha um míssil guardado na bota, para encurtar distâncias (5-4) no último suspiro.

Nos entretantos falharam-se golos e ninguém se magoou. Cristiano apareceu no ecrã gigante e as fiéis testemunhas, tal como aconteceu durante o Mundial, foram ao delírio. Mais perto do final do jogo, Messi apareceu no ecrã gigante e as fiéis testemunhas, tal como aconteceu durante o Mundial, foram ao delírio. Ainda mais perto do apito final, Neymar e Mbappé tiveram direito ao mesmo tratamento massajador de ego, e ambos reagiram com um adeus digno de realeza. Porque o “futebol" estava fora das quatro linhas, o realizador voltou a dar ao povo Cristiano e a alucinação coletiva foi ainda mais juvenil e ruidosa. Ronaldo beijou a mão e, gentilmente, abanou-a depois.