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Três anos e meio depois, os caminhos de João Félix e Simeone separam-se (pelo menos por seis meses): português é emprestado ao Chelsea

O clube londrino oficializou a chegada do português, cedido pelos madrilenos até final da temporada. Segundo a imprensa espanhola e inglesa, o Chelsea paga €11 milhões pelo empréstimo, mais o salário do jogador, sem opção de compra incluída. É, assim, interrompida a quase sempre conturbada relação do ex-Benfica com o Atlético, ainda que Félix tenha renovado com os colchoneros antes de ir para a Premier League

Pedro Barata

Soccrates Images/Getty

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Os seis meses em que um ainda adolescente João Félix deslumbrou a Europa aguçaram o apetite do Metropolitano. No verão de 2019, o lado vermelho e branco de Madrid entusiasmou-se com a contratação do jovem português ao Benfica, por uns €126 milhões que evidenciavam como Félix era o talento para quem todo o continente olhava.

Aquele verão trouxe promessas de amor, como a exibição do jovem numa goleada (7-3) aplicada pelo Atlético ao Real num particular nos EUA ou a jogada maradoniana que protagonizou na estreia na La Liga, contra o Getafe. Mas depressa se entendeu que esses momentos de luz seriam permanentemente contrabalançados com outros de sombras, como se toda a vivência de João Félix na capital espanhola fosse um constante acelerar e travar, um encanto seguido de uma desilusão.

Três anos e meio passaram neste ciclo de encanto e tristeza, de bancadas colocadas de pé e a torcerem o nariz. Agora, esta relação será, pelo menos temporariamente, interrompida.

O Chelsea oficializou a contratação, por empréstimo até final da temporada, de João Félix. Segundo o portal The Athletic, o “The Guardian”, a Sky Sports e diversos jornais espanhóis, o clube de Londres paga €11 milhões pelo negócio, mais a totalidade do salário do criativo, que não contempla opção de compra.

O português renovou contrato com o Atlético antes de consumada a cedência, confirmou o clube de Madrid. Os espanhóis exigiram esse prolongar do vínculo para aceitar o empréstimo, passando assim Félix a ter contrato com o Atlético até 2027.

“O Chelsea é uma das grandes equipas a nível mundial e espero ajudar na conquista de objetivos. Estou muito, muito feliz por estar aqui e entusiasmado por jogar no Stamford Brigde”, diz o português nas primeiras palavras como jogador dos blues, que, para lá do empréstimo, não revelaram pormenores do acordo.

Na Premier League, Félix tentará obter a regularidade que nunca encontrou na La Liga. A sua passagem pelo Atlético tem, efetivamente, algo de cíclico, de repetitivo: uma boa fase de algumas partidas era interrompida por uma incómoda lesão — 10 problemas físicos diferentes desde que chegou a Madrid —, quebrando o ímpeto do jogador e voltando a lançar dúvidas sobre a relação do português com Diego Pablo Simeone.

Treinador-símbolo do Atlético, os últimos anos do argentino têm estado longe da glória das temporadas em que colocou os colchoneros entre os melhores da Europa. Entre este processo, o técnico foi, também, alternando fases em que parecia apostar pelo talento de João com outras em que o remeteu ao banco ou a primeiro homem a ser substituído, com o Metropolitano, de igual forma, a mudar a sua reação a este sobe e desce, ora assumindo o lado do português, ora apoiando o argentino.

Foram 34 golos em 131 partidas, nunca mais de 40 jogos por temporada nem mais de 10 golos por época. Nesta campanha, o português soma cinco festejos e três assistências em 20 partidas.

Quality Sport Images/Getty

Entre algumas reprimendas públicas, Simeone foi sempre revelando o “desejo” de contar com “todas as possibilidades” que o jogador “oferece”. O “muito golo” que o ex-Benfica tem foi, recorrentemente, elogiado por el cholo.

Nas últimas semanas, os sinais de separação — ou de interrupção na relação — foram-se tornando claros. Simeone disse, a 21 de dezembro, que “ninguém é imprescindível”, quando questionado sobre o futuro do português, e afirmou, a 30 de dezembro, que “o que acontecer” não dependia de si.

A ideia do argentino, sempre preocupado com o momento sem bola ou a agressividade, incapaz de adaptar o jogo do Atlético ao patamar em que ele próprio colocou o clube, nunca beneficiou o português, que também terá culpas na inconsistência exibicional demonstrada em Madrid, onde nunca confirmou todo o entusiasmo inicial.

De uma chegada milionária de €126 milhões a um empréstimo de seis meses. Em Londres, João Félix tentará ganhar protagonismo ao nível do seu talento, ainda que o contexto também não seja o melhor.

O Chelsea vive dias conturbados. Ainda na ressaca da venda de Roman Abramovich, proprietário que redimensionou o clube à escala global, e a compra de Todd Boehly, os blues parecem não estar com uma política desportiva definida. No verão gastaram quase €300 milhões em reforços, mas pouco depois do fecho da janela despediram Thomas Tuchel, o alemão que em maio de 2021 dera a segunda Liga dos Campeões ao clube.

Para o lugar de Tuchel chegou Graham Potter, o britânico que vinha tendo um percurso ascendente, culminando no excelente trabalho feito no Brighton. No entanto, em Stamford Bridge, Potter não tem tido bons resultados, também afetado por uma grande vaga de lesões.

Em 18 jogos no Chelsea, Potter soma oito triunfos, quatro empates e seis derrotas. Nos últimos sete encontros, a equipa só venceu um. Já foi eliminada da FA Cup e da Taça da Liga e, na Premier League, está num modesto 10.º lugar.

Neste contexto de instabilidade, João Félix terá de ter a consistência que sempre faltou à sua carreira em Inglaterra. Uma coisa é certa: pelo menos durante seis meses, o problema não será Simeone.