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Futebol feminino

O Europeu dos recordes é a festa da Inglaterra de Sarina Wiegman

A seleção anfitriã derrotou (2-1) a Alemanha, com um golo de Chloe Kelly no prolongamento a dar às inglesas o título. 87.192 pessoas assistiram à partida num esgotado Wembley, novo máximo em Europeus — femininos ou masculinos —, e viram a treinadora Sarina Wiegman revalidar a conquista de há cinco anos com os Países Baixos

Pedro Barata

Sarah Stier - UEFA/Getty

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"Walking in a Wiegman wonderland"

Entre os vários cartazes que se liam no esgotado Wembley, um era especialmente criativo e descritivo, adaptando uma clássica canção natalícia para homenagear a terra das maravilhas na qual Sarina Wiegman transformou a seleção inglesa. O sítio de felicidade que, ouvido o apito final em Londres, trouxe a euforia e as celebrações ao público da casa, ao som dos sempre presentes "Three Lions" e "Sweet Caroline".

Vencendo, no prolongamento, a Alemanha por 2-1, Inglaterra conquistou, pela primeira vez, o Europeu feminino, sucedendo aos Países Baixos, campeãs em 2017, quando as neerlandesas eram dirigidas pela mesma Sarina Wiegman que volta a vincar a sua competência. Nos 20 jogos em que dirigiu as lionesses, soma 18 vitórias e dois empates. É a rainha dos bancos da Europa.

A final que colocou um ponto final no torneio fez jus à tendência de bater recordes atrás de recordes do campeonato, com as 87.192 pessoas a encherem Wembley para o jogo assistido ao vivo por mais pessoas na história dos Europeus, femininos ou masculino.

Olhe-se por onde se olhar, não há volta atrás: há multidões que não querem que o futebol, que tanto se orgulha de ser o jogo global, vire as costas a metade da população mundial. A mudança está aqui, não há retrocesso a dar. Que seja bem-vinda e abraçada por mais gente, sobretudo em países que fazem gala da sua paixão pelo jogo mas ainda dão poucas condições às mulheres que o queiram praticar.

Chloe Kelly é o nome da heroína inglesa, de quem se falará quando se recordar, em pubs por todo o país, "onde é que estavas quando ganhámos o Europeu?". O seu golo aos 110' tornou Wembley num salão de festas.

Chloe Kelly festeja o 2-1

Chloe Kelly festeja o 2-1

DeFodi Images/Getty

Antes do arranque da final, as lágrimas nos olhos que eram visíveis em Leah Williamson quando o hino inglês terminou eram a expressão visual da carga simbólica do duelo. Wembley cheio, família real nas bancadas, expetativa e tensão no relvado.

Pouco antes do apito inicial, a tristeza encheu a cara de uma das principais jogadoras das alemãs. Alexandra Popp, a goleadora que apontou seis golos em cinco partidas no torneio, não foi a jogo devido a uma lesão muscular. Após diálogo com a treinadora Martina Voss-Tecklenburg no aquecimento, Popp foi para o banco, cabisbaixa.

A primeira parte foi muito do que se espera que seja um primeiro tempo de uma final: fechada, cautelosa, nervosa, com cada metro que era avançado a seguir-se da recordação que era importante manter a própria baliza a zeros. As oportunidades foram escassas, ainda que com algum ascendente inglês.

Alexandra Popp, depois de ser retirada do onze para a final por lesão

Alexandra Popp, depois de ser retirada do onze para a final por lesão

Marc Atkins

Beth Mead foi a primeira a criar algum perigo, após boa arrancada pela esquerda, mas foi uma exceção numa exibição algo apagada da talentosa futebolista — que viria a receber o prémio de melhor jogadora do Europeu. Lucy Bronze, sempre impetuosa e vigorosa, evitou com a cabeça um remate que poderia levar muito perigo de Sara Dabritz, e a própria lateral inglesa levou por duas vezes perigo à baliza contrária.

Boa parte do primeiro tempo foi marcada por muitas faltas e algumas imprecisões. A ilustrar esse jogo pouco esclarecido esteve a mais clara chance da etapa inicial, quando, após canto da esquerda, a bola andou a saltitar perto da linha de golo inglesa, sem que nenhuma jogadora da casa desfizesse o lance nem nenhuma germânica empurasse para o 1-0.

Na melhor ação da equipa de Sarina Wiegman nos 45 minutos iniciais, White e Mead combinaram, com a ponta-de-lança a atirar por cima. Foi uma exibição pouco conseguida da avançada, chegando o descanso com o esperado nulo.

Um dos lances mais perigosos da 1.ª parte, com a bola a rondar a baliza inglesa

Um dos lances mais perigosos da 1.ª parte, com a bola a rondar a baliza inglesa

Danny Lawson - PA Images/Getty

A etapa complementar começou com a Alemanha mais perigosa. Tabea Wasmuth, que entrou por Brand ao intervalo, aproveitou um desentendimento entre Bronze e Bright para criar perigo, com Lina Magull a rematar muito perto do poste direito de Earps logo a seguir. Wiegman sentiu o ascendente a ir para o lado germânico e mexeu, tirando White e Kirby por Ella Toone e Alessia Russo.

As mudanças tiveram impacto quase imediato. Aos 62', Keira Walsh recebeu a bola ainda no seu meio-campo e olhou para longe, ambiciosa. A radiografia à distância que fez ao campo detetou a desmarcação de Ella Toone, fazendo a bola chegar à sua companheira recém-entrada com um passe a rasgar, qual arma cortante que desfez a organização adversária.

Se o passe de Walsh foi delicioso, a finalização de Toone é daquelas que levarão muitas crianças a tentar imitá-la nos próximos tempos. A inglesa, ao ver-se diante de Frohms na zona em que todas se precipitam, teve calma e quase fez parar o tempo, com um chapéu que deixou o ar em Wimbley em suspenso. A bola, obediente, subiu e desceu, colocando as anfitriãs em vantagem.

Ella Toone faz a bola sobrevoar Merle Frohms para o 1-0

Ella Toone faz a bola sobrevoar Merle Frohms para o 1-0

Christopher Lee - UEFA/Getty

O futebol não é estanque, é, obviamente, possível mudar tendências, paradigmas, fatalidades. Mas há tendências que pesam, e se falamos em peso é preciso falarmos na camisola da seleção alemã.

Carregando oito títulos continentais no seu escudo, a Alemanha reagiu com grandeza, liderada pelo talento de Lina Magull. A número 20, logo a seguir à maravilha de Toone, atirou ao poste, anunciando ao que viria.

Aos 79', após jogada bem tralhada pela direita, Tabea Wassmuth cruzou, com Magull, vinda de trás, a aparecer a finalizar para o 1-1.

A igualdade refletia uma final equilibrada, sempre tensa, e pareceu ter mais impacto psicológico nas locais. As germânicas tinham mais conforto com a bola, enquanto Inglaterra, sem Mead, Stanway ou Kirby, já substituídas, colocava as suas esperanças em gente mais veloz e menos cerebral. O prolongamento chegou para testar os nervos de toda a gente.

Lina Magull festeja o 1-1

Lina Magull festeja o 1-1

Anadolu Agency

Se os 90 minutos tiveram muitos momentos que correspondem ao estereótipo de final fechada e nervosa, o prolongamento começou, também, com aquela ideia engasgada e pouco fluido destes momentos. E o golo que tudo decidiu foi assim, aos soluços, na insistência, sustendo a respiração para depois soltar o grito de vitória.

Aos 110', após canto da sempre conectada com o jogo Lauren Hemp, Bronze foi disputar um duelo ao seu estilo. A bola caiu para a zona de Chloe Kelly que, à segunda, consegiu finalizar. O seu festejo foi o grito de um país, a genuína expressão de felicidade de um povo que abraçou com devoção este campeonato.

Sarina Wiegman festeja

Sarina Wiegman festeja

Alex Livesey - UEFA/Getty

Em 2017, justamente em Wembley, a federação inglesa anunciou um novo plano estratégico para o futebol feminino. Começou por pedir desculpa por o maltratar durante muitos anos, relembrando que, desde 1921 e durante quase 50 anos, as mulheres foram proibidas de jogar futebol no país.

Olhando para o futuro, os objetivos eram aumentar o número de jogadoras, fazer subir a quantidade de espetadores e melhorar a qualidade da seleção. A liga local foi melhorada, com a atração de grandes patrocinadores como o Barclays; as condições de trabalho da seleção foram colocadas ao nível das melhores; os órgãos de comunicação social foram entendidos como aliados fundamentais, com o crescimento da cobertura mediática a levar à maior identificação e conhecimento das equipas e jogadoras.

Este processo teve um passo decisivo com a chegada de Sarina Wiegman ao banco da seleção em 2021 e culminou neste Europeu. O Euro dos recordes, que reuniu atenção generalizada em Inglaterra, concentrando interesse de público, imprensa e patrocinadores.

No "Three Lions", a canção do clássico "It's coming home", fala-se em "três leões numa camisola" ("three lions on a shirt"). Talvez essa letra tenha de ser adaptada, pois foram as leoas — lionesses, alcunha da seleção — a trazer a alegria de um grande título no futebol para casa.