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Carson Pickett nasceu sem o antebraço esquerdo, mas não parou até chegar ao topo do futebol norte-americano

O último jogo da seleção nacional de futebol dos Estados Unidos, frente à Colômbia, foi histórico e deveu-se tudo à presença de Carson Pickett. Sempre confiante, a jogadora sabia que poderia chegar a este momento e nem mesmo o facto de ter nascido sem o antebraço esquerdo a iria impedir de o fazer

Rita Meireles

Brad Smith/ISI Photos

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“Controla o que podes controlar”, disse Carson Pickett, em 2018, durante uma entrevista com o “The Guardian”. O que a jogadora de futebol norte-americana não teve a possibilidade de controlar foi o facto de ter nascido sem o antebraço e sem mão esquerda.

Já a carreira como desportista profissional ela controlou-a de tal forma que se tornou, na passada terça-feira, a primeira futebolista sem parte de um membro superior a jogar ao serviço da seleção nacional dos Estados Unidos.

Nas redes sociais, Pickett descreveu a estreia como “um sonho tornado realidade”.

O momento é histórico não só por ser a primeira vez que acontece, mas também porque não há muitos exemplos como o de Pickett em que atletas com alguma deficiência conseguem vingar no desporto não-adaptado de alta competição. Algo que passa muitas vezes pela cabeça da jogadora.

"Eu tenho a capacidade de ter impacto em muitas pessoas", reconheceu Pickett na mesma entrevista. "Os meus pais dizem-me a toda a hora para usar a plataforma que Deus me deu. Posso usar o meu braço para algo maior do que eu própria. Sou capaz de ter impacto em tantas crianças e pessoas que podem não ver uma saída. Não tem de os impactar através do futebol, ver que sou bem sucedido na vida e feliz na vida pode ser bom para algumas pessoas", sublinhou também.

Um desses momentos tornou-se viral em 2019. Na altura jogadora do Orlando Pride, Pickett conheceu Joseph Tidd, de apenas dois anos, uma criança que nasceu também sem o antebraço esquerdo. "Literalmente cinco minutos após o encontro tivemos uma ligação instantânea. É interessante porque para um miúdo tão jovem, não esperava que ele se ligasse da forma como o fez. Para mim foi espantoso que ele se apercebesse porque é que estávamos unidos", disse Pickett ao "USA Today Sports".

A forma leve e alegre com que leva a vida acaba por ser clara para quem convive com a jogadora, algo que se percebe através de uma história contada ao “The Guardian”. Num jogo entre o Orlando Pride e o Utah Royals, Alex Morgan lesionou-se no ombro e apesar de a jogadora ter terminado o jogo, as dores não desapareceram.

"Não consigo lavar bem o cabelo!", gritou Morgan no balneário. "Não consigo levantar o meu braço esquerdo!"

"Bem-vinda ao meu mundo", gritou Pickett de volta.

E o balneário encheu-se de gargalhadas.

“Quando a deficiência entra na conversa, ela tem um grande sentido de humor. É incrível quando a vejo a fazer coisas. Tipo, como é que ata os atacadores? As coisas que são de segunda natureza não são um problema. Ela é fenomenal”, disse Tom Sermanni, ex-treinador da jogadora.

Pickett, de 28 anos, cresceu em Fleming Island, a sul de Jacksonville, Florida. Se por acaso a paixão pelo desporto fosse algo apenas genético, este seria um daqueles casos em que o rebento não teria qualquer hipótese de escapar: durante os anos de universidade, a mãe da futebolista jogou basquetebol e o pai futebol. Foi com ele que começou a jogar aos cinco anos e depois chegou a tê-lo como treinador em algumas das suas equipas escolares.

"A razão pela qual sou a jogadora que sou hoje é por causa do meu pai. Vou dizer isso um milhão de vezes. Ele ensinou-me tanto sobre o jogo, mas foi mesmo difícil porque por vezes, depois de um jogo, eu só queria ir almoçar e falar de tudo, menos futebol. A minha mãe dizia: ‘Ok, já chega de falar sobre futebol! Vamos aproveitar o almoço em família!’”, confessou ao “The Guardian”.

Brad Smith/ISI Photos

A jogadora começou a destacar-se a nível universitário na Florida State University e em 2016 foi escolhida no draft da NWSL pelo Seattle Reign. Na primeira “época baixa” da liga, Pickett mudou-se para a W-League da Austrália, ao serviço do Brisbane Roar. Desta forma teve a oportunidade de jogar durante todo o ano. Seguiu-se o Orlando Pride entre 2018 e 2020 - neste último ano jogou no Apollon Ladies, do Chipre, por empréstimo. Neste momento Pickett está ao serviço do North Carolina Courage.

Mia Hamm foi a sua grande inspiração enquanto jovem, mas hoje Pickett é uma dessas jogadoras norte-americanas que são um exemplo a seguir para tantas outras raparigas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. E Carson Pickett sempre soube que poderia chegar a este nível.

“Esse é o meu sonho. É um sonho para muitas raparigas, mas ainda é possível em todos os sentidos. Tenho de controlar o que posso controlar", concluiu quando questionada sobre uma possível chegada à seleção dos Estados Unidos. Que acabou por acontecer já aos 28 anos. A lateral jogou os 90 minutos do encontro de preparação com a Colômbia, que os Estados Unidos venceram por 2-0, culminando da melhor forma um mês em que chegou aos 100 jogos na liga norte-americana de futebol feminino.