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Sebastian Vettel. A F1 perde um campeão mas principalmente um aliado na luta pelo ambiente e direitos humanos

No dia 20 de novembro, em Abu Dhabi, chega ao fim o Mundial de Fórmula 1 deste ano e a carreira de Sebastian Vettel. Depois dessas últimas 58 voltas, a categoria-rainha perde um dos seus principais pilotos, mas principalmente perde alguém que se esforçou todos os dias para deixar o desporto um lugar melhor. E certamente não ficará por aqui, porque como disse o próprio: ainda há uma corrida por vencer

Rita Meireles

Bryn Lennon

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Quatro títulos mundiais, 53 vitórias, 122 pódios. Estes, entre outros, foram os números que a Fórmula 1 usou para assinalar o percurso do campeão que esta quinta-feira anunciou que terminará a sua carreira no final do ano. Sebastian Vettel é todos esses números e o autor de uma das carreiras que ficará na história da categoria-rainha. Mas mais do que perder esse piloto, a Fórmula 1 perde um dos seus maiores campeões fora da pista.

Lewis Hamilton explicou-o da melhor forma: “Não há falta de coragem no Sebastian. Ele tem sido um dos poucos pilotos na história das corridas que tem representado muito mais do que apenas ele próprio. Ele usou a sua voz em coisas pelas quais lutei e ficou ao meu lado, ajoelhou-se, partiu na sua própria viagem e lutou por coisas em que acreditava e por um bem maior. Ele é um ser humano realmente bonito e estou muito grato por ter estado aqui durante o tempo em que ele correu”, disse à Sky Sports.

Em 2020, quando o mundo fechou, Vettel voltou a estudar. A pandemia causada pela covid-19 era um novo problema, mas já existia um outro a preocupar o alemão: as alterações climáticas. Durante o confinamento, realizou um estágio numa quinta biológica e tornou-se embaixador da BioBienenApfel, uma organização que trabalha para criar e manter os habitats para os insetos. Foram os primeiros passos de uma luta pelo ambiente que marcou vários fins de semana de competição.

Na Áustria, ajudou a construir um hotel para abelhas perto do Red Bull Ring com uma escola primária local, uma iniciativa para criar novas "casas" para abelhas integrada no projeto da qual se tornou embaixador. A caminho do Grande Prémio de Itália, em Monza, fez um desvio até à Islândia, onde visitou uma fábrica de captura e armazenamento de ar, a Climeworks Orca. Nos Países Baixos, voltou-se para dentro e falou sobre as mudanças que a própria Fórmula 1 tem que fazer para deixar de ser um problema a nível climático.

Mark Thompson

Depois, tornou-se viral. Silverstone, em 2021, foi o palco de uma das batalhas mais intensas entre Hamilton e Max Verstappen, mas no final eram as fotos de Vettel que circulavam por todo o lado. Em conjunto com um grupo de adeptos, o piloto limpou o lixo que ficou para trás nas bancadas do circuito. No dia seguinte, seguiu o percurso que esse lixo fez até à central de resíduos para aprender sobre o processo de reciclagem.

Este ano de 2022 ficou marcado pelo mesmo tema. Entre t-shirts e capacetes, o piloto que chega aos circuitos de bicicleta tem feito questão que a sua mensagem seja ouvida nos quatro cantos do mundo. Em Miami, por exemplo, surgiu com uma camisola onde se podia ler “Miami 2060, o primeiro Grande Prémio debaixo de água. Age agora ou nada mais tarde”. No Canadá, o alemão apareceu com um capacete a alertar para a exploração de uma grande área de areias betuminosas em Alberta.

Dan Istitene - Formula 1

O interesse pelo ambiente tem ficado claro ao longo dos anos, mas Vettel foi também uma voz ativa no paddock quando se tratou de defender os direitos humanos. Quando Hamilton regressou da pausa forçada por causa da covid-19 pronto para lutar contra o racismo e foi criada a cerimónia “We Race As One”, o alemão foi dos que se ajoelhou sempre, gesto que marcou esse protesto. Na última corrida de 2021, mudou de lugar e fez questão de se ajoelhar ao lado do britânico.

No Grande Prémio da Hungria, demonstrou o seu apoio à comunidade LGBTQ+, que lida diariamente com leis anti-LGBTQ+ implementadas pelo governo local. Contra os regulamentos, decidiu manter vestida a camisola com as cores do arco-íris durante o hino do país.

Na Arábia Saudita, um lugar onde as mulheres só estão autorizadas a conduzir carros desde 2017, deu voz à igualdade de género. Vettel quis fazer algo antes do GP e por isso organizou um evento de karting só para mulheres na Arábia Saudita: #raceforwomen.

Este ano, tem sido muito claro em relação à sua posição no que ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia diz respeito. O capacete onde se lê “não à guerra” já foi usado em mais do que uma ocasião. “Não devemos esquecer que o povo da Ucrânia está a sofrer e será difícil durante muito tempo. Não consigo imaginar o sofrimento dos ucranianos. Não sabemos o que Putin está a fazer, mas temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o deter”, disse no programa “Question Time”, da BBC.

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Mas talvez o mais impressionante seja os motivos que levam ao seu ativismo. Até à passada quarta-feira, Vettel não tinha um único perfil nas redes sociais, nem nunca se associou a algum patrocinador para defender seja o que for. Não se trata do lado comercial, é só uma questão de estar do lado certo da história.

“Não estou a fazer estas coisas apenas para que as pessoas olhem para elas. A primeira coisa que quero assegurar é que faz sentido e que ajuda o lugar onde estamos e o que quer que estejamos a fazer”, disse aos jornalistas durante o Grande Prémio da Rússia do ano passado.

É o facto de ser quem é, ter a influência que tem na sua modalidade, que lhe permite espalhar a palavra e conseguir que as suas ações consigam mesmo mudar as escolhas de quem o apoia há tantos anos. O que a Fórmula 1 vai fazer com aquilo que Sebastian Vettel deixa, não se sabe, mas que o piloto deixa o desporto melhor do que encontrou, é inegável.