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Ouro de Caeleb Dressel nos 50 m mariposa dos Mundiais de natação é mais um murro na cara da depressão: “Queria deixar a água para sempre”

O nadador norte-americano venceu, no domingo, o seu 15.º título mundial. Foi a segunda vitória em dois dias, em Budapeste, para o atleta que admitiu ter sido afetado por problemas de saúde mental após os Jogos Olímpicos de Tóquio. Alegadamente, a tendência já vem de trás

Carlos Luís Ramalhão

Dean Mouhtaropoulos/Getty

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O nadador norte-americano Caeleb Dressel venceu os 50 metros mariposa, nos Mundiais de Natação, a decorrer em Budapeste. O 15.º título mundial de Dressel é histórico, a segunda vitória em dois dias é motivo para celebrar. Mas o que o nadador acaba de fazer é, acima de tudo, dar mais um murro na depressão, um longo combate que Caeleb tem vindo a aperfeiçoar.

O jornal espanhol “El País” chama à mente de Dressel “perfecionista e cruel”. O nadador mais rápido do mundo quis castigar-se mesmo depois de ter conquistado cinco medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Até então, o feito desportivo só tinha sido conseguido por Michael Phelps e Mark Spitz, provavelmente as maiores lendas da modalidade.

“O momento monumental na vida de um nadador são os Jogos Olímpicos, um acontecimento organizado de quatro em quatro anos e em que a minha prova mais longa dura 49 segundos”, disse Dressel, em abril, para explicar o vazio que sentiu após a apoteose de Tóquio, há um ano. “Senti-me tão perdido, queria deixar a água para sempre, mas sabia que era esse um dos meus lugares seguros. Estava entre a espada e a parede. Senti-me miseravelmente durante dois meses”, confessou Caeleb, de 25 anos.

O campeão olímpico revelou que passou o Dia de Natal em lágrimas por sentir que, mesmo seis meses depois de Tóquio, tinha ainda de renovar o equilíbrio que desejava para a sua vida. “A minha mentalidade era: ‘Preciso de ajuda com tudo isto. Sim. Preciso de falar mais com as pessoas. Preciso de ser sincero’”, disse Dressel ao programa do jornalista Graham Bensinger.

O nadador da Flórida contou então que o que mais o atormentava era não ter podido bater as suas melhores marcas em 50 e 100 metros livres, apesar de ter ganhado as provas. “Não era justo comigo mesmo”, admitiu, acrescentando: “Em absoluto. Acabava de ganhar cinco medalhas de ouro (…) e apenas pensava que deveria ter nadado mais depressa”.

Dean Mouhtaropoulos/Getty

Os sintomas depressivos não são novidade para Dressel. Começaram no último ano do liceu, sob a forma de ataques de pânico e melancolia. Foi a própria mãe quem o revelou num programa da televisão americana. “Fechava-se no seu quarto com as persianas para baixo e recusava-se a comer. Não queria estar com pessoas. Estava numa depressão profunda”, confessou Christina.

A crise após os Jogos Olímpicos foi superada lentamente e com a ajuda de psicólogos, idas ao ginásio e, claro, à piscina. “No final de janeiro (…) senti-me novamente em forma”, admitiu Dressel, que trocou de treinador, juntando-se ao grupo de Anthony Nesty, ex-nadador de mariposa.

Foi com a ajuda de Nesty que Caeleb Dressel venceu a prova individual de 50 metros mariposa — não olímpica — em Budapeste, depois de, no dia anterior, os EUA terem vencido – com a sua preciosa ajuda – os 40x100 metros livres. Dressel é igualmente o Campeão Olímpico e Mundial dos 100 metros mariposa.

Sobre a vitória nos 50 metros, Dressel disse: “Não é um evento para o qual eu treine verdadeiramente. De certa forma, beneficia do meu treino para os 100 metros. É traiçoeira. Não altero muito a minha braçada, que é bastante longa para os 50. Funcionou, está tudo bem”.