Tribuna Expresso

Perfil

Expresso

“Precisamos começar pela inclusão, ponto final”: Megan Rapinoe defende participação de atletas transgénero em competições femininas

Lutou pela igualdade salarial entre mulheres e homens nos Estados Unidos e ganhou. Agora, Megan Rapinoe junta-se a uma luta que, por enquanto, não está a conseguir muitas vitórias. Numa altura em que as nadadoras transexuais são afastadas das competições femininas, a jogadora de futebol faz um apelo pela inclusão

Rita Meireles

Ira L. Black - Corbis

Partilhar

Megan Rapinoe é uma das futebolistas mais conhecidas no mundo, não só pelas suas conquistas dentro de campo, mas também por não virar a cara a qualquer que seja a luta. Desta vez, a norte-americana saiu em defesa das atletas transexuais, considerando que elas devem, sim, participar em competições femininas. Um debate que, para Rapinoe, é sobre algo muito maior que o desporto.

“Sou 100% a favor da inclusão trans”, disse Rapinoe à revista “Time”. “Penso que as pessoas também precisam de compreender que o desporto não é a coisa mais importante na vida, certo? A vida é a coisa mais importante da vida. E muito deste argumento da inclusão trans tem sido colocado através da lente extremamente minúscula dos desportos de elite. Estamos a falar de crianças. Estamos a falar da vida das pessoas”.

A jogadora, que já foi campeã do mundo e olímpica ao serviço da equipa dos Estados Unidos, realçou ainda que são poucas as provas que mostram que as mulheres transgénero distorceram as competições de elite, uma vez que estavam incluídas na maioria das modalidades femininas e, assim, sujeitas a níveis reduzidos de testosterona.

“Ao mais alto nível, existe regulamentação. Nos desportos universitários, existe regulamentação. E a nível olímpico e profissional. Não é como se fosse um desporto livre, em que todos fazem o que quiserem”, continuou.

As declarações de Rapinoe surgem numa altura em que a Federação Internacional de Natação (FINA) anunciou que as nadadoras transgénero não poderão participar nas suas competições, a menos que não tenham passado pela fase da puberdade masculina. Antes desta nova regra, as nadadoras transgénero podiam competir desde que conseguissem diminuir os seus níveis de testosterona. Foi assim que Lia Thomas se tornou a primeira atleta abertamente transgénero a ganhar um campeonato nacional da principal divisão universitária.

Ainda que nenhuma atleta transgénero tenha ficado perto de ganhar uma medalha nos Jogos Olímpicos de Tóquio, os cientistas vieram agora defender que estas atletas mantêm vantagens físicas significativas após a puberdade, mesmo que os níveis de testosterona tenham sido suprimidos. Algo que para Rapinoe não está à vista de todos.

“Mostrem-me as provas de que as mulheres trans estão a tirar as bolsas de estudo de todos, estão a dominar em cada desporto, estão a ganhar todos os títulos. Lamento, mas isso não está a acontecer. Portanto, precisamos começar pela inclusão, ponto final. Não podemos começar pelo oposto. Isso é cruel. E francamente, é simplesmente nojento", disse Rapinoe.

Rapinoe alertou principalmente para a situação em que colocam as crianças: "Estamos a falar de todo o governo estadual a cair sobre uma criança em alguns estados, três crianças em alguns estados. Eles estão a cometer suicídio porque lhes dizem que são nojentos, diferentes, maldosos, pecadores e não podem praticar desporto com os amigos com quem cresceram. Acho que é monstruoso. Também encorajaria todos os que receiam que alguém tenha uma vantagem injusta em relação ao seu filho a dar um passo atrás e a pensar sobre o que estamos realmente a falar aqui. A equipa de voleibol do seu filho no liceu não é assim tão importante. Não é mais importante do que a vida de qualquer miúdo".