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Tempo útil de jogo: porque é tão importante para o futuro do futebol e possíveis soluções para o aumentar

O treinador e analista Blessing Lumueno traz à discussão um dos temas essenciais para o futuro do futebol. Como se pode aumentar o tempo útil de jogo? Será a solução apresentada por Xavi, treinador do Barcelona, viável?

Blessing Lumueno

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Tem sido tema de debate nos jogos da liga portuguesa por se encontrar perto da cauda das ligas de topo, no que ao tempo em que a bola efectivamente está em jogo diz respeito. O tempo útil de jogo é um tema que deveria gerar um debate mundial, uma vez que o tempo em que as equipas estão a jogar, e não a especular, é um dos factores que podem melhorar o jogo e aproximar ainda mais o público, ou o público mais jovem, dos estádios. E é importante fidelizar o público mais jovem, porque, ao final do dia, são eles que vão garantir a continuidade da popularidade do jogo.

Com o avanço da tecnologia, como em todas as áreas, o futebol vai sendo mais analisado em todas os seus campos. E para lá da maior ponderação técnica e táctica, começam ao chegar ao público geral dados que inquietam quem acompanha o futebol. Antes de olhar para os dados do tempo útil de jogo, ninguém poderia intuir que de 90 minutos apenas 52’, em média, eram jogados. E se a discussão é importante, por ser um campo onde o jogo pode melhorar, não podemos esquecer, no meio da tentativa de mudança, o respeito pelas matrizes, pelas regras, pelas dinâmicas que o tornaram no jogo mais popular do mundo.

Se há coisa que o público quer cada vez menos são os espaços mortos provocados por quem não quer jogar e tem apenas interesse em deixar correr o tempo. Sabendo-se que as leis de jogo permitem que o anti-jogo (mascarado ou não) saia, na maior parte do tempo, beneficiado, é importante que se pense em formas de punir esse tipo de comportamento anti-desportivo com base nas leis de jogo. E sim, sei que as leis de jogo já têm, em vários parâmetros, linhas que permitem aos árbitros advertir ou até tentar compensar o tempo perdido; mas são linhas com um critério demasiado subjectivo que não apontam de forma clara que comportamento e/ou quando os punir.

Xavi, novo treinador do Barcelona e antiga estrela do futebol mundial, foi a voz mais recente dos muitos que defendem que o relógio no futebol deveria ser como noutros desportos: com pausas entre os momentos em que a bola está fora. E essa solução, segundo o mesmo, terminaria com as queixas sobres os descontos, com o tempo perdido, porque todas as equipas teriam, exactamente o mesmo tempo com a bola em jogo.

Concordando com a vantagem de todos jogarem o mesmo tempo efectivo, tenho algumas reservas sobre a implementação dessa medida.

O mesmo tempo com a bola em jogo, não significa o mesmo tempo de jogo. E se pode parecer, à primeira vista, algo perfeitamente residual, é possível que, num jogo com muitas paragens, existam diferenças de 15/20 minutos de tempo total de jogo. Essa é uma diferença importante porque do ponto de vista físico o futebol é exigente pelo tamanho do campo, pela continuidade do jogo, e pelo número limitado de substituições. Por isso, não seria possível uma mudança desse género, que protegesse os jogadores do desgaste, sem alteração de outras regras como o número de jogadores no banco e também o número de substituições permitidas. Imagine-se o impacto que teria os jogadores jogarem de forma frequente 120 minutos de tempo total.

(Foto: David Kirouac/Icon Sportswire via Getty Images)

(Foto: David Kirouac/Icon Sportswire via Getty Images)

Isso também implicaria mudanças ao nível da composição dos planteis, do banco de suplentes, do treino, do planeamento táctico, e do enquadramento estratégico do jogo. Basicamente, o futebol iria aproximar-se de outros desportos onde é mais fácil planear e guiar os jogadores pela possibilidade ilimitada de substituições, e com isso torna-se mais provável o aparecimento de jogadas tipo.

Olhando para essa possibilidade, intuo que desrespeita o espírito e a lógica vigente do jogo. O futebol distingue-se dos outros desportos pelas suas regras, e as mais importantes são aquelas que colocam o jogador no centro da decisão dos resultados. E é assim por ser um jogo de situações atípicas, de lances que não se repetem, e de acções semelhantes que não produzem o mesmo efeito. Tal só é possível pela relação entre o espaço e número de jogadores, por regras como a do fora-de-jogo, mas também porque a intervenção do treinador durante o jogo é limitada ao que consegue transmitir a quem está mais perto de si – dependendo da sonoridade do estádio -, porque o único tempo em que se pára, reagrupa, repensa, e reorganizar é o intervalo, e porque há um número baixo de substituições permitidas.

Se neste modelo já há um problema enorme com a gestão dos jogadores, tendo em conta o número exagerado de jogos em que participam, imagine-se o que seria de um modelo onde fossem obrigados a estar mais tempo em campo sem a possibilidade de substituição, ou o que seria do jogo se fossem permitidas substituições ilimitadas.

Não podemos esquecer que estamos a falar de um jogo onde ser, apenas, superior na execução não garante mais resultados. Essa imprevisibilidade, que deriva das regras, é o que transforma o futebol no desporto onde os favoritos mais vezes são derrotados. E é por isso, pela esperança da criança derrotar o adulto, que o futebol faz tantos sonharem, e que seja o jogo mais popular e mais praticado do mundo.

Para lá da minha paixão desmedida por este jogo, o tempo efectivo de jogo não responde ao problema maior e menos falado das perdas de tempo que é a quebra de dinâmica de jogo. Quando Xavi fala na questão do tempo certo, não contempla que, mesmo com tempo efectivo, o adversário possa estar sempre a quebrar a dinâmica parando o jogo, e demorando o que quiser nas reposições. E por isso, o fundamental é criar critérios objectivos para punir coisas como a persistência em jogo faltoso – com, por exemplo, um número limite três de faltas cometidas por jogador para que seja advertido; ou sete faltas da equipa, por cada parte, a partir das quais (como no futsal) seria marcado um livre directo no semi-círculo, sem barreira.

As reposições são outro problema, também por não existir uma definição do que é excesso de tempo perdido com as mesmas. Se há tempo para o guarda-redes ter a bola nas mãos, por ser considerada a possibilidade de anti-jogo, se não há a possibilidade de, no pontapé de baliza, o guarda-redes passar a bola por alto a um colega e este devolver com a cabeça, peito, joelho, para que ele agarre a bola, pelos mesmos motivos; por que motivo não há tempo definido para a marcação de livres, cantos, pontapés de baliza, e lançamentos, depois do apito do arbitro?

Há ainda a questão da entrada da assistência médica, caricaturada pela maca. Hoje, já existe uma excepção na regra que diz que, em caso de falta, se o jogador faltoso for advertido, quem está a ser assistido não precisa de sair de campo depois da assistência. Mas imaginem que nos outros casos todos, depois da assistência, os jogadores tivessem de ficar dois minutos ou até mais tempo, fora do campo. Se ficassem de fora o tempo necessária para dissuadir a entrada excessiva da equipa médica em campo, será que os treinadores iriam gostar de ficar durante largos períodos do jogo a jogar em inferioridade numérica? Isso não seria o suficiente para os próprios jogadores pensarem duas vezes antes de caírem para o chão? Podemos ir mais longe, e se a saída do jogador e consequente espera, fora do campo, para entrar fosse sempre que um jogador fica no chão mais do que 7 segundos?

Por que não há critérios objectivos para punir quem só quer deixar correr o tempo, como a perda da posse de bola, a marcação de livres indirectos, e as advertências, que ajudem os árbitros na sua tomada de decisão?

Será que não é possível fazê-lo sem perder a essência do jogo?! Não poderá isto ser feito sem transformar o jogo noutros jogos que não despertam tantas paixões?!

O público do Caldas SC deu um excelente exemplo de como se pode ajudar a combater o problema, num jogo da Liga 3 em que contaram em uníssono o tempo que o guarda-redes do Oliveira do Hospital demorou a recomeçar o jogo com um pontapé de baliza.

🚨 INSÓLITO 😅

Os adeptos do @CaldasSC1916 fizeram contagem para evitar a perda de tempo do guarda-redes adversário! Ai se a moda pega 😂 pic.twitter.com/eSmZYDRV3K

— Canal 11 (@Canal_11Oficial) September 9, 2021

É, sem dúvida, um excelente exemplo de como quem está no estádio pode ajudar a influenciar de forma directa a melhoria do espetáculo, e demonstrar a sua insatisfação com a postura pouco desportiva de alguns jogadores, e de algumas equipas.

PS: Não vi nenhum outro jogo da Oliveira do Hospital, e por isso o exemplo é meramente figurativo de como o público pode ajudar a melhorar o futebol.