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Mikaela Shiffrin voltou a cair e sente-se “uma piada”. Mas promete levantar-se: “Sou teimosa como o caraças”

A estrela norte-americana do esqui alpino prometia ser uma das figuras dos Jogos de Pequim, mas não ganhou qualquer medalha em provas individuais, tendo sido desclassificada por quedas em três ocasiões. Shiffrin não consegue “encontrar uma explicação” para o que lhe tem acontecido, mas, em resposta aos críticos, assegura que se vai “levantar”

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O céu nublado de Yanqing impede uma visão nítida sobre o horizonte, tapando as montanhas e colinas que, em condições normais, se vislumbrariam do topo da pista de slalom. Na mente de Mikaela Shiffrin, o horizonte não está lá ao longe, mas abaixo dela. Horas antes, tinha ficado em quinto lugar na prova de downhill do combinado alpino — competindo com os esquis de Sofia Goggia, italiana que foi prata no downhill dos Jogos e que escreveu “voa, Mika, tu consegues”, emocionando Shiffrin — e uma medalha parece mais do que ao seu alcance. A norte-americana só precisa de uma boa prestação na prova de slalom que está mesmo ali.

O “só” da frase anterior justifica-se porque, na história das competições de slalom da Taça do Mundo, nunca houve um homem ou uma mulher que vencesse mais do que as 47 provas que Shiffrin já ganhou. Depois de dias de “desilusão”, a redenção está a segundos de distância.

Uma prova normal, para os padrões habituais da golden girl, deve ser suficiente para uma medalha. Mas, neste Jogos Olímpicos de Inverno, nada parece normal para Shiffrin.

Somente 10 segundos depois de começar a descida, veio o erro, a queda e o final da prova na porta 10. Pela terceira vez em Pequim, Mikaela Shiffrin era desclassificada — ela que, nos quatro anos entre os Jogos de 2018 e os de 2022, só por duas vezes não conseguiu terminar competições.

As lágrimas não tardaram em surgir à medida que a frustração tomava conta de alguém que “não está habituada a perder”. Campeã desde adolescente, ouro nos Jogos de 2014 e 2018 e multi-medalhada em Campeonatos do Mundo, Mikaela Shiffrin era, até agora, uma espécie de máquina de produzir triunfos, uma geradora de êxitos sobre esquis.

Todas as análises apontavam a mulher do Colorado como clara candidata a figura dos Jogos de Pequim. O seu mediatismo valeu-lhe o protagonismo de anúncios que misturavam a promoção do desporto olímpico com publicidade a filmes de dinossauros, mas para Shiffrin, neste momento, deve ser mais confortável fugir de um Velociraptor do que enfrentar as descidas da pista de Yanqing.

Após a desclassificação no combinado nórdico — ganho pela suíça Michelle Gisin, com a compatriota Wendy Holdener a levar a prata e a italiana Federica Brignone a conquistar o bronze —, Shiffrin, entre suspiros, lamentações e risos de nervosismo e frustrações, voltou a falar durante largos minutos aos microfones da imprensa internacional, num cenário já visto nas outras provas. É como se, perante o inesperado insucesso, o prodígio do esqui alpino sentisse necessidade de um ato de contrição ou de uma explicação perante aqueles que não estão habituados a vê-la cair.

“O que mais me desaponta, além de sair dos Jogos sem medalhas individuais, é que eu tive várias oportunidades nesta pista, mas falhei em todas. Não sei se alguém alguma vez teve tantas oportunidades de obter um ouro nuns Jogos e falhou sempre”, assumiu a norte-americana.

Com uma sinceridade desarmante, Shiffrin reconheceu, novamente, que não consegue “encontrar uma explicação” para tantas quedas, algo que é “muito irritante”, porque quer “sempre encontrar uma explicação para as coisas”.

“Neste momento, sinto-me uma piada”, atirou a mulher do Colorado, que se disse “muito frustrada” por “não saber” o que “pode aprender” destes Jogos. “Não entendo mesmo o que não está a funcionar”, frisou, entre gestos que iam do desespero à auto-crítica honesta por parte de uma atleta que só desejava “conseguir terminar uma prova de slalom”.

(Foto: Sean M. Haffey/Getty Images)

(Foto: Sean M. Haffey/Getty Images)

Num país que coloca as exigências sobre os seus atletas olímpicos em níveis altíssimos, as críticas por nova prestação insatisfatória de Mikaela Shiffrin não tardaram em surgir. No Twitter, a esquiadora publicou várias imagens com frases que lhe iam chegando, desde acusações de “arrogância” ou “narcisismo” até frases como “teve o que merecia”, “não consegue render quando tem competição” ou “o teu tempo acabou, retira-te”.

“Não consegue fazer a única coisa que é suposto que ela faça bem”, lia-se numa das mensagens.

A norte-americana, que “em nenhum momento destes Jogos” diz ter sentido a “pressão a sufocar”, respondeu às críticas num texto, igualmente publicado no Twitter, no qual prometeu erguer-se: “Levanta-te porque consegues, porque gostas do que fazes quando não está infestado pelas pessoas que têm tanto ódio por ti”.

Shiffrin escreveu que “falhar não é o fim do mundo” e que voltará porque “aquelas primeiras nove portas foram espetaculares”. É “aí” que quer estar. “Sou teimosa como o caraças”, frisou a norte-americana, fazendo juras de não desistir.

Com três medalhas ganhas em Jogos Olímpicos e 11 em Campeonatos do Mundo, Pequim 2022 não deixará de ser uma desilusão para a ‘golden girl’, mas haverá uma nova oportunidade de subir ao pódio no Extremo Oriente. No sábado, Shiffrin estará no slalom paralelo de equipas mistas, uma competição coletiva.

Com o humor auto-crítico que a tem acompanhado, Mikaela comentou que “se calhar devia só fazer downhill agora”, porque assim sabe que “pelo menos” consegue “terminar”. E, quando a repórter do “Eurosport” internacional lhe deseja “boa sorte”, Shiffrin respira fundo e diz: “Obrigada. Aparentemente, preciso”.