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Expresso

A desilusão de Mikaela Shiffrin, o prodígio do esqui alpino que não sabia o que era cair: “Nunca tinha vivido esta situação, não sei como lidar com ela”

Medalhada de ouro nos últimos dois Jogos Olímpicos de inverno, detentora de múltiplos recordes e estrela norte-americana, a esquiadora não conseguiu terminar as duas primeiras provas que disputou em Pequim 2022 e logo nas disciplinas em que é mais forte. Simone Biles já manifestou o seu apoio a Shiffrin, que ainda pode disputar mais três competições. Mas as questões que coloca a si própria são muitas

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Mikaela Shiffrin está de pé, parada a fitar o horizonte. O ponto elevado em que se encontra permite-lhe olhar para as montanhas envolventes, todas despidas de neve. A exceção, produzida pelas máquinas que, artificialmente, cobrem aquela encosta de branco, está à sua frente — ou melhor, abaixo de si, na descida que a norte-americana tem de fazer. No minuto que se segue, Shiffrin fará a primeira manga da competição de slalom dos Jogos Olímpicos de inverno de 2022. Depois de ter falhado no slalom gigante, ali está, naqueles metros de descida vertiginosa, a redenção possível, a um minuto de distância.

Só que o minuto foram cinco segundos. Praticamente num abrir e fechar de olhos, Shiffrin cometeu um erro antes da porta 5 que terminou a sua prova. Dois dias antes, no slalom gigante, havia competido durante cerca de 10 segundos antes de um equívoco a obrigar a abandonar. Agora, o objetivo de nova medalha caía por terra passado ainda menos tempo.

Incrédula, a norte-americana começou por lançar um grito de desespero que ecoou pelas montanhas. Depois, encostou-se a um canto da pista, alternando entre estar de pé ou sentada. Ia olhando para o local onde cometeu o seu erro. Esteve ali, isolada, durante mais de 10 minutos. “Tentei pausar para perceber o que fiz mal. Não só o que fiz mal naquela curva, mas também durante o dia, ou durante a semana, ou durante os últimos anos, o que seja”.

Mikaela Shiffrin, a ‘golden girl’ do esqui alpino, nunca tinha vivido nada semelhante.

Mikaela Shiffrin depois do erro que a levou à desclassificação. (Foto: Adam Pretty/Getty Images)

Mikaela Shiffrin depois do erro que a levou à desclassificação. (Foto: Adam Pretty/Getty Images)

Para entender o inédito de tudo isto na vida de Mikaela Shiffrin é preciso olhar para o seu passado desportivo no esqui alpino, o qual mais se assemelha a um álbum de glórias e conquistas desde tenra idade. Aqui vai um resumo: em 2014, nos Jogos de Sochi, tornou-se na mais jovem campeã olímpica do slalom, aos 18 anos e 345 dias; em 2018, em Pyeongchang, venceu o ouro no slalom gigante e a prata no combinado alpino; é a mais condecorada esquiadora alpina em campeonatos do mundo na história dos EUA, com um total de 11 medalhas, seis delas de ouro; é a única atleta — homem ou mulher — com vitórias nas seis disciplinas na Taça do Mundo de esqui alpino (slalom, slalom gigante, downhill, combinado alpino, super-G e slalom paralelo); é a esquiadora, homem ou mulher, mais nova de sempre a vencer 50 provas da Taça do Mundo.

Competindo em cinco eventos em Pequim — os dois nos quais já foi desclassificada, faltando ainda super-G, downhill e o combinado alpino —, a atleta entrou para estes jogos com o objetivo de se tornar na primeira esquiadora alpina norte-americana a conquistar três ouros olímpicos. Ícone dos desportos de inverno e estrela mediática, Shiffrin foi destaque antes dos Jogos por ser uma das caras de um anúncio publicitário em que aparece a esquiar ao lado de dinossauros, numa ação de promoção televisiva da competição.

No entanto, as coisas no Extremo Oriente rapidamente começaram a correr de maneira bem diferente do esperado. As provas não têm sido um desfile de glória para Shiffrin, mas sim um conjunto de frustrações, território praticamente desconhecido para a atleta de 26 anos.

A queda de Mikaela Shiffrin no slalom gigante, a primeira das duas provas nas quais terminou desclassificada (Foto: Tom Pennington/Getty Images)

A queda de Mikaela Shiffrin no slalom gigante, a primeira das duas provas nas quais terminou desclassificada (Foto: Tom Pennington/Getty Images)

No primeiro evento em que participou, o slalom gigante, a norte-americana defendia o ouro conquistado há quatro anos. Escassos segundos depois de começar, Shiffrin estava arredada da discussão, o mesmo que sucedeu dois dias depois. Desde dezembro de 2011, quando tinha 16 anos, que a esquiadora não era desclassificada de duas provas técnicas de forma consecutiva. Nos quatro anos entre os Jogos de 2018 e os de 2022, só por duas vezes Mikaela não tinha conseguido terminar competições.

Um cenário inédito para uma mulher que cresceu a ganhar. “Não costumo falhar”, atirou.

E se Mikaela cresceu a esquiar, parte da culpa é do seu pai, Jeff, grande fã da arte de deslizar por mantos brancos. Em fevereiro de 2020, o pai da atleta morreu e, depois da primeira das desistências, Shiffrin lamentou a sua ausência: “Neste momento, gostava de lhe ligar, o que não torna as coisas mais fáceis. Provavelmente, ele dir-me-ia para seguir em frente. Mas ele não está cá para o dizer…”, disse a esquiadora.

Após a segunda das suas desilusões em 48 horas, Shiffrin esteve mais de 45 minutos a falar com a imprensa internacional, respondendo detalhadamente a cada questão, como que fazendo um ato de contrição. A norte-americana sublinhou o cenário desconhecido em que estava: “Nunca tinha vivido esta situação, não sei como lidar com ela”, disse, confessando sentir-se “muito, muito em baixo”.

(Foto: Tom Pennington/Getty Images)

(Foto: Tom Pennington/Getty Images)

Questionada sobre se a pressão excessiva terá sido uma das causas para as falhas técnicas que apresentou, a atleta admitiu que “talvez” tenha “ido além dos limites”, o que “se pode dever à pressão”, mas considerou que “o melhor é perguntar aos psicólogos”.

“Sei que há gente que me vai dizer ‘isto acontece, está tudo bem, não sejas demasiado dura contigo própria’. Mas é demasiado trabalho feito para fazer cinco portas no slalom e cinco no slalom gigante. Deixo-me ficar mal a mim mesma e deixo outras pessoas ficarem mal”, considerou.

As demonstrações de apoio a Shiffrin não tardaram a surgir através das redes sociais. Simone Biles, que nos Jogos Olímpicos de Tóquio abdicou de participar em várias provas para cuidar da sua saúde mental, escreveu, no Twitter, uma mensagem de força para a sua compatriota — nos Jogos de verão Shiffrin havia feito o mesmo, apoiando a ginasta. Também Lindsey Vonn, antiga referência dos desportos de inverno com três medalhas olímpicas, se posicionou ao lado de Mikaela.

Shiffrin ainda tem três eventos para competir nestes Jogos. Na sexta-feira, dia 10, decorrerá o super-G, competição que venceu nos Mundiais de 2019; na terça-feira, dia 15, será o downhill e na quinta, dia 17, é a vez do combinado alpino, no qual a atleta venceu a prata nos Jogos de 2018.

Ainda assim, a norte-americana lembrou que “o slalom e o slalom gigante eram os grandes objetivos” para Pequim, recordando ter “companheiras que são muito rápidas” e podem preencher as suas vagas. “Se é para abandonar na porta 5, para quê participar?”, questionou.

Ganhadora desde adolescente e estrela mediática como adulta, esperava-se que, para Mikaela Shiffrin, os Jogos de Pequim fossem um prolongamento do seu percurso de glória. Mas, para já, a ‘golden girl’ está a descobrir o outro lado do desporto, o qual lhe deixa muitas perguntas.

“Durante toda a minha carreira, apenas tive de confiar no meu esqui e as coisas surgiam. Claro que isto não é o fim do mundo, e é muito estúpido que eu me preocupe tanto, mas sinto que tenho de me questionar muito”.