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Os “problemas psicológicos” de Sancho – morre a culpa solteira?

A psicóloga do desporto Ana Bispo Ramires escalpeliza o caso Jadon Sancho, jovem do Man. United que demora a impor-se, recordando que a sociedade só se lembra do “emocional” para justificar, catalogar e “descartar”

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Nas últimas 24 horas Jadon Sancho, atleta de 21 anos do Manchester United (adquirido por 88 milhões de euros) foi o mais recente protagonista de uma “never ending story” acerca de jovens atletas que, muito em particular no futebol (provavelmente porque é a modalidade com maior visibilidade), após serem adquiridos por valores “astronómicos” demoram a confirmar o seu potencial (alguns, nunca o fazem).

Segundo o seu treinador, ele é um dos melhores nos treinos, mas não consegue transferir essa capacidade para os jogos.

Curiosamente, em mais de vinte anos de carreira, não me recordo de ver alguma notícia do tipo:

“Atleta X, adquirido por 60 milhões de euros, não consegue afirmar-se porque não sabe chutar à bola!”

E porque não?

Bem, porque naturalmente estes miúdos (porque de miúdos se tratam), treinam diariamente as suas competências técnico-táticas…

E as psicológicas? Nem por isso…

Ao invés, encontram-se “soluções” interessantes… catalogando os atletas de “problemáticos” e, se possível, passando o problema o mais rapidamente ao “outro”… como seja, transacioná-lo de imediato para outro clube (notícia que corre hoje na imprensa internacional).

Muito mais interessante seria que se assumisse a responsabilidade de que verdadeiramente estamos a falar de “incompetência emocional” e não de um “problema psicológico”, repartindo a mesma entre quem forma e quem é formado, e não apenas atribuindo o ónus ao alvo mais fácil da crítica que é o jogador em formação.

Curiosamente, se passássemos a “pente fino” uma qualquer equipa de topo, naquelas que são as suas capacidades psico-emocionais para manter um desempenho de excelência de forma consistente e continuada, encontraríamos sobejamente áreas em “défice” em todos os atletas que mesmo parecendo estar em “top performance”, na realidade estão em sub-rendimento por não terem estas competências igualmente treinadas.

Acontece que para o “leigo” – entenda-se, toda e qualquer pessoa que não seja devidamente especializada na área da literacia emocional e ativação de competências psicológicas para a “performance” – mais de 90% destas “pequenas incompetências” não são detetadas e, logo, não são otimizadas.

“Quem não sabe é como quem não vê”, lá diz a sabedoria popular.

De facto, temos que ser responsáveis na catalogação de “problemas psicológicos” e/ou “problemas de saúde mental” (que deveriam obrigar, necessariamente a um diagnóstico realizado por um profissional acreditado para o efeito… e não “tirado a olho” por qualquer um) e, muito rapidamente, assumir a nossa cota de responsabilidade que de forma nenhuma deve ser imputada ao atleta “per se”.

A falta de “eficiência” em termos do exercício de competências psico-emocionais em contextos de alto rendimento, que dirigentes, treinadores, atletas, árbitros, médicos, fisioterapeutas, psicólogos, gestores, professores, alunos, trabalhadores… enfim, todos nós, exibimos com mais ou menos frequência resulta, por isso, de uma sociedade (espelhada também no desporto, nas empresas, na escola e nas artes) que só se lembra do “emocional” para justificar, catalogar e “descartar” e, enquanto assim for, os que têm coragem de atuar nos grandes palcos colocando o seu desempenho no domínio da avaliação pública, serão sempre muito facilmente destacados de forma pejorativa.

Sanchos sempre existiram e sempre hão-de existir – a coragem de fazer diferente, de assumir responsabilidades, de lançar os primeiros passos de uma sociedade que deve integrar a literacia emocional em todos os seus contextos como uma alavanca de saúde mental e desempenho de excelência é que ainda está, aparentemente, muito longe de se manifestar.