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Espera-se que os jogadores, enquanto figuras públicas, se mantenham informados fora da sua bolha (Philipp Lahm sobre Catar, China e a democracia)

Num texto escrito em exclusivo para Portugal para a Tribuna Expresso, o antigo defesa e campeão mundial pela Alemanha em 2014 lembra a atitude da WTA face ao caso Peng Shuai na China como exemplo para o papel que o desporto pode e deve ter na defesa da democracia

Philipp Lahm

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O desporto é política. Isso é inquestionável neste novo ano em que os Jogos Olímpicos de Inverno decorrem em Pequim e o Campeonato do Mundo no Catar. Hoje em dia, é só abrir o jornal. O “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, o “The Guardian”, o “Polish Gazeta Wyborcza” e outros meios de comunicação de qualidade, com muitas vozes para dar notícias sobre o mundo, lidam, nas suas páginas desportivas, com o boicote diplomático dos Jogos Olímpicos por parte dos EUA, Grã-Bretanha e outros países, a diplomacia silenciosa do COI e os direitos dos trabalhadores no Catar.

Uma notícia recebeu especial atenção em todo o mundo. Por preocupação pela vida de Peng Shuai, que liderou o ranking mundial de pares, a Associação de Ténis Feminino (WTA) suspendeu todos os torneios na China. No total, cerca de 30% das receitas da WTA provêm da China, com as finais anuais em Shenzhen a distribuírem o equivalente a cerca de doze milhões de euros, mais do que qualquer outro evento no ténis feminino. Mas as jogadoras dizem agora: podemos viver sem esse dinheiro.

Uma postura forte é já uma tradição no ténis feminino, cuja história é marcada por personalidades. Nos anos sessenta, a fundadora da WTA e vencedora de vários torneios do Grand Slam, Billie Jean King, fez campanha pela igualdade de tratamento e de remuneração para ambos os sexos. Mais tarde, a vencedora de vários torneios de Wimbledon, Martina Navratilova, fez campanha pelos direitos dos homossexuais. O sexo supostamente mais fraco domina, na verdade, o modo de batalha. As atletas femininas transformaram a sua federação numa instituição independente.

A decisão consistente da WTA envia um sinal: é possível dizer “Não” no desporto. As negociações requerem uma interação – aproximando-se umas das outras, mas também se afastando de vez em quando. Os países em que os direitos humanos não são universais também investem no futebol. Estes países fazem parte do desporto global e oferecem tanto dinheiro que muitos têm dificuldade em recusar.

A televisão alemã ZDF realizou recentemente uma investigação com uma câmara oculta. O jornalista falou com trabalhadores do Nepal, Paquistão e Bangladesh que constroem estádios e estradas no Catar. Vivem oito num quarto, ganham 300 euros por mês e têm meses de salários em atraso. A investigação revelou que desde que o Mundial foi atribuído ao Catar, há onze anos, morreram 15 mil trabalhadores migrantes e não 6 500.

A reportagem mostrava também imagens atraentes de jogos da Taça das Nações Árabes de 2021 e dos oito novos estádios. Num país com 2,7 milhões de habitantes, metade do tamanho da Eslovénia, existem atualmente oito dos estádios mais modernos, dispendiosos e bonitos do mundo, a menos de uma hora de distância uns dos outros. A reportagem da ZDF foi uma antecipação do dilema que o Campeonato do Mundo do próximo ano irá enfrentar. As pessoas conhecem a situação no Catar e ainda assim gostam de ver as fotos espetaculares e as melhores equipas.

Billie Jean King, um exemplo na luta pela igualdade no desporto (Foto: Staff/Mirrorpix/Getty Images)

Billie Jean King, um exemplo na luta pela igualdade no desporto (Foto: Staff/Mirrorpix/Getty Images)

Conseguimos perceber este dilema. Quando, em 1978, o Campeonato do Mundo aconteceu durante o regime militar argentino, muitos jogadores não responderam a perguntas sobre direitos humanos. Hoje, já não podemos ver o mundo de forma tão ingénua. Graças a relatórios permanentes, todos os envolvidos sabem, melhor do que antes, o que acontece em continentes distantes. A maioria dos jogadores de futebol tem também mais tempo para lidar com estas questões devido ao seu nível avançado de profissionalismo. Espera-se que os jogadores, enquanto figuras públicas, se mantenham informados fora da sua bolha. Agora que o mundo se tornou uma aldeia, todos conhecem as condições no Catar.

Alguns futebolistas estão a intervir e a exigir que os direitos humanos sejam respeitados. “Penso que é necessário prestar mais atenção a este tipo de coisas no futuro, antes da adjudicação de contratos”, afirma Leon Goretzka, internacional alemão. “Acordámos demasiado tarde, eu acordei demasiado tarde”, escreve Tim Sparv numa carta aberta. Nela, o capitão da seleção da Finlândia convida os jogadores, os meios de comunicação e os adeptos a falarem sobre as condições de trabalho no Catar.

Este argumento já está a dar frutos numa pequena escala. Quando um jogador negro foi insultado racialmente por um espectador durante um jogo da terceira divisão entre o MSV Duisburg e o VfL Osnabrück, na Alemanha, em dezembro, foram as equipas que forçaram uma paragem. Todos os jogadores rapidamente concordaram que queriam dar este exemplo: jogadores, ambos os clubes, árbitros, associações e adeptos de ambas as equipas.

O indivíduo não é impotente, as pessoas podem fazer a diferença. Começamos em pequeno e podemos terminar em grande. A Greta Thunberg tinha quinze anos quando ficou de pé, sozinha, numa rua de Estocolmo para chamar a atenção para as alterações climáticas. Muitos aderiram e as ”Sextas-feiras pelo Futuro” colocaram o ambiente na agenda global. Isto mudou a política. O futebol também, por exemplo: o Campeonato Europeu de 2024 na Alemanha só pode ser considerado um sucesso se tiver em conta os aspetos ecológicos. Os nossos preparativos já estão em curso.

Considero-me um sortudo por ter nascido numa democracia. Não foi há muito tempo que as condições no meu país natal eram diferentes. Há três décadas a Alemanha estava dividida e a parte oriental era uma ditadura. Outras nações na Europa estavam também a passar por uma mudança. O Campeonato Europeu de 1964 ocorreu num estado fascista e a equipa espanhola venceu o torneio em casa, frente ao General Franco. Quando a Espanha ganhou a organização do Campeonato do Mundo, em 1982, Franco ainda estava no poder. No momento em que aconteceu, a Espanha já era uma democracia.

Os grandes eventos desportivos, especialmente no futebol, geram uma enorme atenção. Hoje em dia, os Campeonatos Europeus e Mundiais exigem que todos os que neles participam se envolvam nas condições de trabalho e dos direitos humanos, no Catar e em Pequim. No Euro 2024, na Alemanha, a Europa negociará entre si como queremos viver em conjunto.

*Esta é uma coluna de Philippe Lahm, escrita em colaboração com o jornalista Oliver Fritsch, do Zeit Online, e publicada pela Tribuna Expresso em exclusivo para Portugal