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Entrevista a Robert Platek, o investidor do Casa Pia: “O futebol não é onde fazes muito dinheiro. Se queres fazer dinheiro, compra imóveis”

O norte-americano, sócio da empresa MSD Capital, conta a história dos primeiros contactos, impressões e reuniões que antecederam a entrada no Casa Pia. Robert Platek, que também detém o Spezia, da Serie A italiana, explica como é a abordagem ideal quando se entra num clube e o quão importante é ter um 'arquiteto' local que lhe permite dormir à noite. Sobre a relação com o presidente Victor Franco, só flores: "Diria só fantástica. Sou casado há 32 anos e amo o homem. Tudo o que ele faz é por amor ao Casa Pia"

Hugo Tavares da Silva

Gabriele Maltinti/Getty

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Se um adepto do Casa Pia perguntasse "quem é você?", o que lhe diria?
Diria um adepto de desporto, um adepto de futebol e, depois, diria que te tornas um adepto do Casa Pia pela oportunidade. Perguntaram-me o que eu achava do Casa Pia no início e fiz alguma pesquisa sobre o que defende, sobre o que fez nos últimos 200 anos, até soube que teve alguns percalços nos últimos 20 anos. O que estão a tentar fazer atinge-te o coração. Amas o Casa Pia, amas o que defendem, mas depois vens aqui e sentes realmente o que o Casa Pia é, e vais ao museu, e conheces os casapianos, as crianças que estiveram no sistema, e têm 71 anos... e é o presidente. E conheces outra pessoa, de 42 anos, que trabalha no clube de futebol do Casa Pia, então quase que te puxa para dentro. O Casa Pia torna-se um bocado de ti quanto mais aprendes, é mais do que um clube de futebol.

Ontem [domingo passado, 21 agosto] o Casa Pia teve a primeira vitória na 1.ª Divisão em mais de 80 anos. Estava lá?
Eu estava lá.

E que tal?
Foi o meu primeiro jogo oficial, por causa da covid. Estou envolvido há dois anos, foi o primeiro jogo e estar no primeiro, e tecnicamente no primeiro jogo em casa [Casa Pia defrontou o Boavista em Leiria], contra um adversário forte e acabar com três pontos, sentado a duas cadeiras de distância do presidente, que nunca tinha visto o Casa Pia a ganhar na 1.ª Divisão, conhecer o staff, ver os esforços todos, foi maravilhoso ganhar. Mas, quando pensas no que significa para outras pessoas, é ainda maior.

Porquê investir no Casa Pia? É um clube pequeno, com uma pequena base de adeptos, até um pouco amador, segundo o presidente.
Primeiro, era em Lisboa, então estava no mercado certo, onde podes realmente recrutar. É a abordagem do underdog. Antes de comprar a equipa, sentei-me com o presidente, falámos do contexto e ele gosta da abordagem do underdog, estás envolvido com uma equipa pequena, não tens interrupções com um grupo de adeptos doidos. Os adeptos querem todos a mesma coisa, desde que seja para melhor. A pessoa que devia estar a entrevistar era realmente o Tiago Lopes, foi quem me convenceu de que ele conseguiria mudar a equipa, de que ele conseguiria de facto produzir essa mudança, de que conseguiria recrutar, de que podia recrutar uma boa gestão. Penso que começou com a plataforma da Casa Pia, com a sua história e por ser em Lisboa, certo? Podes ser um clube amador, mas se tiveres os ossos para ser algo melhor, ótimo, e se contratares as pessoas certas... o Tiago Lopes é o arquiteto do Casa Pia, da equipa, é o responsável por contratar todos os treinadores, todos os funcionários na empresa, tem sido a visão dele e tem sido um grande parceiro. Não é habitual estares numa parceria que é realmente um triângulo, temos o Casa Pia, o clube de futebol e a associação, o Tiago Lopes e eu, e todos se olham nos olhos. Boas pessoas, bons resultados.

Como conheceu Tiago Lopes?
Há um parceiro com quem faço negócios há cerca de uma década e foram eles que me apresentaram o Tiago Lopes. Nós falámos um ano antes de avançar, só sobre oportunidades. Ele tinha uma grande experiência, trabalhou em Inglaterra, nos Estados Unidos e, na altura, estava a trabalhar para o Benfica.

Quando foi a primeira vez que ouviu falar no Casa Pia e quando é que decidiu avançar?
Foi em julho de 2020. Ligaram-me a dizer que havia uma oportunidade num clube da 2.ª divisão que tinha algumas dívidas e podíamos ajudá-los pagando essas dívidas. Pensava-se que íamos ficar na 2.ª Divisão porque havia dois clubes na 1.ª Divisão que não pagaram as suas contas. Então, se pagássemos, ficávamos na 2.ª Divisão. Olhei para o clube e vi que tinha subido da 3.ª para a 2.ª Divisão e que tinha 11 pontos. Não eram apenas a pior equipa, eram a pior equipa de longe. O Tiago disse-me que tinha de esquecer isso: "Ficamos na 2.ª Divisão, conseguimos fazer um bom trabalho, conseguimos estabilizar no primeiro ano e, no segundo e terceiro anos, acho que conseguimos ser promovidos". Ele fez uma tese convincente, apeladora e séria sobre o porquê de isto poder ser alterado. Sendo perfeitamente honesto, a minha experiência em Portugal era zero. O meu conhecimento do Casa Pia era zero. O meu conhecimento sobre o panorama do futebol português era muito alto e eu sabia quão grande era. Ele achou que podia haver mais talento, há muitos miúdos na zona de Lisboa, e que construiria uma infraestrutura que seria sustentável na 1.ª Divisão.

Deixe-me perguntar sobre o acordo com o clube, uma SDUQ [Sociedade Unipessoal Por Quotas]. Esperava algo assim? Compreendeu porque o clube quis começar assim?
A forma como começámos foi, como dizemos nos Estados Unidos, namorar antes do casamento [risos]. Namorámos por algum tempo e garantimos que a forma como víamos a gestão do clube e como a faríamos seria aceitável para o Casa Pia. Eles estavam contentes com o que estávamos a fazer.

Há um plano para haver SAD. É realmente importante para si, é decisivo?
Penso que o queres sempre fazer, certo? É importante? Sim, estás a meter dinheiro em algo, então queres garantir que tens controlo a longo prazo. Mas foi sempre assim o plano, nunca pensei se era algo que queria. Foi algo que planeámos executar.

Que tipo de retorno é que resulta de um acordo deste tipo? Parece um negócio pequeno...
É um negócio pequeno. O futebol não é onde fazes muito dinheiro. No futebol, estás pelo amor ao desporto. Se queres fazer dinheiro, compra imóveis. Se te queres divertir, e talvez ter sorte a fazer dinheiro, então vais para o futebol.

Há muitos norte-americanos a comprar clubes, em Itália particularmente. É só sobre a diversão, então?
Estou a dizer no que tens realmente de pensar, se te envolves em futebol. O que outros pensam ou o que dizem a outros investidores ou a corretores pode ser muito diferente, mas a verdade é: se te envolves em futebol, seja em que país for, seja em Portugal, o que tentas fazer é ser a segurança [steward] do clube de futebol pelo tempo que o deténs. Tens de fazer as coisas da maneira certa. Não é um negócio em que vais fazer muito dinheiro. É algo em que vens aqui, com a tua família, vens a Portugal, desfrutas do país e das pessoas, vais ao teu jogo de futebol e sentes-te muito bem. Vendes um jogador de futebol e fazes dinheiro, mas, um mês, dois meses ou três meses depois, pegas nesse dinheiro e reinvestes noutro jogador ou em dois, ou três, certo? Então, estás sempre, de certa maneira, a investir no futuro.

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