Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

“Se no Brasil quisessem um futebol diferente, não teriam esta quantidade gigantesca de jogos”: João Martins, o fiel adjunto de Abel Ferreira

Estão juntos desde o primeiro dia do treinador em Alcochete, nos sub-19 do Sporting. Desde então, João Martins, de 33 anos, acompanhou Abel em todas as temporadas em Portugal, Grécia e agora Brasil. Em conversa com a Tribuna Expresso, que aconteceu a nove dias da final da Libertadores que se disputa esta noite (Palmeiras-Flamengo, 20h, Sport TV2), o treinador conta como é trabalhar no Brasileirão, fala dos mais de 100 jogos no último ano, do que mudou na equipa técnica (e das rezas antes e depois dos jogos, ao pé da "santinha"), reflete sobre a imprensa e até revela quem era um dos vizinhos de Abel Ferreira

Hugo Tavares da Silva

Cesar Greco

Partilhar

Já conheceste o famoso vizinho do Abel?
[sorri] Nós conhecemos alguns, de vez em quando vamos lá almoçar e jantar. É um vizinho que se espalha. Nós moramos aqui em frente ao CT [centro de treinos], do outro lado da rua. É uma zona de prédios, onde moram jogadores tanto do São Paulo como nossos. Os nossos CT são colados, é só um muro a separar. É pertinho, vimos a pé. Sempre que vamos para a rua, como os brasileiros gostam muito do contacto, somos muitas vezes abordados. O Abel deve ser abordado 10 vezes por dia. Lembro-me de ele dizer uma vez: 'Eh, pá, fui buscar a minha comida e até o senhor da mota me abordou e fez perguntas'. Eles são mesmo desbocados e chegou ali uma altura, quando as coisas não estão bem e uma pessoa está mais sensível, que tudo incomoda. Houve uma coisa engraçada: o Crespo, [o agora ex-treinador] do São Paulo, vivia no mesmo prédio e houve um dia em que um jornalista de uma televisão qualquer foi lá para a porta e o viu sair, então começou a dizer "já descobrimos quem é o vizinho, é o Crespo!" [risos].

Que tal a vida em São Paulo? Tens tempo para desfrutar da cidade?
Não temos muito. Não sentimos a insegurança porque estamos numa bolha à parte, não nos expomos muito. Nota-se cada vez mais moradores de rua. Sempre que tentamos sair aqui um bocadinho, vemos todos os semáforos cheios de crianças, nota-se uma desigualdade muito grande. Se formos um bocadinho ao centro, são às centenas os moradores de rua, mesmo a viver no passeio, sem nada. Nota-se que está difícil. Depois, há outros extremos. Quando vamos jantar fora ou temos algum convite para outras zonas, há muita qualidade de vida. É a cidade onde se deslocam mais de helicóptero. Tem dois extremos muito grandes. O trânsito é louco. Dizem-te "é só a 5 km", mas se calhar demoras 45 minutos. Fui buscar os meus pais ao aeroporto, vêm para a final da Libertadores, o voo chegou às 6h40 e eu cheguei às 9h10, antes de ir para o treino. O aeroporto é a 20 km.

Em 12 meses e pouco superaram a barreira dos 100 jogos. Como é trabalhar nesse calendário?
Foi uma grande adaptação que tivemos de fazer, deixar quase de treinar para ter os jogadores, muitas vezes não a 100%, mas o melhor possível para cada jogo. O nosso foco tem sido e só pode ser esse. Sabemos que há jogadores que iniciam [os jogos] a 50, 60%, e trabalhamos de dois em dois dias, de três em três dias, para conseguir prepará-los o máximo possível tanto fisicamente como mentalmente. Era uma das coisas que dávamos importância, mas não sabíamos que era tão essencial: a parte mental. Enquanto treinadores, também sentimos isso. O nosso foco, concentração, estar de três em três dias sempre nos limites é muito difícil. No início, aqui, diziam-nos: "Atenção que há alturas que têm de escolher os jogos, isto não dá para tudo". E nós: "como é que vamos ter de escolher dar mais importância a uns jogos do que outros?" Fazia-nos um pouco de impressão no início. Depois, passar por essas experiências, fez-nos ver que jogar de três em três dias, com aquela parte mental e a adrenalina nos limites, é humanamente impossível. Estes [mais de] 100 jogos num ano fizeram-nos dar importância a coisas que não só o treino, isso foi a grande experiência de passarmos por aqui neste calendário de malucos.

Artigo Exclusivo para assinantes

No Expresso valorizamos o jornalismo livre e independente

Já é assinante?
Comprou o Expresso? Insira o código presente na Revista E para continuar a ler