Perfil

Crónica de Jogo

Portugal foi eliminado do Mundial, mas continua a seguir em frente no andebol

Ao intervalo ganhava, às tantas chegou a perseguir cinco golos de desvantagem e acabou a perder apenas por dois (32-30). A seleção nacional bateu, e muito, o pé à Suécia campeã europeia e num pavilhão cheio das suas gentes. Não conseguiu qualificar-se para os ‘quartos’ do Campeonato do Mundo e, pela primeira vez, não vai melhorar a prestação face à edição anterior do torneio, mas, no andebol jogado, Portugal está cada vez mais perto do peixe graúdo da modalidade

Diogo Pombo

ADAM IHSE/Getty

Partilhar

Seria deveras gentil, a roçar o magnânimo, se os todos-poderosos suecos para quem a arte desportiva do bola-mão não tem segredos concedessem a Portugal o privilégio de se quererem poupar um bocadinho, resguardarem-se para os ‘quartos’ do Mundial onde garantidamente estarão e como líderes do grupo, quiçá quisessem poupar o conta-pulos nas perdas das suas gentes mais capazes. Mas riamos juntos, quem escreve e quem lê, o desporto é tudo menos isso e este seria sempre um jogo dos que “dá mais pica” aos portugueses, pela voz de António Areia.

Foi do seu braço esquerdo o golo inaugural da seleção, tarde em tempo andebolístico: aos 6’ e num livre de sete metros, ele parado ao contrário dos acontecimentos até então, frenéticos e vertiginosos, com a bola a esbarrar nos postes de ambas as balizas na mesma jogada, Iturriza, um pesado pivôt com três dígitos de peso, a rematar ao pé-coxinho e equilibrado numa só perna e Kiko Costa cedo a ser excluído por um remate à cara de Mikael Appelgren, substituto do melhor guarda-redes do torneio em eficácia percentual de paradas.

Os suecos não se pouparam no jogo e isso engrandece o que a seleção colecionou durante a meia hora inicial. Perante a corpulenta superioridade dos campeões europeus em altura, envergadura e extensão de braços, os portugueses puseram-se a vencer aos 9’ com uma clássica cadeia de passe entre central, lateral e ponta para Areia finalizar, outra vez ele, seria de novo ele a fechar uma vantagem de 14-13 ao intervalo nos sete metros e já com o tal Tobias Thulin na baliza, entrado de propósito para o tentar parar. A Suécia que jogava num pavilhão caseiro, cheio dos seus, não se poupava, mas não tinha tanto sucesso quanto esperaria.

A proeza atacante de Portugal esmerou-se na coincidência de Rui Silva e Kiko Costa a esquivarem-se de corpos, uma bonita ligação aérea entre eles viu-se aos 24’ para o adolescente marcar em alley-oop. A seleção nunca se afastou de um resultado discutido e renhido, mesmo com quatro exclusões acumuladas e oito minutos de inferioridade, uma alarvidade temporal os caçadores de história estiveram mais minutos a vencer do que a olharem para o ecrã do pavilhão e verem um prejuízo. E mesmo com o fenomenal Eric Johansson, garoto com cara de idoso e os seus 1,98 metros que parecem uns 2,50 quando pulava de braço armado. Fez quatro golos na primeira metade.

1 / 3

ADAM IHSE/Getty

2 / 3

ADAM IHSE/Getty

3 / 3

ADAM IHSE/Getty

A vida exclusões às costas teria eco logo aos 34’, o gigante literal e de capacidade que é Iturriza protagonizou a quinta de Portugal na partida e esses outros dois minutos reverteram a tendência. Em vez de a liderar ou empatada, a seleção virou empatada ou a perseguir, com a rapidez supersónica da Suécia a contra-atacar ou a reatar o jogo após um golo sofrido a notar-se. E quando, a partir dos 40 minutos, os anfitriões do Mundial acabaram com o descanso de Johansson no banco, de repente a Suécia ficou com uma diferença de quatro no marcador. O mal da seleção era arriscar correr com os suecos e ousar dividir um jogo de repelões com eles.

Quando os portugueses reatinavam à entrada dos 10 minutos finais, já não apressando tanto os ataques nem caindo na tentação da urgência, a desvantagem reduziu para três e chegou a sexta exclusão, uma dúzia de andaduras ao relógio com seis jogadores em campo é demasiado e mesmo assim, perante tanta adversidade, a seleção ainda encurtaria a distância para dois golos - e sem o braço armado de André Gomes, goleador-mor, provavelmente o maior saltador em altura da seleção, desavindo com a baliza (zero golos). Sem pressas, Portugal até chegou à magreza dos 26-27 à entrada para a derradeira mão de minutos.

Mas de poupanças nunca se fez a Suécia, nesses últimos instantes cresceram na mestria do controlo, o ponta Daniel Petterson foi aos oito golos, o matulão Johansson era uma chatice constante de ameaças, defensivamente eram todos a maior muralha com que os portugueses se depararam neste Mundial. O desespero do tempo a fugir-lhes deu erros de precipitação aos ataques finais da seleção e não se foi além de uma derrota por 32-30 quando se ouviu a sirene. O pavilhão de Gotemburgo ruiu em festa por uma vitória não nada muda para os nórdicos, no campo sobrava o cabisbaixo geral dos portugueses.

Não avançando para os quartos de final, a seleção também não melhora o 10.º lugar de há dois anos, nem a sequência de superar o registo em Mundiais em cada edição na qual participa. Não se escreveu mais umas linhas de história classificativa, sobram as provas a olho nu de como o andebol português cada vez mais arranha o nível dos países da elite da modalidade. Veja-se Rui Silva, Kiko Costa, André Gomes, António Areia ou Miguel Martins a manusearem a bola com as suas pegas cheias de resina e a irem contra suecos, islandeses ou húngaros, como se viu neste torneio, e todos irão entender.