Perfil

Crónica de Jogo

Benfica - Sporting. Os dois toques de Ramos e as tremedeiras do leão

Foi um dérbi com mais emoção do que qualidade, por vezes elétrico outras pobre, e o empate (2-2) conta a história de ambas as equipas não só esta noite mas também no campeonato: um Sporting inseguro nas duas vantagens e o Benfica eficaz a resolver problemas no ataque

Lídia Paralta Gomes

CARLOS COSTA/Getty

Partilhar

Não é nada que Rúben Amorim não tenha já referido, demasiadas vezes porque demasiadas vezes tem sido tema no Sporting a sombra que se abateu naquilo que fez o leão campeão. A equipa dessa época histórica não sendo uma máquina arroladora, era eficaz no ataque. Mas era, essencialmente, um adamastor defensivo, um panzer coletivo. Há duas temporadas, o Sporting provavelmente não teria perdido o dérbi deste domingo, em que se viu duas vezes em vantagem para duas vezes a deixar fugir e isso diz muito sobre o Sporting destes dias.

Os de Alvalade, entre o fim da surpresa e o depauperar do plantel, tornaram-se uma equipa insegura e sem fome. Apesar do empate não interessar a nenhum dos envolvidos, parece massacrar mais o Sporting emocionalmente, porque a história da temporada é isto: bons momentos que rapidamente são apagados por erros e inseguranças, a antítese do outro Sporting, do Sporting campeão. Ao Benfica bastou fazer um jogo de reação, aproveitando as fragilidades defensivas do leão. Já foi bem mais de encher o olho a águia esta temporada, mas o que faltou em vertigem, em urgência, chegou em eficácia, num jogo com mais emoção do que qualidade.

Ajudou a isso o Sporting, claro. Com Roberto Martínez na bancada, a equipa de Rúben Amorim entrou com um plano bem definido, tentando roubar a bola ao Benfica e convidando os jogadores de Schmidt à pressão (e, quem sabe, aos erros). Ainda assim, a única situação de perigo nos primeiros 20 minutos seria num livre de Porro aos 6’. O espanhol e Edwards foram uma espécie de dupla ameaça para Grimaldo, muitas vezes desguarnecido de ajuda, tal como Bah do outro lado.

CARLOS COSTA/Getty

Só aos 20 minutos se viu um lamiré da tal vertigem encarnada, com dois lances de perigo seguidos: Adán estava atento aos remates pela direita de João Mário e depois de Rafa. Foi já dentro desse aparente crescimento da equipa da casa que o Sporting marcou, aos 27’, golo a meias de Trincão e Bah depois de uma combinação pela direita de Porro e Edwards, com o inglês a cruzar para a pequena área.

O golo era um presente tardio pela boa entrada do Sporting, pela agressividade a meio-campo, a insistência nas bolas recuperadas - Ugarte estava em todo o lado. E quando se pedia o leão coeso de há duas épocas, surgiu aquele que tem sido uma constante esta temporada: num momento de aparente controlo, Gonçalo Inácio deixou Gonçalo Ramos fugir na área e com um toque subtil o internacional português fez de um cruzamento de Rafa o empate. Estávamos ao minuto 37 de um jogo repartido.

A 2.ª parte começou praticamente com o penálti que deu nova vantagem ao Sporting - remate puxado à esquerda de Pote, sem hipótese para Vlachodimos, que ainda acertou o lado. E novamente com a dificuldade leonina em segurar o jogo, controlar. Sem soluções de qualidade no banco, Rúben Amorim mexeu pouco e mexeu tarde, porque quem lhe fazia falta neste momento talvez esteja a jogar por Inglaterra.

A reação do Benfica foi, agora, mais rápida e a vantagem do Sporting durou pouco mais de dez minutos. Desta vez o cruzamento foi de Grimaldo e Gonçalo Ramos, de novo com apenas um toque, abandonado à sua sorte pelos seus marcadores, colocou o resultado em 2-2.

CARLOS COSTA/Getty

Daí para a frente faltou frescura física e soluções ao Sporting e inspiração ao Benfica. Neres entrou para trazer magia, mas pouco deu ao jogo, ficando sempre a sensação que uns encarnados de outros períodos da temporada teriam esticado a resistência dos leões até bem mais longe. Os últimos minutos souberam a pouco: tudo mal jogado, equipas partidas, pouco discernimento. Ao Sporting foram dados espaços, mas era Chermiti que Amorim tinha para lançar e o jovem avançado deslumbrou-se quando já nos descontos se viu praticamente isolado frente a Vlachodimos.

Para o Benfica, o dérbi foi uma espécie de contenção de danos, a voltar à tona depois de duas desvantagens, mas a exibição esteve longe de outras noites de glória da era Schmidt. Já o Sporting fica longe, cada vez mais longe. Por erros próprios, que não têm maneira de ir embora. Como quem batalha dentro de um poço seco, sem dar-se conta da corda que tem ali mesmo ao lado.