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Crónica de Jogo

O barrilete cósmico não morreu. Está na final do Mundial

A Argentina estará, pela 6.ª vez, na final de um Campeonato do Mundo, a segunda com Lionel Messi, por quem uma geração de jogadores confessa jogar para lhe dar a alegria que lhe escapa. Na meia-final em que acabou (3-0) com a Croácia de Luka Modric, essa vontade dos argentinos coincidiu com o vislumbre, mais uma vez, de um génio a ser génio: depois de marcar de penálti, Messi teve uma jogada adaptada ao Messi que é hoje, fintando repetidamente o melhor central do torneio para oferecer um golo

Diogo Pombo

Amin Mohammad Jamali/Getty

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É preciso a bola estar quieta e mansa, a esperar pelo protocolo, para Lionel Messi ser o equador do campo.

Está no circumponto do relvado com o objeto que lhe presta vassalagem entre os pés, ninguém a importuná-lo e todos a mirarem-no à distância. Messi é o único jogador ali, sozinho, na telepatia com os seus botões. Tem a bola domada, para variar, não por culpa da sua alquimia, mas porque aguarda pelo sibilado do árbitro que o ordene dar o toque de recomeço da meia-final. Nos segundos prévios, Lionel debruça-se sobre si próprio, usa a dobradiça da cintura e chega uma mão à coxa. É gesto de quem sente dor, um pinchado em algum músculo incomoda-o e ainda restam 45 minutos de futebol por jogar.

No único momento que antes tivera imóvel, em campo, foi para vermos o quão opressora de vontades alheias pode ser a FIFA nos braços de jogadores. Como se estivéssemos no recreio e fosse dona do brinquedo, a FIFA variou, de novo, o sortido de mensagens nas braçadeiras de capitão. O Argentina-Croácia está para começar e vê-se “Be active” na fita grená que aperta o braço esquerdo de Luka Modrić, sorridente q.b. no passou-bem a Lionel Messi. Esse não sorri de todo, está ali à força do protocolo e de um andem-lá-com-isso apertado pela braçadeira amarela que já não luz o outrora “no discrimination”. A moeda voa, escolhem-se os lados do campo, tiram-se fotografias e ativo já tinha sido outro Lionel.

Movido pela prudência, o selecionador Scaloni dá a Enzo Fernández a companhia do bom passador que é Leandro Paredes, fino na chuteira, elegante na postura de peito feito a correr, mas que entrara no jogo anterior para rasteirar, empurrar, pontapear e pressionar neerlandeses, toda uma feiura em quem se reconhece finesse. Quereria o treinador argentino um sossego possível, uma paz ocasional no miolo do campo onde saberia que dificilmente teria tréguas a tempo inteiro perante os três croatas da vidaić airada. Durante meia hora, jamais a teve.

Os argentinos jogam como a cantiga da multidão que por eles canta no estádio, são incansáveis, gritam na forma como pressionam as receções dos adversários e tentam chocalhá-los como os adeptos abanam os pulsos soltos, tão sul-americanos nesse momento. Mas é ingrato fazerem-se a Marcelo Brozović, o médio mais próximo dos centrais, a Mateo Kovacić que espera nas costas dos médios adversários, e a Luka Modrić, o génio entre eles que deambula os seus toques imunes ao erro por onde vir que é necessário. A Argentina ronda os 30 minutos a jogar à caça de sombras a meio-campo.

E cansa, mais do que as pernas mói é os juízos, imagine sentir repetidamente estar quase a intercetar um passe, roubar uma bola, adivinhar um drible, e um deles ou um a seguir ao outro dar um toque à última que desvia Enzo do caminho, ludibria Paredes, tira Julián Alvárez do esforço em pressionar o primeiro médio croata que tenta participar na saída de bola. Os argentinos com os dois médios, mais MacAllister e De Paul a ajudá-los, pareciam chegar cedo e eram transformados em atrasados por cada intervenção dos ić, que sozinhos controlam um centro de campo.

Então com o mascarado Joško Gvardiol a ajudá-los, central canhoto, calmo e composto na bola no lado por onde mais apraz a Messi jogar, a Croácia exercia a sua influência na posse. Os ofícios de pressionar, correr atrás e morder canelas não são os de Lionel e por aí os croatas também iam avançando no campo, de passe em passe, toque em toque dos seus médios, até à área. Lá chegados, faltava-lhes a baliza que Enzo Fernández foi o primeiro a ver, com um remate à entrada da área. Pouco depois, numa saída rápida, o confiante Gvardiol, atraído na ousadia de tentar adivinhar um passe em Messi, abriu uma cratera por onde Julián Alvárez correu rumo à bola para a desviar de Livaković na área.

Mas o guarda-redes croata não logrou desviar-se do avançado. Abalroou-o, o choque quase inevitável. O árbitro apitou e o penálti amansou a primeira bola a Messi, pedindo-lhe intervenção em vez de assim ficar, domada, devido a uma ação dele. O pontapé foi daqueles retilíneos rumo ao teto da rede, indefensável para quem teve íman nas luvas em dois desempates de penalidades neste Mundial.

Os argentinos, povo de emoção na guelra, continuariam a ser matreiros na paciência. Cinco minutos depois, arrancariam após um canto da Croácia, agora frenéticos na pressa para, em dois passes, lançarem Alvárez ao sprint com Messi ceifado à mistura. E o avançado foi, correu, insistiu, galgou 50 metros e a bola que guiou à frente dos pés parecia rolar em terreno acidentado: ressaltou em Juranović, depois em Sosa e o argentino já se ria quando rematou o segundo golo (este aos 39', o primeiro aos 34') para a baliza. Há que rir da desavença com o fado e também quando a fortuna nos sorri.

Depois, vindos do balneário, regressamos ao Lionel Messi no centro de tudo, a apalpar a própria coxa. Uma ilha equatorial antes do reatamento.

Charlotte Wilson/Offside

E os croatas sem pontapearem intenções à baliza, mesmo tendo jogado mais do que resistido ao contrário de como foram avançando no Mundial, já não podiam matutar com bola. Tinham de se urgir, ser e fazer mais, arranjar maior proveito da iniciativa que a Argentina lhes concedia e Zlatko Dalić, o selecionador, demorou cinco minutos a aprisioná-los na própria incapacidade. Cedo trocou Brozović por Bruno Petković, um médio pelo avançado de relação complicado com o golo que os salvara diante do Brasil.

E a equipa engripou-se, o motor-passador de três cilindros ficou a depender de dois, as correrias de Kovacić cansar-se-iam eventualmente e o barómetro de Modrić, socorrista de todas as emergências, viraria pecado a ser cometido diante dos nossos olhos pelo infrutífero que se tornava no jogo - perante tanta pressa em ter o fintador Vlasic na bola e urgência em bombardear bolas para a área, o sublime capitão acabou a ser o que não é. Quando saiu, aos 81’, destroçado no semblante, era um mero passador de bola para outros a ser substituído e a tocar bom a palma na mão dos comuns jogadores que o esperavam no banco, sem soltar uma palavra.

Já vira tudo, ou julgava ter visto antes deste jogo.

Cada minuto afastava a Croácia de alguma retribuição, cada tentativa de alcançar a área dos argentinos redundava na previsibilidade. Também nas limitações de uma seleção de um país nem com quatro milhões de habitantes, com uma final na bagagem e outra tão perto, que ficaria assim mesmo, só à vista. Não marcariam aos argentinos aprendizes deles próprios. Perdedores com escândalo na estreia com a Arábia Saudita, os jogadores eram os mesmos, ou quase, mas jogavam com sapiência e a calma que costuma formar a coluna vertebral de campeões do mundo.

Possibilidades de contra-ataques a furar a atabalhoada forma como os croatas reagiam às bolas perdidas eram travados, subitamente, pela memória do objetivo; jogadas eram levadas para perto das linhas, aproximando futebolistas da bola; posses eram recicladas pelos defesas, fazendo correr o desespero dos adversários. Mas, como os hábitos morrem a custo, por vezes atraiçoavam-se na procura do seu farol que antes dava um teto à evolução de uma forma de jogar na Argentina.

A meio-campo, viu-se Enzo Fernández a tentar devolver uma tabela a um Lionel corredor entre adversários em vez de salvaguardar a bola em MacAllister, sozinho ao seu lado. Num raro ataque rápido que arriscaram acelerar até à área, os argentinos, simplesmente, pararam com a bola no retângulo, todos com os olhos no ar em busca do Messi marcado para quem De Paul atirou um cruzamento pelo ar, como se a caridade da esperança desse ao capitão uma das poucas carências que tem, a altura e o gesto de cabecear uma bola para golo.

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Ian MacNicol

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Amin Mohammad Jamali

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Amin Mohammad Jamali

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Chris Brunskill/Fantasista

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GIUSEPPE CACACE

Nenhuma tentativa resultou, todas pareciam reverência em excesso, vãs vontades de quererem ter o líder que é ídolo no jogo. Pouco se demorou a entendê-los, como se já não se compreendesse a prioridade em levar a bola a quem é uno e indivisível dela quando a tem. Foi num lançamento lateral banal, na linha que divide o campo onde Lionel Messi recomeçara a partida, que Alvárez tocou na bola para o deixar de frente para a baliza com ela, mas a baliza tão longe, ainda a uns 50 metros, que se testemunhou história em andamento.

Messi domou a bola e correu, ou melhor, ativou um modo tão dele, entrou na zona-Messi, aquele transe celestial em movimento que o evadiu com os anos e dantes parecia depende unicamente de lhe apetecer, ou não, fintar dois, três, quatro ou cinco adversários ao engano, porque Lionel dribla a iludir, a fingir, a vender com o corpo coisas que depois não faz, não a deixar gatafunhos de simulações na bola que prefere manter colada ao pé. E ela assim ficou nesses 50 metros, enquanto o argentino até nem fugiu do intimidante Gvardiol, o provável melhor central deste Mundial, fantástica na estatística de antes só ter sido ultrapassado uma vez.

Messi manteve-o perto, ludibriantemente perto; fez um pique e escapou-lhe por metros, depois abrandou; voltou a arrancar e travou de novo; deu-lhe as costas na fronteira da área e fingiu que ia afastar-se dela, mas não, entrou nesse quintal onde forçou a desguarnição, fintou pela terceira vez o Gvardiol que até o teimoso corretor deste editor de texto teima em corrigir para Guardiola e concedeu-lhe a proximidade com que o croata ainda o agarrou, puxou e incomodou em vão. Já perto da linha de fundo, Lionel atrasou o curto passe com que Julián Alvárez só teve de encostar o terceiro golo.

Ainda faltam 20 minutos para o desfecho e a Argentina ganhava nesse instante, no momento da ressurreição da grandeza dos vintes de uma lenda que está com 35 anos, a jogar o seu último Mundial e a inspirar os argentinos rumo à final. Todos esses futebolistas o envolveram no abraço, mais do que um festejo foi um afagar coletivo com alívio. A consonância era óbvia, e simbólica: a confessa vontade de uma geração de jogadores em dar, se é possível oferecer tal coisa, um Campeonato do Mundo à lenda, coincidia com a melhor façanha individual deste torneio. Um rasto de genialidade que julgamos escapar aos génios quando envelhecem coroava a passagem à final.

O destroçar de um jovem central, com todo um largo potencial à sua frente (Gvardiol tem 20 anos), não equivale em números aos vários ingleses que Diego Armando Maradona ultrapassou em 1986, enquanto Victor Hugo Morales o perpetuava como “barrilete cósmico” na excitação da sua narração ao golo do século. A Argentina está pela sexta vez na final do Mundial, a segunda com Lionel Andrés Messi Cuccittini, o génio comparado a outro génio que terá a derradeira oportunidade de a história o deixar de guardar como uma comparação a quem o precedeu.