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Crónica de Jogo

Inglaterra - França. Kane, Maguire, Giroud e os elevadores da glória

Num clássico do futebol de seleções, França venceu (2-1) Inglaterra e é o primeiro campeão do mundo em título a chegar às meias-finais da prova no século XXI, defrontando Marrocos para aceder à partida decisiva. A equipa de Southgate fez uma bela exibição, poderia ter chegado ao empate por Kane aos 84', mas um penálti falhado pelo avançado junta-se à longa galeria dos traumas da seleção inglesa

Pedro Barata

James Williamson - AMA/Getty

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Ao contrário do que um ouvido menos atento ou uma pessoa menos curiosa possa achar, o “It's coming home” não é uma música de soberba ou orgulho britânico, muito menos o prenúncio de que um qualquer troféu está a caminho de Londres. É, justamente, o oposto. Um hino composto por ingleses para se rirem de si próprios, dos falhanços da equipa nacional, no qual se anuncia que “vamos obter maus resultado” e que há “a certeza” que “Inglaterra vai desperdiçar a oportunidade”, levando a “anedotas e graçolas”.

É um hino com alguma esperança e humor, mas que coloca uma seleção habituada ao falhanço à frente do espelho, rindo-se de si mesma.

Como é da praxe desde que, em 2018, a canção lançada em 1996 foi repescada, os seus versos foram entoados antes e durante o Inglaterra - França, duelo de rivalidade pouco vista no futebol de seleções. Mas, depois de mais de 100 minutos cheios da tensão que só um Mundial pode dar, o conjunto dos três leões sai de novo campeonato podendo acrescentar novos versos de tristeza ao seu cancioneiro.

Inglaterra perdeu (2-1) contra a França, aumentando o jejum que vem lá de longe, de 1966. E o mais doloroso é que não foi arrasada pelos campeões do mundo, não foi humilhada por Mbappé, não foi superada por Griezmann. Os homens de Southgate abandonam o Catar após uma bela exibição, uma das melhores desta equipa nos últimos anos, mas em que os famosos detalhes, os bocadinhos de coisas que formam o universo de sentimentos entre a felicidade e a alegria, voltaram a conjugar-se todos contra os ingleses.

Os gauleses venciam por 2-1 aos 84'. O brasileiro Wilton Sampaio, protagonista de uma arbitragem atabalhoada, recorreu ao VAR para assinalar penálti para a equipa em desvantagem. Harry Kane assumiu a responsabilidade e atirou para a bancada. Outro postal para a caderneta de cromos onde constam o desempate por penáltis da final de 2020, o golo fantasma de Lampard em 2010, as defesas de Ricardo em 2004 e 2006, o livre de Ronaldinho em 2002, o penálti do próprio Southgate em 1990, as genialidades e batotas de Maradona em 1986.

Robbie Jay Barratt - AMA/Getty

O começo do embate foi de cautelas. A imprensa inglesa passara os últimos dias a descrever como Southgate tinha um plano para travar Mbappé e a verdade é que o craque fez uma exibição bem menos inspirada.

Só que esta França possui tanto talento que se pode dar ao luxo de chegar aos quatro melhores da prova com um Mbappé longe das grandes noites. Tal como se pode dar ao luxo de continuar a ser um conjunto fantástico mesmo sem os lesionados Benzema, Pogba, Kanté, Nkunku, Lucas ou Kimpembé.

Aos 17', Tchouaméni, o homem que substituiu Casemiro no “triângulo das Bermudas”, como lhe chamou Ancelotti, do Real Madrid, pegou na bola à entrada da área. Do pé direito do jovem de 22 anos saiu um míssil de longe, especialidade pouco vista por terras caterenses. 1-0.

O 1-0 de Tchouameni

O 1-0 de Tchouameni

Robbie Jay Barratt - AMA/Getty

Inglaterra não acusou o golo, liderada por Saka e Kane. O capitão tanto aparecia a recuar e ligar o jogo como era um pesadelo para Upamecano dentro da área. O central francês terá de ter lições sobre como, para travar um dianteiro como o do Tottenham, o melhor é mesmo não encostar, porque Kane utilizará o corpo do rival como referência para se virar. Foi o que sucedeu aos 22', aparecendo Lloris para salvar.

Aos 29', Kane voltou a rematar, mas o seu parceiro nos spurs respondeu com classe. O intervalo chegou com uma estatística preocupante para uns e animadora para outros: só por uma vez, em 1990 contra os Camarões, conseguiu Inglaterra dar a volta a um duelo de um Mundial em que foi a perder para o descanso; só por uma vez, em 25 ocasiões, a França não venceu um desafio do máximo torneio quando foi a ganhar para o segundo tempo.

Mas os homens de Southgate entraram com entusiasmo para a etapa complementar. Saka voava pela direita, Bellingham erguia-se no miolo depois de minutos mais ausente. Aos 47', a pérola do Dortmund forçou Lloris a grande defesa.

A pressão inglesa levou mesmo ao 1-1. Saka, que joga com alegria e competitividade emocionantes, ganhou um penálti que Kane transformou em golo. São já 53 festejos para o homem do Tottenham, igualando Wayne Rooney como máximo artilheiro da seleção masculina.

De penálti, Kane faz o 1-1

De penálti, Kane faz o 1-1

Richard Heathcote/Getty

A eliminatória entrava no terreno de heróis e vilões. De entrar na eternidade pela via do céu ou do inferno. E, aí, às vezes parece ser difícil pensar que não há homens com o destino traçado.

Harry Maguire tem sido o bode expiatório dos males do Manchester United. Até no parlamento do Gana houve piadas sobre os erros do central. Maguire, o defesa com ar pouco glamoroso. Maguire, o tosco que não tem categoria para estar na elite.

Maguire, o herói de Inglaterra no Mundial 2022. Como? Pois, parece não conjugar. Mas esteve quase a acontecer.

Aos 70', o defesa elevou-se nas alturas, como querendo chegar ao Olimpo, para cabecear um livre de Henderson. O remate saiu com demasiada pontaria, batendo no poste. O lance que poderia ter mudado o destino de Maguire ficou a centímetros da glória.

Pouco depois, Griezmann cruzou da esquerda. A bola foi para a área, sendo disputada por Giroud e Maguire. O cabeceamento do avançado foi desviado pelo defesa, entrando na baliza de Pickford. No espaço de minutos, Maguire, o herói de Inglaterra no Mundial 2022, dava lugar a Maguire, novamente o carrasco, o homem que não conseguiu defender Giroud.

Em vez do defesa de cara feia, era o atacante com pinta de modelo o herói. Os milímetros da glória separados por tão poucos minutos.

Kane falha o penálti que daria o 2-2

Kane falha o penálti que daria o 2-2

Markus Gilliar - GES Sportfoto/Getty

Mas Inglaterra voltou a não desistir com o golo sofrido. Aos 84', Harry Kane teve nos pés a hipótese do empate.

Aos 29 anos, Kane é há quase uma década um dos melhores pontas-de-lança do mundo. Líder do Tottenham e da seleção, fantástico marcador de golos e criador de jogo, rematador e pivô que melhora o futebol ofensivo. Só que ainda nunca ganhou um título enquanto sénior.

E continuará sem ganhar. O remate de Kane elevou-se, como com ele se esfumou nova hipótese de êxito inglês. Nos elevadores da glória, nesse subir e descer de louvores e críticas que, no futebol, dependem dos centímetros do cabeceamento de Maguire ou dos instantes que o separaram do golo de Giroud, Inglaterra voltou a ficar no lado de baixo, no rés-do-chão de onde se observam os outros a sorrir.

A equipa de Southgate criou mais (2,32 expected goals — métrica que mede o perigo gerado pelos remates feitos — contra 1,19), reagiu a adversidades, mas volta a ser eliminada.

“30 anos de dor/nunca me fizeram parar de sonhar”, canta-se em “It's coming home”. Pode-se continuar a sonhar em Inglaterra, que a realidade da glória está do outro lado do Canal da Mancha. A França é a primeira campeã do mundo em título a chegar às meias-finais da competição no século XXI (não sucedia desde o Brasil em 1998). Segue-se Marrocos para a turma de Deschamps.