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Crónica de Jogo

Gracias, boludo

A Argentina bateu esta noite os Países Baixos, nos penáltis (4-3), depois de um 2-2 nos 120 minutos. Lionel Messi fez uma assistência divina e marcou um golo dos 11 metros, enquanto Weghorst entrou para ter uma noite para contar aos netos. No fim do dia, Emiliano Martínez foi o herói nos penáltis e o 10 foi agradecer-lhe

enviado ao Mundial 2022 Hugo Tavares da Silva

Simon Stacpoole/Offside

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Podia ter acontecido num pátio qualquer entre bairros rivais. Viram-se lutas corpo a corpo leais e quase bárbaras, patadas, empurrões, malandrices e truques, mas também golaços e passes tão divinos que dariam um nó na garganta de Víctor Hugo Morales. A Argentina esteve a ganhar 2-0, com o mago a marcar um e a dar o outro de uma maneira poética. Mas os argentinos deixaram de jogar futebol, confiaram em algo superior, e os Países Baixos, cheios de gente incapaz de baixar os braços, foram buscar o jogo, graças à cabeça do bom Weghorst e do laboratório de Louis van Gaal. Houve um árbitro que gosta da atenção. As brigas e confusões típicas de uma rivalidade eterna subiram de tom. No fim de contas, com as ruas todas a falar sobre o assunto, foram os penáltis a decidir e foram os sul-americanos a sorrir. Já estão na semifinal do Campeonato do Mundo.

Este era um daqueles jogos com muita história na bagagem. Na primeira metade da década de 1970, Johan Cruijff massacrou esta gente em duas ocasiões. Em 1978, durante a ditadura de Videla, Kempes e a bola no poste de Rensenbrink fizeram da Argentina campeã do mundo pela primeira vez. Em 2014, os penáltis permitiram tal como nesta sexta-feira a alegria a Messi e companhia contra a cínica Holanda de Louis van Gaal.

Mas o encontro mais giro, com mais cor e talvez mais artistas intoxicados pela liberdade de antigamente, foi mesmo em 1998. Os mágicos duelos entre Edgar Davids e Ariel Ortega, que seria expulso por agressão a Edwin van der Saar, que ia sofrendo com as tentativas de Batistuta, que tentava fugir ao afinadíssimo Frank de Boer. Kluivert fazia o mesmo com Roa. E depois, claro, como esquecer aquela feitiçaria de Dennis Bergkamp, que inutilizou Ayala como se fosse um limpa-chaminés amador e em cima da hora meteu a Holanda nas meias-finais?

Esta noite, no Lusail, voltou a haver duelos entre grandes futebolistas. Lionel Scaloni apostou na Argentina 2.0 que acabou o jogo contra a Austrália, colocando três centrais e soltando Enzo Fernández de um posicionamento recuado para a construção. Era um 3-5-2, com Lionel Messi e Julián Álvarez na frente. Van Gaal apostou no seu 3-4-3 com fama de defensivo, mas foi durante muito tempo a melhor equipa em campo, a encontar espaços e passes. Marten de Roon tratava de ocupar o espaço que Frenkie de Jong dispensava. O trio da frente – Cody Gakpo, Memphis Depay e Steven Bergwijn – era uma maravilha de seguir com os olhos, com os seus movimentos e contra-movimentos, ora à procura da bola na bota, ora no espaço nas costas da defesa.

Alex Livesey - Danehouse

O jogo seria sempre muito rasgadinho, nem sempre bem jogado, embora as defesas com cinco homens privilegiassem a segurança e a posse de bola. Mas houve pouca baliza. Na primeira parte, sumo da laranja só quando Bergwijn combinou com Depay numa associação ameaçadora. A seguir, Lionel foi Messi, afastou Nathan Aké com um movimento, ganhando um ou dois metros naquele segundo, e meteu um passe para Molina, que inaugurou o marcador. O passe foi uma obra divina e celebrou-se algo antes sequer da bola entrar na baliza. Celebrou-se um passe.

Os duelos eram todos muito físicos e rijos. Timber e Lisandro Martínez, os dois obreiros daquele debate sobre centrais baixinhos, encostavam nos avançados como búfalos. Julián Álvarez ia dando uma aula sobre ser-se um 9 trabalhador, aceitando que nem todas as noites serão batistutianas. Como crava a carapaça na do marcador direto é quase arte, lutando pela bola como se lutasse pela vida.

A Argentina, à entrada para a segunda parte, deu logo sinais de que ia abdicar de jogar. Houve muito chutão e aqueles nervos de quem quer ter a bola longe, muito longe. Van Gaal ia ensaiando o plano de ataque: depois de entrar Berghuis, as torres foram convocadas. Primeiro, foi Luuk de Jong por Daley Blind, o que permitiu desmontar a linha de 5. Do outro lado, Rodrigo de Paul, cujas notícias sobre a eventual lesão deixaram Scaloni irritado como Bilardo se irritava, saiu por Leandro Paredes.

Um penálti para a Argentina, por falta sobre Marcos Acuña aos 71’, parecia fechar a conversa deste duelo histórico. Lionel Messi, com uma caminhada olímpica, fez o 2-0. O jogo recompensou os sul-americanos que nada estavam a fazer por isso.

Alexander Hassenstein

Mas Louis van Gaal, eterno estrategista, continuou a avançar com o seu plano B e reforçava a força aérea laranja, que receberia a visita do honrado e mui general Virgil van Dijk. Wout Weghorst entrou aos 79’ e tudo mudou. Frenkie de Jong era o dono do jogo, tal é a influência que tinha, a qualidade que metia no jogo, como tratava a bola e a forma como girava com ela entre as botas… era um tratado. O golo dos neerlandeses chegou mesmo, depois de um cruzamento de Berghuis para a cabeça de Weghorst. O gesto foi das mais belas coisas já vistas no Catar, foi um golo com sabor a antigamente.

Os sururus acumulavam-se. A Argentina abdicou de jogar e agora queria que os outros o fizessem também. Tresandava a sabedoria de potrero, mas os neerlandeses não caíram totalmente na armadilha. Berghuis, que tem uma canhota digna de ser admirada por uma parte importante da população mundial, bateu na bola com força para as redes laterais. Já se cheirava o medo dos argentinos. Mesmo assim não se calavam… até que uma falta muito perto da área, já numa fase muito, muito avançada dos 10 minutos de compensação, congelou as gentes da terra de Diego.

Os jogadores da Argentina estavam todos à frente da bola, uns na barreira, outros a tentar bloquear adversários. Koopmeiners, com a alma mais fria no relvado, fingiu o remate e tocou para Weghorst, que se virou como se fosse um talentoso bailarino e empurrou a bola para a baliza do impotente Emiliano Martínez. Os holandeses festejaram como é suposto e os argentinos ficaram com o coração partido. Messi estava particularmente nervoso, queixou-se do árbitro e voltaria a estar no centro de outro importante sururu.

ANP

A Argentina puxou dos galões e tomou conta do prolongamento. “Isto é uma loucura”, diziam aqui ao lado. Enzo Fernández cresceu muitíssimo nesta fase. Tocou na bola em zonas mais avançadas e até houve momentos em que parecia um driblador nato, superando dois rivais na linha e cruzando. Depois de Lautaro Martínez tentar a sua sorte, Di María ameaçou de canto direto e Enzo, ele mesmo, atirou uma bola ao ferro no derradeiro minuto do jogo.

Haveria penáltis…

E aqui, com os tumultos a continuarem no meio do campo entre futebolistas e os guarda-redes a fazerem o melhor que podiam para sacar o pior dos outros, foi Emiliano Martínez o herói. O guarda-redes do Aston Villa, que chegou a dizer no passado que havia que dar a vida por Messi, defendeu os dois primeiros remates com defesas soberbas, voadoras. Foi o carrasco de Van Dijk e Berghuis.

Os argentinos foram fazendo o seu trabalho até que Enzo, que daria a vitória ao seu país caso marcasse, falhou na baliza de Noppert, sendo apresentado assim ao lado menos simpático deste desporto tão implacável. Lautaro avançou então, com o peso de três mamutes nos ombros, era tal a responsabilidade. O pé do avançado não tremeu e acabou por enviar uma nação inteira para o céu, mas também e mais importante para uma fase em que se pode realmente sonhar com a vitória num Mundial. No fim, Lionel abandonou o grupo eufórico e foi a correr para abraçar Dibu Martínez, que estava sozinho num lugar distante, certamente a agradecer aos deuses. Foi a vez de o deus da equipa lhe agradecer pelo menos mais uma noite nesta vida que constrói e destrói lendas. Segue-se a Croácia, que esta tarde eliminou o Brasil de Neymar Jr. nos penáltis.