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Morreu Fernando Chalana, o pequeno genial que era destro e parecia canhoto

Benfica

A Capital

É uma das glórias do futebol português. Fernando Chalana tinha 63 anos e a notícia foi dada pelo Benfica, que representou durante 13 épocas e pelo qual foi, na altura, o mais jovem de sempre a estrear-se. Fez 311 jogos e conquistou seis títulos de campeão nacional pelo clube da Luz e brilhou pela seleção nacional no Europeu de 1984, em França, onde o farto bigode lhe cunhou a alcunha de "Chalanix"

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Diogo Pombo

Diogo Pombo

Jornalista

Revienga, essa palavra tão comummente aplicada ao futebol, terá umas quantas costelas da sua génese cravada em Fernando Albino de Sousa Chalana e no respetivo contorcionismo que provocava em corpos alheios, nos de quem ousasse enfrentá-lo para o despojar de uma bola de futebol. Durante anos, esculpiu-se como um enganador por excelência, fingindo que ia cruzar, rematar ou arrancar com um pé para de repente trocar a bola para o outro pé, afinal os homens são bípedes e haverá ainda quem questione qual era o instrumento predileto do jogador.

A arte do engano, porventura fosse essa a profissão de Chalana, nascido no Barreiro para o mundo que arredondou à sua vontade quando atravessou o Tejo para despontar com estrondo no Benfica. Tinha 17 anos e 25 dias quando se estreou no antigo Estádio da Luz, foi o mais caçula a fazê-lo até então e cedo justificou o prematuro feito pela forma como iludia os adversários a julgarem ser possível adivinhar as suas intenções. A ingenuidade, por vezes, joga futebol.

A simplicidade também e a forma como Chalana ludibriava quem vestia outras camisolas vinha carregada com o fascínio dos gestos singelos: fingia que ia para um lado, denunciava-o sem pudores, e parava o movimento quando o adversário se comprometia com essa ilusão, envolvendo-o numa dança solitária com vista privilegiada para o ver a escapulir-se para onde havia espaço livre. Sem bicicletas sobre a bola, espalhafatos e artifícios desnecessários.

A primeira de 13 épocas a peritar-se na sua arte do engano foi em 1975, apareceu em dois jogos com Mário Wilson e, na seguinte, já fez da equipa principal do Benfica a sua residência permanente com as 33 partidas em que marcou 11 golos, a maior produção que conseguiu numa temporada da sua carreira. O treinador era John Mortimore, que o português responsabilizou por incutir-lhe o "só ver baliza" e jogar sempre para a frente.

Tinha apenas 18 anos e foi campeão nacional, a idade deveria ser tão-só um número para Chalana e os primórdios no Barreirense logo o habituaram a desfocar as datas de nascimento. "Quando lá cheguei pensei que ia treinar com os outros da minha idade, mas comecei logo a treinar com os seniores. Aos 14 anos treinava e jogava (nos particulares) junto a jogadores muito mais velhos", contou, anos atrás, em entrevista ao Sindicato de Jogadores. Desde sempre que Fernando Chalana tratou de enganar homens.

Manuel Moura/LUSA

Parecia ser um canhoto com jeito para ser destro ou um destro que tratava por tu o seu pé esquerdo, ele jogava com essa dúvida, é do piorio para quem defende enfrentar um pinga-amor por sair com as fintas para qualquer um dos lados e Chalana aproveitou-se da dúvida. "As pessoas pensam que sou canhoto, mas sou destro. As pessoas é que diziam e continuam a dizer que eu tinha um magnífico pé esquerdo, mas não sou esquerdino, nunca fui. Eu sou destro, talvez também por isso enganava muitos adversários", explicou quem marcou todos os penáltis da carreira com o pé direito. As aparências são as maiores ilusoras.

Com a camisola sempre sem tino e estendida por fora dos calções que, nos seus tempos, eram curtos e o faziam parecer um futebolista a jogar de saiote, os anos alongaram-lhe os cabelos e pontuaram-lhe um bigode na base do longo nariz. Quando Chalana levou o engenho das fintas ao Europeu de 1984, em França, para sentar estrangeiros amiúde, os gauleses que muito a custa eliminaram Portugal, nas meias-finais, chamaram-lhe "Chalanix". Os dois golos que fizeram Jordão erguer o seu braço triunfante enquanto elevava os joelhos, a calcar degraus imaginários na celebração, vieram de cruzamentos do 4 de Portugal que já tinha sido o 7, o 8 ou o 10 no Benfica.

Qualquer número seria curto para o descrever ou fazer jus. Em 1984, boquiaberta tanta gente com a ginga levada pelo português ao Campeonato da Europa, apareceram os 300 mil contos do Bordéus para o levar do Benfica. À época, o equivalente a €7,3 milhões atuais (de acordo com a Pordata) eram um balúrdio e serviram para o clube terminar a construção do Terceiro Anel do antigo Estádio da Luz. O então presidente, Fernando Pires, justificaria mais tarde ao "Record" que Chalana "já andava lesionado há algum tempo" e aceitou vendê-lo porque "jogou todo injetado" pela seleção na epopeia em França. Seria por lá que o corpo começaria a derrotar o talento.

As mazelas nos joelhos frenaram, à bruta, a genialidade de quem ficou limitado a 26 jogos feitos em três épocas no Bordéus, onde coincidiu com Jean Tigana e Alain Giresse, dois super jogadores que ladeavam Michel Platini na seleção gaulesa que impediu Portugal de alcançar a final do Europeu. Ao todo, Chalana fez apenas 27 jogos pela seleção.

Regressou ao Benfica em 1987 e ainda venceu um campeonato e uma Supertaça de Portugal, já cadente e com a genialidade presa às amarras corporais. Nunca deixaria de ser o "Pequeno Genial", alcunha inventada pelo jornalista José Neves de Sousa que apenas faltou oficializar-se no seu bilhete de identidade, tão usual que virou falar de Fernando Chalana usando a descrição que lhe era mais fiel. "Teve a amabilidade de me chamar assim, pôs esse nome na pri­meira página de um jornal e ficou para sempre", reagiria o antigo jogador, contido nas palavras e introvertido de personalidade, como muitos o retratam.

Arquivo A Capital

O estore da sua carreira começou a fechar-se fora do Benfica, embora sempre nas redondezas de Lisboa. Fez uma temporada no Belenenses e cumpriria a última no Estrela da Amadora, em 1991/92, com 33 anos e na segunda divisão, contexto pouco condizente com o jogador que Fernando Chalana era. O futebol é um lugar estranho, onde as artimanhas das lesões chocalham as fundações de quem joga.

Sem chuteiras nos pés e rendido ao corpo chegaria o divórcio da mulher, Anabela. Viu os jornais abusarem na tinta para remoerem a sua vida pessoal e multiplicarem as parangonas enquanto o caso, escreveu-se à época, lhe esvaziava a conta bancária. Tinha o gosto pela columbofilia e ocupava-se com dezenas de pombos que tinha na sua casa, em Cascais. "Não é por acaso que, quando deixamos definitivamente o estrelato para entrarmos num mundo comum à maioria dos vivos, esses 'amigos' desaparecem como por magia. Até parece, por vezes, que contraímos uma doença contagiosa", lamentou, em 1994, ao jornal "A Capital".

Fernando Chalana retornou ao Benfica a meio da década de 90. Aproximaram-no da miudagem a crescer rumo aos tempos da Internet e imediatismo das redes sociais, quiçá sem memórias de o verem a destroçar esperanças adversárias. Assumiu cargos no futebol de formação do clube e, em 2002, virou treinador-adjunto (por duas vezes) da equipa principal, na sombra de José Antonio Camacho. Chegou a orientar a equipa no interlúdio de o espanhol ir embora e outro nome chegar, experiência que o marcou para se dedicar, sem pudores, à formação, como recordou ao Expresso em 2011: "Foi terrível. Não quero treinar o Benfica, quero ensinar".

Deu incalculáveis lições de futebol e da vida a quem foi beijado pela sorte de o conseguir ver jogar.