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Enzo Fernández e o hygge à Benfica

O argentino é, por estes dias, sinónimo do bem-estar do Benfica de Roger Schmidt, que foi à Dinamarca vencer o Midtjylland por 3-1 e garantir um lugar no play-off de acesso à fase de grupos da Champions. Foi Enzo que abriu o marcador num jogo em que os encarnados tiveram, aqui e ali, algumas desatenções, sem nunca perder o controlo do filme, gerindo na parte final

Lídia Paralta Gomes

BO AMSTRUP/Getty

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Vivemos numa era de tamanho desenfreio que o simples ato de beber um chocolate quente na paz do senhor junto a uma bonita lareira tem um nome próprio. A essa sensação de bem-estar os dinamarqueses que, diz-se, são o povo mais feliz do mundo, chamam hygge, termo que, como qualquer palavra nórdica, vende móveis e livros e ainda nos faz sentir aquele aconchego na alma.

A viagem a Randers e não a Herning - o estádio do Midtjylland recebe por estes dias o Mundial equestre - não sugeria transtornos existenciais ao Benfica de Roger Schmidt, que por Lisboa, cidade que terá na sua versão de hygge um copo de branco fresco à beira-mar, venceu os dinamarqueses por 4-1, naquela vertigem teutónica que tem sido sinal da cruz dos encarnados esta época.

Schmidt, previsivelmente, apostou no onze que mais lhe tem caído no goto, com Chiquinho a fazer as vezes do lesionado Neres - estava aqui a oportunidade de, num jogo sem pressão, tranquilo e agradável, carregadinho de hygge, o Benfica versão 2022/23 cimentar dinâmicas e movimentos. E apesar da vitória por 3-1, que colocou na pedra um triunfo no agregado por claros 7-2 e a passagem ao derradeiro play-off de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões, Schmidt terá as suas razões para coçar o queixo. Não que o Benfica tenha incumprido na promessa do treinador de continuar a ser uma equipa virada para o ataque, mas de tempos a tempos, terá relaxado talvez em demasia, frente a um Midtjylland de qualidade infinitamente inferior.

Essa intensidade em modo de gestão permitiu aos dinamarqueses tentar umas gracinhas aqui e ali, aproveitando algumas perdas de bola e desatenções da defesa do Benfica. Um dos lances mais perigosos do Midtjylland nasceu de um mau passe de Otamendi bem perto da área, com o brasileiro Paulinho a aproveitar para cavalgar até à baliza. Vlachodimos, bem, afastou. Já perto do intervalo, foi o guardião grego novamente a salvar depois de uma jogada confusa na área que ninguém conseguiu limpar. Na 2.ª parte, aos 63’, houve mesmo golo: Sory Kaba estava na mais tranquila solidão na grande área do Benfica e cabeceou à barra, com Sisto a marcar na recarga, num daqueles remates sôfregos e urgentes, como se fosse o último remate da vida do internacional dinamarquês que na Luz achou interessante fazer uma panenkada quando a sua equipa perdia por 4-0. Lá moral tem ele.

Bo Amstrup/EPA

Não sei se tal conceito existe, mas estes foram os períodos de, digamos, demasiado hygge do Benfica, que tem gente com talento suficiente para não sofrer golos contra estes esforçados nórdicos. Nada absolutamente problemático porque por essa altura já o Benfica tinha matado uma eliminatória que vinha quase fechada de Lisboa, com um golo do homem que tem personificado o hygge encarnado desta época: um Enzo Fernández que não só se manobra elegantemente na linha de meio-campo como vai lá à frente para fazer mover as redes da baliza - já são três golos em três jogos oficiais esta época deste argentino que é, por ora, a bússola que faz mover o jogo do Benfica. Aos 23’, está nele a origem da jogada e também é dele o faro para ir à área buscar o passe perfeito de Gonçalo Ramos.

A partir daí o Benfica parecia ir a todo o vapor rumo a uma vitória fácil, a impor velocidade e combinações rápidas, a marca de Schmidt, mas a exibição fez-se de momentos de controlo vs. desatenções desnecessárias. O treinador do Benfica lançou Yaremchuk e Henrique Araújo ao intervalo e foi da cabeça do madeirense que surgiu mais um golo, aos 56’. Mesmo com o Midtjylland a reduzir sete minutos depois, a vitória nunca esteve em causa, faltou apenas a afinação e mais constância na vertigem, numa 2.ª parte mais de gestão e rodagem que de fogo de artifício, fora o grande momento cortesia de Diogo Gonçalves, que marcou o golo da noite a dois minutos do fim: vindo da esquerda, fletiu para o meio, ninguém fez caso e o remate surgiu dali mesmo, ainda fora da área, cruzado em direção à baliza da equipa da casa.

Segue-se agora o playoff de acesso à fase de grupos para que o hino da Champions seja uma realidade nesta Luz onde Enzo alumia o caminho. Com a tranquilidade de quem ao final do dia relaxa no sofá com uma musiquinha, no bem-estar de quem sabe que é feliz a tratar da bola.