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Os 11 capítulos da segunda vida de Jesus no Benfica

Dos vaticínios de uma equipa a jogar a triplicar e do all in que correu mal logo no arranque da primeira época, às culpas depositadas na covid-19 e aos desequilíbrios na formação do plantel para lá da qualidade individual, a segunda passagem de Jorge Jesus no Benfica fica marcada por zero títulos conquistados e uma parca herança deixada. Para explicar este ano e meio de JJ no clube da Luz, dividimo-lo em 11 pontos

Diogo Pombo

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“Vamos jogar o triplo”

Era mais uma queda para profecias bombásticas, cheia de bola de cristal na voz, mais uma dada por Jorge Jesus. De fato, camisa branca e gravata encarnada, respeitou o seu próprio apanágio e deu um farto soundbite para marcar o seu regresso ao Benfica. Estávamos a 3 de agosto de 2020: “Não digo que o Benfica tenha de jogar o dobro, porque se não jogar o dobro, a gente volta a não ganhar. Temos todas as condições para fazer uma equipa muito forte (...) e não vamos jogar o dobro, vamos jogar o triplo”. Sendo premeditado ou saindo-lhe de espontâneo improviso — já no verão de 2009, na primeira apresentação no clube, dissera que a equipa ia “jogar o dobro” —, a garantia era um bumerangue lançado sem data fixada para regressar. Ainda não havia um treino feito com a equipa e Jesus já cobrava a todos, treinador e jogadores, uma expectativa de rendimento.

Os €100 milhões de investimento

Quem assina papelada, dá ordem de pagamentos e acorda valores em negócios de transferências era (ainda) Luís Filipe Vieira e não JJ, mas, dizendo o treinador, na apresentação, que tudo estava a postos para formar uma equipa “muito forte” e vendo, depois, o Benfica contratar jogadores como Darwin Núñez (€24 milhões), Éverton Cebolinha (€20 milhões), Pedrinho (€18 milhões), Nico Otamendi (€15 milhões), Luca Waldschmidt (€15 milhões), Gilberto (€3 milhões) e Lucas Veríssimo (€6,5 milhões, em janeiro) até perfazer uns exatos 105 milhões de euros, o peso das expectativas alcançou toneladas não palpáveis. Acrescentando às palavras do treinador um esbanjar de dinheiro no mercado como jamais se vira num clube em Portugal, o Benfica, equipa e instituição, ficavam quase obrigadas a conquistar títulos. A pressão auto-imposta pelo all in com que abordou a temporada engordava ainda mais.

A não entrada na Liga dos Campeões

Toda a garimpa das palavras e dos atos precipitar-se-ia, sempre, sobre o primeiro jogo oficial de uma época tresloucada pelos efeitos de uma pandemia nos calendários do futebol. O Benfica arrancou a época 2020/21 logo com uma 3.ª pré-eliminatória de acesso à Liga dos Campeões a um só encontro, quis o sorteio que fosse em Salónica, na Grécia, onde a equipa perdeu (2-1) com o PAOK treinado por Abel Ferreira. Todo o contexto desse resultado abanou logo as fundações de uma temporada, caindo o clube no fundo do caldeirão que o próprio encheu de risco com os dois pontos anteriores: ser derrotado por um clube com menos meios, menos qualidade individual dos jogadores e treinado por outro português. Em coisa de mês e meio, um dos objetivos da época é falhado e a consequência mais visível de ficar sem os cerca de €34 milhões da eventual entrada na Champions viria 12 dias depois, com a venda de Rúben Dias ao Manchester City e a chegada de Nicolás Otamendi.

A culpa depositada na covid-19

Virado o ano, o bicho que estava e está no meio de nós entrou, em força, no Benfica. Em janeiro deste ano, o clube teve 17 pessoas infetadas entre jogadores e staff técnico; só de futebolistas, chegaram a ser 10 indisponíveis em simultâneo. Nos dois primeiros meses de 2021, o Benfica fez nove jogos e ganhou apenas dois, perdendo um e empatando seis e, quando essa série estava a findar, Jorge Jesus decidiu sacudir os ombros. “Temos sido alvo de críticas injustas”, disse, a 24 de fevereiro. “Como treinador do Benfica serei sempre o responsável pelos bons e maus resultados quando tiver responsabilidade. Podem perguntar: mas és o treinador e não tens nada a ver com a crise? Não, eu não treinava a equipa. Eles estavam doentes”, argumentou o treinador, quando estava no 4.º lugar do campeonato, a 15 pontos da liderança do Sporting e a ler notícias sobre uma eventual saída do clube.

Sendo certo que a ausência de jogadores condiciona o que pode jogar uma equipa, o Benfica, nesta fase, evidenciava uma desinspiração coletiva com bola (movimentos visivelmente trabalhados, futebolistas a mexerem-se consoante um padrão treinado) frente a adversários que se fechavam mais perto da própria área, cuja dependência em rasgos individuais nem sempre resolvia. Entre outros problemas. “Não vou sair por pé nenhum, pois não me sinto responsável por esta crise do Benfica, nem eu, nem os jogadores, nem a estrutura, nem o presidente. Esta crise não tem nada a ver comigo, eu não treinava os jogadores e também não tem nada a ver com eles”, reforçou, então, o treinador. O Benfica terminaria o campeonato na 3.ª posição.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Os três centrais e os zero títulos

Entremeada na fase dos maus resultados e dos casos de jogadores infetados, Jorge Jesus recebeu Lucas Veríssimo a 9 de fevereiro e o defesa central que tinha fisgado desde os tempos no Brasil fê-lo alterar, de vez, o sistema tático da equipa. Os três centrais a que recorrera, já antes, para replicar a organização com bola do Sporting e fazer os jogadores encaixarem nos adversários pelas referências posicionais (derrota por 1-0, a 1 de fevereiro), foi adotado com constância a partir da eliminatória da Liga Europa perdida com o Arsenal. O central destro brasileiro juntou-se a Otamendi e a Vertonghen, a equipa estabilizou nos momentos defensivos e cresceu na estrutura assente nos três defesas. Nos 14 jogos feitos a partir de março, o Benfica só não ganhou dois (derrota com o Gil Vicente e empate com o FC Porto), vencendo perto do fim o Sporting quando o rival já garantira a conquista do título nacional. No início de maio, Jorge Jesus já dizia que “sem os casos [de arbitragem]" não tinha dúvidas de que o "Benfica teria sido campeão”, mas, semanas depois, perde a final da Taça de Portugal com Sp. Braga, confirmando o desmoronar da cordilheira de expectativas — acaba a época de regresso ao clube sem títulos conquistados.

O desaproveitamento de jogadores

Uma equipa jogará melhor quanto mais condições houver, dentro dela, para que cada futebolista consiga mostrar as características mais fortes que têm. Colocá-los em campo a fazerem coisas que, já antes de serem contratados, não eram as suas valias, ou vê-los a jogarem em posições nas quais o rendimento não é o melhor minará, sempre, aproveitamento que se possa retirar deles. Com dois jogadores que, conjuntamente, custaram €38 milhões, isso foi visível. Tanto no Grémio como na seleção brasileira, Éverton era um extremo com os pés colados à linha lateral, de onde partia e prosperava quando tinha metros para correr embalado com a bola, de frente para os adversários e a baliza; no Benfica, quase sempre foi visto mais pelo centro do campo, a pedir passes entre linhas e ter de receber a bola de costas, com menos tempo e espaço para decidir.

O rendimento de Cebolinha não se tem equiparado ao que mostrou pelo Brasil e o mesmo aconteceu com Pedrinho, outro tipo de atacante — mais de jogadas e tabelas curtas, a ‘precisar’ que outros se aproximem e joguem com ele para sobressair — que não teve pegada na equipa e criticou o trato que Jorge Jesus tem, no treino, com os jogadores. Luca Waldschmidt seria outro caso, mas o próprio alemão admitiria o que muito pesa e tantas vezes não se sabe quando se avalia a prestação dos futebolistas. “Não foi nada fácil em Portugal. O calendário parecia o do futebol inglês, nem no inverno tivemos uma pausa”, reconheceu.

A escolha dos jogadores e do plantel

Olhando à cabeça e sem trazer à baila formas de jogar, o plantel do Benfica esta época é, provavelmente, o melhor de Portugal. Durante algumas semanas, Jesus ainda fez da equipa um pequeno albergue de experimentalismo nas três posições da frente (entre Seferovic, Darwin, Rafa, Everton e Pizzi) até as dinâmicas com bola começarem a fazer sobressair o melhor da vertigem que, salvas as suas diferenças, Rafa e Darwin partilham: com espaço para correrem, são letais a atacarem as costas dos defesas e a baliza. E, assentada a equipa a jogar com três atrás para ser rápida e vertical a usar a bola, a falta de coerência nas opções no plantel para sustentar este estilo de jogo foram-se evidenciando. Porque, além de Rafa e Darwin, o Benfica tinha outros atacantes para garantirem essa forma de atacar; a lesão de Lucas Veríssimo expôs a dependência numa imunidade do brasileiro às lesões, pois Morato é canhoto, Ferro nunca foi confiado, Tomás Araújo não foi aposta e André Almeida é um lateral desabituado ao que implica ser defesa numa linha de três. Depois, com o Benfica a ser cada vez mais uma equipa de esticões na frente e ataques rápidos, João Mário e Weigl foram sendo expostos apesar de todas as valias que têm, como parelha, a gerir a bola, os ritmos e as viagens dos passes — são jogadores de calma e posse, não de vertigem.

À segunda, a entrada direta na Champions

O verão aqueceu conturbadamente com a saída de Luís Filipe Vieira, forçada pelo processo judicial no qual está indiciado por suspeitas de crimes de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação de documentos, branqueamento de capitais e fraude fiscal. Rui Costa assumiu a presidência do Benfica, em julho, antes de vencer as eleições para a exercer, em outubro, quando a equipa já tinha algo valioso. Ultrapassando o Spartak de Moscovo e o PSV de Eindhoven, o clube qualificou-se para a fase de grupos da Liga dos Campeões e garantiu os respetivos €37 milhões de recompensa. No final do derradeiro encontro, Rui Costa foi ao balneário e, abraçado a Jorge Jesus, disse: “Estou extraordinariamente orgulhoso. O que vocês fizeram, guardem para o resto das vossas vidas. Vejam o jogo, o que fizeram é histórico”.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

As mensagens difusas na fase de grupos

A fava calhada ao Benfica foi uma convivência com Bayern de Munique, Barcelona e Dínamo de Kiev, coisa que parecia um imbróglio e se revelou uma oportunidade para oxigenar a equipa com confiança quando a equipa catalã visitou o Estádio da Luz, no final de setembro. A vitória por 3-0 contra o moribundo Barça, que não deixa de ser o Barça, expôs as fortalezas do Benfica em ataque rápido, explorando o que Darwin e Rafa carregam no corpo com metros quando têm relva para sprintarem e a equipa decide/consegue aproximar-se da baliza dos outros de forma vertiginosa. Com a equipa a atacar, foi daí que se viu o melhor do Benfica com bola até ao fim dos seus dias com Jorge Jesus que, após a tal vitória histórica contra o Barcelona, soltou um pedaço da sua personalidade: “História, para mim, não é, não ganhei nada. Históricas são aquelas que permitem que as equipas onde eu trabalho ganhem títulos”.

Mais tarde, porém, quando o adversário já era o Bayern, o treinador optou por polvilhar as suas intervenções em conferências de imprensa (pré e pós-jogos contra os alemães) com coisas do seu pensamento que não sorriem para a confiança dos jogadores, nem quiçá o agrado dos adeptos — como o “não vai ser um jogo de 0-0, tenho quase a certeza que o Bayern faz golos” ou o “sabemos que não é este jogo que nos vai dar o apuramento”.

Quando eu quero, para onde eu quiser, com quem eu quiser

Em novembro, na véspera de cumprir os 600 jogos feitos na primeira divisão do futebol português, Jesus disse: “Agora sou eu a escolher os clubes que quero treinar, não são os clubes que me escolhem (...) Portugal não é o meu único mercado”. A entrevista dada ao jornal “A Bola”, na qual também deixou que “não [é] um bom orador, mas um catedrático do futebol”, pareceu ser uma mensagem não dita, mas camuflada subliminarmente, de que Jesus, pelo menos, acreditava estar dependente mais dele do que de quaisquer outras rodas de vontade quando fosse preciso decidir o fazer à carreira. Quase um mês depois, na véspera de o Benfica jogar com o FC Porto no Estádio do Dragão, o treinador concordou em reunir-se com diretores do Flamengo que estavam em Portugal, publicamente, à procura de um próximo técnico do clube que decidiram ter de ser português. O encontro soube-se pela comunicação social e, por estar suspenso pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, teve de ser o adjunto João de Deus a confirmar o rendez-vous para, só depois, o Benfica se pronunciar oficialmente em comunicado, para desmentir o noticiado por um canal de televisão. Isto são factos. Não se sabe se apenas a eles se devem o berbicacho que se noticiou ter acontecido com Pizzi entre portas e as desavenças com outros jogadores da equipa, e se foram as únicas coisas a precipitarem a saída de técnico, mas quem cortejou a hipótese de ter outro posto de trabalho pós-Benfica, tão perto de uma partida decisiva da época, foi Jorge Jesus.

As derrotas com os rivais

É algo redutor, de confrontos diretos não se faz, nem se resume, a capacidade de um treinador, mas avaliar a prestação contra adversários, em teoria, nos mesmos degraus de competitividade ajuda a situar onde está uma equipa. Em ano e meio de segunda vida no Benfica, o treinador apenas venceu um de sete jogos feitos contra os rivais diretos. A única vitória foi contra o Sporting, no final do campeonato passado, quando o título já estava com os leões — vitória por 4-3, na Luz, na provável melhor partida da anterior edição da prova. De resto, o Benfica foi derrotado (1-0) pelo Sporting e pelo FC Porto (2-0) na Supertaça, antes de dois empates contra os dragões. Esta temporada, perder em casa (1-3) contra a superioridade coletiva de um Sporting a jogar sem Palhinha e Coates, sendo depois batido (3-0) por uma avalanche de pressão, duelos perdidos e buracos abertos por todo o campo para o FC Porto, na Taça de Portugal, confirmou mais ainda a inferioridade que Jorge Jesus não logrou resolver quando coincidia em campo com as equipas trabalhadas pela coerência de Rúben Amorim e de Sérgio Conceição.

Nas 49 jornadas do campeonato que disputou durante esta época e meia, Jorge Jesus colocou o Benfica no 1.º lugar apenas em nove: três na época passada e seis já esta temporada.