Perfil

A casa às costas

“Em Angola, quando vi o corpo inchado do miúdo a emergir das águas da chuva, isso destruiu-me. Fui pedir ao presidente para me vir embora”

Fredy, de 32 anos, cresceu em bairros sociais, onde o futebol era um ótimo cartão de visita para fazer amizades. Começou a jogar cedo nos Pescadores da Costa da Caparica, primeiro à baliza, apesar de ser baixinho. Depressa reconheceram-lhe outras capacidades e mandaram-no lá para a frente, onde acabou por fazer carreira. A formação foi toda feita no Belenenses, onde era chamado de “menino” por Jorge Jesus. Esteve com um pé no Benfica, mas uma lesão deitou-lhe momentaneamente os sonhos por terra. Representou as camadas jovens da seleção portuguesa, antes de voar para Angola, a terra que o viu nascer, onde presenciou episódios que o marcaram e “obrigaram” a regressar ao Belenenses, antes de voltar novamente a África

Alexandra Simões de Abreu

Carlos Rodrigues

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Nasceu em Luanda, Angola. Filho de quem?
A minha mãe, Francisca Clara, estava grávida e foi para Angola para eu nascer lá, porque todos os filhos dela tinham nascido em Angola. Ela é angolana e o meu pai é português.

Como se conheceram eles?
O meu pai, Alfredo Ribeiro, foi para Angola muito cedo e ficou lá muitos anos. O meu pai era muito próximo do antigo presidente, Agostinho Neto. Na altura do 25 de Abril ele era diretor financeiro de uma empresa de cortiça, não quis regressar a Portugal e foi para o Kuanza Sul e foi lá que conheceu a minha mãe, que trabalhou para ele durante uns anos. Ficaram juntos até ele falecer.

Sempre em Angola?
Não. Eles estiveram uns oito, nove anos lá, o meu irmão mais velho veio para cá com 10 anos, eu tinha nascido nessa altura, mas antes de eu fazer um ano eles já cá estavam. A minha mãe continua a ir regularmente a Angola, mas o meu pai nunca mais voltou. Depois também começou a ter alguns problemas de saúde.

Quantos anos tinha quando o seu pai faleceu?
Sete, ia fazer oito.

Deve ter sido um grande choque.
Foi. Eu tinha uma ligação forte com o meu pai, foi um pouco complicado. E de repente teres uma mãe que tem de cuidar de seis crianças, foi difícil. Tenho um irmão mais velho que não é filho do meu pai, ficou em Angola até mais tarde, só conseguiu vir depois, já com mais de vinte anos. Filhos do mesmo pai e mãe somos quatro, dois rapazes e duas raparigas. Depois há outro casal, da parte da minha mãe, que ela já tinha quando conheceu o meu pai.

O seu pai faleceu como?
Teve cancro na próstata. Lembro-me do último dia em que estive com ele. Quando viemos para Portugal fomos viver para o bairro social da Mata, na Costa da Caparica. Vivíamos numa barraca de madeira e houve um dia em que o meu pai bateu com o sobrolho num prego, na casa de banho, e abriu o sobrolho. Teve de ir para o hospital, teoricamente porque tinha aberto o sobrolho. Mas passados alguns dias ou uma semana acabou por falecer. Eu não sabia o que era cancro. Ligaram lá para casa e deram a notícia à minha irmã mais velha. Não me recordo da minha reação, apenas que foi um espanto. Recordo-me de ter chorado anos depois, quando comecei a crescer e a sentir mais a falta.

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