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O presumível adeus de Serena Williams, da forma mais Serena possível, numa luta de mais de três horas em court

A norte-americana de 40 anos perdeu 7-5, 6-7 e 6-1 com a australiana Ajla Tomljanovic, deixando o US Open na 3.ª ronda, naquele que poderá muito bem ter sido o seu adeus definitivo ao ténis. Mas não foi embora sem dar luta e as últimas três horas de Williams em court não poderiam ter sido mais paradigmáticas, com altos, baixos, quebras e uma coragem rugosa até ao fim. Vinte e três títulos do Grand Slam depois, Williams diz agora é tempo de “explorar uma versão diferente do que é ser Serena”. Sem nunca fechar definitivamente portas ao que quer que seja

Lídia Paralta Gomes

JASON SZENES/EPA

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Serena não se vai retirar. Ela própria o disse. Quando em inícios de agosto anunciou o adeus de forma epistolar por entre o glamour da revista “Vogue”, a norte-americana falou de “evolução” e não de retirada. Depois do ténis, a sua vida evoluirá para outra coisa qualquer, se calhar com ténis dentro dela, se calhar não.

Ela quer ser mãe e viver a vida das pessoas normais, aos 40 anos ainda é nova no grande esquema das coisas. Mas não para o desporto. Ainda assim, é difícil dizer que o jogo da 3.ª ronda do US Open, no mesmo torneio e no mesmo estádio onde se estreou a levantar a taça de um major pela primeira vez, em 1999, repetindo o gesto outras 22 vezes, foi o último da carreira de Serena Jameka Williams, nascida no Michigan, criada nas difíceis ruas de Compton, subúrbio bera de Los Angeles, casa de rappers e de outros desportistas, e feita tenista na Flórida, para onde a família se mudou para que ela e a irmã Venus pudessem treinar para serem aquilo em que se vieram a tornar: ícones, as atletas que mudaram tudo dentro daquelas linhas desenhadas nos courts de piso rápido, relva ou terra batida.

A abertura da sessão noturna do Arthur Ashe Stadium, prime time televisivo do outro lado do Atlântico, foi esta semana, dia sim, dia não, o possível palco do adeus de Serena. E ela foi fintando o que parecia inevitável, uma saída prematura e sem glória à medida do que têm sido as últimas duas temporadas, massacradas com lesões e de queda abrupta nos rankings. Depois de um regresso em Wimbledon este ano em que saiu logo à 1.ª ronda, Serena anunciou a retirada no final do ano, presumivelmente após o US Open, e daí até chegar a Nova Iorque passou pelos torneios de Toronto e Cincinnati, onde o seu corpo parecia já pedir essa reforma, não respondendo aos pedidos da atleta, deixando-a lenta, fora de ritmo.

Mas Serena nunca diria adeus sem lutar.


CJ GUNTHER/EPA

Quando já todos lhe preparavam as homenagens, exéquias à carreira e as festas de despedida, a atleta que passou 319 semanas no topo do ranking mundial e que tem mais títulos do Grand Slam que Rafael Nadal, Novak Djokovic ou Roger Federer, arreganhou os dentes, fechou o punho e foi adiando o destino. Na 1.ª ronda bateu Danka Kovinic e a seguir a 2.ª favorita do torneio, Anett Kontaveit. A última dança era afinal um longo bailado e o que mais viria por aí?

Não viria muito mais, mas de novo Serena Williams foi ao combate, dizendo adeus a Nova Iorque da maneira mais Serena possível, com um duro duelo de mais de três horas com Ajla Tomljanovic, croata tornada australiana, uma dessas tenistas que cresceu a ver a norte-americana dominar, tentando moldar o seu jogo ao dela.

Foi um jogo em que se viu Serena no seu estado mais puro, para o bem e para o mal. Viu-se-lhe o nervosismo, a angústia, o loop mental de quem tantas vezes baqueou inesperadamente, algumas delas ali mesmo naquele estádio, onde viveu as maiores alegrias e as mais terríveis desilusões da carreira. Mas também a garra de quem tem a vida desportiva marcada por reviravoltas loucas, de quem guerreou tantas vezes contra o seu próprio físico, de quem esbracejou até ao derradeiro segundo para se manter de nariz fora da água.

Com o público nova-iorquino do seu lado, algo que nem sempre aconteceu em 27 anos de carreira, Williams desperdiçou uma vantagem importante no 1.º set, permitindo a Tomljanovic fechá-lo em 7-5, e no 2.º set quase repetia a pintura, conseguindo, no entanto, levar o encontro para um decisivo terceiro parcial depois de um tie-break. Perante uma adversária poderosa, habituada a ambientes explosivos e adversos, Serena mostrava a velocidade e fluidez que pareciam já a ter abandonado definitivamente, mas um terceiro set foi demasiado para as energias que ainda restavam no tanque. Quebrou Tomljanovic no primeiro jogo, mas a partir daí a australiana fez o que quis. A derradeira prova de vida de Serena aconteceu ao salvar cinco match points da adversária - ela nunca iria embora sem se esgatanhar até ao fim por uma réstia de esperança, por um último sopro.

Uma “viagem divertida”

Há um espectro largo de emoções em Serena, capaz dos olhares mais graníticos ou das lágrimas mais robustas. E foi de olhos marejados, com um nó na garganta, que a norte-americana se endereçou por uma suposta última vez ao Arthur Ashe Stadium. Tudo começou com os pais, disse, as primeiras palavras foram para Richard e Oracene, ela presente, ele não, mas com direito a mensagem personalizada. Para a irmã Venus também palavras sentidas, num dos momentos em que os sons tiveram mais dificuldade a passar nos intervalos desses nós na garganta. “Sem Venus não haveria Serena Williams”, disse.

“Tem sido uma viagem divertida. A mais incrível viagem que tive na vida. Estou muito agradecida a cada uma das pessoas que disse ‘Vai Serena’ algures na sua vida. Aqui me têm vocês”, atirou.


Mais tarde, em conferência de imprensa, Serena voltou a sublinhar que agora é tempo para “ser mãe e explorar uma versão diferente do ser Serena”. É um presumível adeus, e aqui presumível tem muita força, porque da boca da lendária tenista nunca surgiu um definitivo adeus. Na verdade, as portas até ficaram abertas e os últimos jogos em Flushing Meadows mostram que ainda há competitividade nos braços, pernas e cabeça de Williams.

“É claro para mim que ainda sou capaz, mas é preciso mais do que isso”, sublinhou, aludindo à vida que ainda quer aproveitar enquanto por cá andar. Porém, quando questionada sobre o próximo torneio do Grand Slam do calendário, a resposta foi vaga, talvez intencionalmente vaga, para deixar a provocação no ar: “Não sei, não estou a pensar jogar de novo. Mas eu sempre adorei a Austrália”. Foi lá que venceu o seu 23.º e último torneio do Grand Slam, em 2017, numa final contra a irmã Venus e já grávida da filha Olympia.

Para já, há um único plano: “Acho que vou para um karaoke amanhã”, disse na conferência de imprensa após o jogo. Mas talvez seja prudente acreditar que esta foi a última vez que vimos Serena Williams disputar um encontro profissional de ténis. E o seu adeus reuniu nas homenagens gente como Oprah Winfrey, Michelle Obama, Tiger Woods, LeBron James e vários colegas de profissão, tantos deles influenciados e marcados de forma indelével por uma das mais importantes atletas da história do desporto, não do desporto específico que é o ténis, mas do desporto com letra grande.