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Daria Kasatkina, melhor tenista russa da atualidade, fala sobre as dificuldades em ser gay no seu país e pede o fim da guerra com a Ucrânia

Numa conversa com um blogger russo, que decorreu em Barcelona, a número 12 do ranking WTA falou abertamente das leis russas que limitam os direitos da comunidade LGBTI+ e assumiu-se assustada com a ideia de nunca vir a poder dar a mão à namorada no seu país. Kasatkina criticou ainda a invasão à Ucrânia e diz que o que se passa no território vizinho é um “completo pesadelo”

Expresso

Robert Prange/Getty

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Daria Kasatkina, tenista russa de 25 anos, é abertamente bissexual, publica fotografias com a namorada, a patinadora artística Natalia Zabiiako, mas não se conforma com as políticas do seu país em relação aos direitos LGBTQ+.

Em conversa com o blogger russo Vitya Kravchenko, a tenista falou abertamente contra atitudes homofóbicas comuns no seu país. “Tantos temas são tabu na Rússia. Esta ideia de alguém querer ser gay ou tornar-se [gay] é ridícula. Penso que não há nada mais fácil no mundo do que ser-se heterossexual”, disse Kasatkina, que acrescentou: “A sério, se houvesse uma escolha, ninguém iria optar por ser gay. Porquê tornar a vida mais difícil, especialmente na Rússia?”.

O jornal inglês “The Guardian” refere a lei da “propaganda gay”, aprovada em 2013, no parlamento russo, que tem sido usada para proibir as marchas gay e impedir os ativistas dos direitos LGBTQ+ de se manifestarem. Atualmente, são vários os legisladores russos que tentam expandir ainda mais o alcance da lei, banindo a “promoção” das relações homossexuais entre adultos e também entre menores, chegando ao ponto de restringir a presença de conteúdos LGBTQ+ nos cinemas.

Em Barcelona, onde treina, Kasatkina declarou-se assustada com a ideia de nunca vir a poder dar a mão à namorada na Rússia. A número 12 do ranking WTA admitiu que era impossível “viver dentro do armário”. “É demasiado duro, não faz sentido. Viver em paz contigo é a única coisa que interessa, que se lixem todos os outros”, disse a tenista.

Daria não hesitou em referir a compatriota Nadya Karpova, futebolista, como grande inspiração. “A Nadya não se ajudou apenas a si própria ao assumir-se (…), ela ajudou outros”, declarou a desportista. “Penso que é importante que pessoas influentes do desporto, ou de qualquer outra área, falem sobre isso. É importante para os jovens que passam um mau bocado (…) e precisam de apoio”, disse a semifinalista de Roland-Garros 2022.

Sempre muito crítica da situação política e social da Rússia, Kasatkina aproveitou a entrevista para pedir o fim do conflito na Ucrânia. Questionada sobre o que mais quer na vida, a tenista respondeu: “Que a guerra acabe”. A atleta chama ao que se passa em território ucraniano um “completo pesadelo”. No final, quando lhe perguntaram se ela teme não poder regressar à Rússia após a entrevista, Daria confirmou esse receio e depois de um momento de silêncio não conseguiu evitar as lágrimas.