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Ash Barty reencontrou-se no golfe: “Tem sido incrível, tudo o que eu sempre quis. É muito raro ver ténis”

A australiana não mostra qualquer arrependimento por ter deixado a modalidade que fez dela uma estrela. Poucas horas depois de Elena Rybakina lhe ter sucedido como vencedora de singulares em Wimbledon, Barty admite que nem sequer assistiu à partida. Mas joga golfe, escreve livros e diverte-se com os amigos

Carlos Luís Ramalhão

Mike Stobe/Getty

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Poucas horas depois de Elena Rybakina ter vencido o torneio de singulares de Wimbledon, sucedendo-lhe, Ash Barty, antiga número um do mundo, admite que nem sequer viu a final de um dos mais importantes eventos da modalidade que fez dela uma estrela. “Desculpem se vos desiludo. Obviamente fiquei feliz pela Ons [Jabeur] e pela Elena, ambas raparigas brilhantes. E foi também fantástico ver o Nick [Kyrgios], que conheço há mais de 12 anos, chegar à final”, disse Barty, em entrevista ao "The Guardian".

“Desde que me retirei, provavelmente assisti a tantos jogos como quando jogava, ou seja, quase nenhum. Ocasionalmente, tenho-os como barulho de fundo, mas é muito raro sentar-me e ver uma partida do início ao fim com interesse. Bati bolas de ténis suficientes na minha vida. Não preciso de ver os outros a batê-las”, respondeu a ex-tenista de 26 anos, num estilo descontraído que não perdeu.

Na sua primeira grande entrevista desde que deixou o ténis, no ponto mais alto da carreira, com apenas 25 anos, Ash deixa claro que não vai voltar atrás. Principalmente quando reencontrou a alegria noutra modalidade, que também implica bater bolas e, tal como em Wimbledon, é jogada na relva: o golfe. “Não me arrependo de me ter retirado. De todo. Eu sabia que era a altura certa para mim. Era o que eu queria fazer. E sei que muita gente pode não o compreender, mas espero que o respeitem no sentido de que a decisão era minha. E sim, tem sido incrível. Tudo o que eu sempre quis”, disse Barty.

Desportivamente, a australiana tem feito tanto sucesso na nova modalidade que há já quem lhe augure uma nova carreira profissional. Seria a terceira a ser abraçada pela mulher que já passou pelo críquete e ténis. Ashley deixa claro que isso não vai acontecer: “O golfe é um passatempo e vai sempre ser”.

“Eu sei o que custa chegar ao topo de qualquer desporto. Não tenho o desejo de fazer o que é exigido. Honestamente, jogo golfe pela diversão e para passear ao lado de pessoas que amo. Não me preocupa se consigo um 70 ou um 100”, fez questão de dizer quem, apesar de tudo, já venceu um torneio, em Brisbane. A referência fá-la rir. “A internet passou-se com isso. (…) Eu jogo essa prova todas as semanas. Não ganho sempre e, quando ganho, é uma raridade”, explicou.

O amor de Ash pelo golfe é evidente. A australiana esteve algum tempo a ver Tiger Woods e Justin Thomas a treinar, absorvendo a forma como outras lendas se preparam: “É incrível ver esses dois a fazerem as suas coisas. Adoro ver como outros atletas profissionais se preparam e praticam, como eles entendem o seu jogo e as áreas em que trabalham mais”. A jovem admite que não falou com as duas estrelas do golfe. “Não, não, não. Fiquei fora do caminho para lhes dar o espaço de que precisam”, disse.

Andy Cheung/Getty

Quando se retirou, depois de ter juntado a Wimbledon 2021 e Roland Garros 2019 o 'seu' Open da Austrália, já em 2022, Ash Barty chocou o mundo.

A então tenista dominava a modalidade, era número um do ranking WTA há 114 semanas consecutivas, superada apenas por Steffi Graff, Serena Williams e Martina Navratilova. Barty garante que, nessa altura como agora, nunca deixou de ser sociável: “Sou apenas uma pessoa normal a quem as pessoas podem dizer ‘bom dia’ e com quem podem conversar”.

Do ténis, Ash tem saudades de estar com os amigos. “Passávamos tanto tempo juntos e, de repente, estou a viver num canto diferente do mundo. Mas a ‘reforma’ tem sido uma transição calma. Em vez de passar algumas horas no court todos os dias, arranjo outras rotinas. E porque eu já sabia o que viria há algum tempo, não foi preciso adaptar-me muito”, conta ao “The Guardian”.

Quanto ao futuro do ténis, a australiana considera que está em boas mãos, especialmente as de Iga Swiatek, a número um do mundo, que, apesar da participação menos conseguida em Wimbledon, lidera uma nova geração. “Iga é um talento incrível, um ser humano excecional e uma rapariga adorável. Adoro-a e à equipa dela, não poderia estar mais orgulhosa por ela ter chegado à posição número um, porque ela pratica o desporto da forma certa e tem muita energia e carisma”, opinou Barty.

Ao longo dos últimos meses, Ashley tem dividido o golfe, as viagens e os passeios ao lado dos amigos com um projeto desafiante: uma série de livros ilustrados para crianças. “Little Ash” é sobre escola, desporto, amizade e família. Para além disso, vem a caminho um livro de memórias chamado “My Dream Time”. Nos EUA, Ashley também jogou golfe com Michael Phelps. “Estou a ter a oportunidade de viver sonhos de criança e não podia estar mais grata”, conclui a sorridente Barty.