Perfil

Sporting

O futebol (moderno) é isto

Um golo de Kane já depois da hora prometeu a reviravolta dos londrinos, mas o VAR vislumbrou um fora de jogo do avançado e o Sporting, que teve duas faces em Londres, agarrou o ponto precioso que deixa tudo em aberto no Grupo D

Hugo Tavares da Silva

Shaun Botterill

Partilhar

A bola entrou, no último suspiro do último suspiro do jogo, e as gentes no estádio que já não é o White Hart Lane berraram de alegria. O árbitro pediu para todos, testemunhas e protagonistas, aguardarem. Seguiram-se uns poucos minutos de uma terrível angustia. De parte a parte. É que o Sporting, fortemente massacrado e pressionado na segunda parte, não merecia perder (seja lá o que isso significa, é uma coisa que se diz). E o Tottenham, controlado e esvaziado na primeira parte, ansiava por se apropriar do último suspiro do último suspiro, transformando-o numa também justa alegria tardia.

O tempo ia passando. O golo estava a ser analisado. A realização, depois da festa, apontou para Pedro Porro. Não é inocente. O espanhol esbanjou uma posse de bola 30 segundos antes, o remate de longe, improvável, era quem sabe irresistível para um homem cansado e carregado de honra pela forma como desempenhou a profissão. Os jogadores rodeavam o árbitro. O novo título da crónica ja ia sendo magicado. “Ahh, futebol e o jogo que dá sovas sem consciência”. Talvez não fosse isso, sabe-se lá, era um mero desespero de última hora para criar um afastamento da dor que os portugueses estariam a sentir.

O apito e o braço no ar indicavam que era afinal fora de jogo. Depois de Perisic cruzar e Emerson tocar para dentro, numa bola que resvalou no azarado Nazinho (já lá vamos), o pé de Harry Kane estava adiantado. “O futebol é isto”, o famoso chavão, transforma-se num “o futebol moderno é isto”. Tudo em suspenso por uma decisão tecnológica. Qualquer dia há drones a pairar em cima da cabeça dos jogadores para darem outra perspetiva do jogo. Antonio Conte, desvairado, foi para a rua. Enfim, depois de vencer os londrinos em Alvalade, o Sporting voltou a travar o poderoso Tottenham, mantendo tudo em aberto no Grupo D (o Eintracht venceu o Marselha).

Os lisboetas jogaram esta noite como se não tivessem memória, pelo menos durante 45 minutos, e esse é talvez um dos segredos mais bem guardados do mundo do desporto. E mais difíceis de revelar, é certo, por razões óbvias. O que se passou com o Marselha, em dose dupla, parecia nunca ter existido. Então, em pleno relvado do Tottenham, entraram em ação futebolistas como Ugarte, Paulinho e sobretudo Marcus Edwards a garantir um Sporting corajoso. E os outros todos, sejamos rigorosos. Mas ninguém temeu ou tremeu. As recuperações de bola no meio-campo alheio denunciavam a ousadia do plano de jogo.

Julian Finney

Sebastián Coates foi o primeiro a tentar a sorte, após canto. Perto do intervalo, sem qualquer pudor, o uruguaio meteu a bola na baliza de Hugo Lloris… com a mão. Ou seja, fê-lo perante ingleses. Com a mão. Quanta ironia benedettiana deste bom defesa, olvidando traumas de mil nove e oitenta e seis. Ele e os colegas estavam descomplexados, aceitavam partilhar a bola, despachá-la sem mais nem menos não era opção (seria assim na segunda parte). Morita, embora mexido, parecia ter menos liberdade do que no jogo com o Casa Pia. É que do outro lado havia gente como Bentancur e Hojbjerg, superados pelos que jogavam de preto esta noite, e depois à frente os ameaçadores Son, Lucas Moura e Harry Kane.

Paulinho ia funcionando como escape. Às vezes os avançados têm um papel meramente útil, de manter a bola jogável, de dar vida à jogada. Também é uma arte, muitas vezes incompreendida. Foi de Paulinho a melhor chance, após cruzamento do super competitivo Porro, na primeira parte até ao golaço de Marcus Edwards. O tal rapaz daquela casa londrina que recebeu a tal comparação com os inícios de Messi, que jogou 15 minutos num Tottenham 5-0 Gillingham, recebeu a bola depois de um maravilhoso passe de Ugarte (excelente jogo, faz tudo). Uma parede com Paulinho desbloqueou o enigma. Evitou uma pancada de Hojbjerg. Levou a bola para a frente. O corpo comentou que ia passar para o lado. Ele mudou de ideias. E bateu na baliza de Hugo Lloris. Golaço.

A reação dos spurs, que não podiam contar com Richarlison e Kulusevski, desenrolou-se meramente nos olhos. O Sporting tomou conta da bola, pelo menos deu essa sensação nos momentos seguintes, parecia maior do que o rival de longe, mais seguro e convicto do que havia para fazer. Ouviam-se alguns assobios dos adeptos de branco. E o tom não mudou com as ameaças de Son, numa altura em que Kane, quem sabe agoniado pela falta de ideias dos colegas, começava a baixar no terreno.

A segunda parte foi completamente diferente, não só pela reação esperada do rival, mas também pelo cansaço que entraria nas pernas, admitira Rúben Amorim no final. Bentancur, o belíssimo médio uruguaio, começou a tocar mais na bola. Foi ele que magicou uma jogada pela esquerda, numa arrancada fenómeniana pelo meio dos defesas, criando uma tripla oportunidade. Adán e Coates bloquearam o mundo e o outro. A chama do leão ia apagando. Kane e Son começavam a combinar como sempre fazem, de memória. Gonçalo Inácio, Matheus Reis e Coates ia contrariando o jogo de cruzamentos do outro lado. Porro festejava cortes.

A partir do minuto 61, o Sporting foi ainda mais Sporting: Nuno Santos e o tocado Morita saíram por Nazinho (19 anos) e Mateus Fernandes (18), que logo cresceu para Romero, um colossal prédio no corpo de um homem. Paulinho pareceu ter-lhe dado logo uma indicação quanto a posicionamento, como que dizendo que ele é que definia a pressão.

O Sporting ia baixando. E os ingleses acreditavam cada vez mais, parecia uma questão de tempo. Adán parou um remate de Doherty. Arthur Gomes entrou por Trincão e Fatawu (18) por Marcus Edwards, que deixou uma bela marca na casa onde chegou bem garoto. Dier era quem mais ameaçava a felicidade leonina. Rúben Amorim enviou sinal à equipa: Jeremiah St.Juste por Paulinho. Os atrevidos na frente, Arthur, Fatawu e Nazinho, inventaram uma ou outra jogada. O menino, o último, não conseguiu concretizar duas finalizações tão venenosas como o mais indigno veneno, a segunda bola então era um golo cantado. Atirou ao lado. Talvez a baliza tenha encolhido. Quem pode condenar?

Clive Rose

Mas a resistência do Sporting cedeu. Bentancur ganhou a Adán, na pequena área, após canto (na imagem em cima). Os portugueses imploraram por uma falta. Nada. Um-um e o sufoco que já se imaginava pela frente. O estádio, ou as suas gentes vá, grunhia. A juventude de preto ia revelando aquela ansiedade tão típica e normal, aliviando ou tentando aliviar para qualquer lado, precipitadamente. A pressão era muita. Jogava-se muita coisa esta noite. Estar dentro da Liga dos Campeões, estar fora da Liga dos Campeões. Dier voltou a aparecer mais duas vezes perante Adán e só um milagre não permitiu que imitasse a brincadeira de Edwards (marcar à equipa que o formou).

Depois, deu-se o tal último suspiro do último suspiro. E quem estava no inferno foi puxado para o cheirinho a lavanda que se espreguiça entre as nuvens. Jogar sem memória, ser melhor, marcar, cair, ser pior, sofrer, resistir. O guião do jogo foi como um abraço ao orgulho do grupo. E o carrossel continua. Para a semana há mais.