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Um Petit grande problema

Depois de uma história vitória para a Champions, o Sporting foi ao Bessa ser derrotado (2-1) pelo Boavista que, à sétima jornada, ficou com 15 pontos, mais do que tinha na mesma altura da época em que foi campeão nacional. A equipa de Petit fechou caminhos ao centro e desequilibrou pelos dois talentosos extremos que tem enquanto a de Rúben Amorim reagiu tarde às dificuldades. Os leões somaram a terceira derrota no campeonato e ficam, pelo menos, a oito pontos da liderança

Diogo Pombo

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

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Como se vê, na prática, um treinador ciente da crueza do desequilíbrio per capita que há na sua equipa face aos jogadores do adversário que colocou a cabeça à obra para magicar uma forma de feitiçar um feitiço contra o feiticeiro, usando uma valia da outra equipa para a apanhar na curva? Longe de ser universal, a resposta farejará o Boavista esculpido por Petit que já terá usado horas de vida a analisar como a linha defensiva do Sporting tem o hábito de se comportar que nem um corpo só perante vários gatilhos que aconteçam num jogo.

É ato rebatido enaltecer a coesão da última linha trabalhada por Rúben Amorim a reagir a ações que deteta na outra equipa, pode ser um passe para trás já no seu meio-campo ou um dos centrais a ter de sair na dobra a um ala, tudo tem a ver em controlar o espaço em função de onde está a bola. E outro desses sinais pode ser um extremo que, perto da área, tenha uma receção ou oriente o corpo para trás - a linha defensiva sobe, encurtando os espaços a quem ataca. Mas, por duas vezes, o descarado propósito de uma intenção morou em Kenji Gorré.

Destro a jogar na esquerda e forjado, em miúdo, no Manchester United, cruzou então a bola, com efeito de fora para dentro, para Bozenik receber, rodar e rematar à figura (12’) ao primeiro ato e, depois, Bruno Lourenço entrar quase até à pequena área e bater a bola à barra (28’) da baliza. Nessa segunda ocasião se viu a flagrância de uma intenção de apanhar a defesa do Sporting em contrapé e ter sido o extremo de Curação curvar essas duas bolas para a área não é uma coincidência inocente.

Esse par de intervenções ainda se viu quando o Sporting abusava das costas dos médios do Boavista, com Ugarte e Morita a ligarem passes aos três da frente nesse faroeste esvaziado para dali congeminarem jogadas entre eles, várias incursões na área surgiram e uma até deu em golo anulado por fora-de-jogo. O Sporting passeava com a bola de um lado ao outro do campo, mas, no equador da primeira parte, a equipa de Petit corrigiu posicionamentos ao centro e entregou todas as transições ao objetivo de lançar corridas de Gorré.

E, quase sempre perante o desafortunado Gonçalo Inácio, o extremo com estilo de finta veloz, muitas trocas de direção e simulações de finta (para fixar os apoios de quem o defende) pôs o Boavista a reboque e fez do jogo do central do Sporting uma via-sacra de lances em que era passivo, deixava espaço a mais para o adversário ou tinha uma postura corporal desajustada perante Gorré. Na sequência de uma jogada em que foi ultrapassado, o canhoto Bruno Lourenço bateu na bola a meia altura (45’+2) e fê-la entrar por onde se diz que pernoite uma certa espécie de ave no futebol.

Para o domínio na bola e, de facto, o controlo territorial, o Sporting apenas enviaria uma bola à barra num canto (39’), ajeitada por Trincão. Retornaria ao campo a ter de perseguir uma desvantagem que mirou, sobretudo, por fora do bloco que o Boavista mantinha coeso ao centro, agora a limitar as ligações entre os médios e Pote, Edwards (sobretudo estes) e Trincão.

DeFodi Images

Tentando atrair por dentro para depois explorar os alas, assim os leões forçaram o que Nuno Santos, à esquerda, teve engenho para desencantar. Chegado ao Sporting como extremo e hoje muito mais ala, o canhoto especializado em dirigir bolas para a área e cada vez menos em ultrapassar adversários via drible teve, perante Pedro Malheiro, uma simulação de arte: fingiu que ia cruzar, parou a bola e deixou-se para trás, picou-a ‘de letra’ e acertou em cheio na cabeça de Marcus Edwards, que nem saltou (55’) para empatar o jogo - e atirá-lo para uma espécie de redoma.

Porque o Sporting manteve-se quase na mesma, a forçar-se em querer levar as jogadas para os três da vida airada da frente terem receções entre linhas e sem que tivesse sucesso aí, onde Pedro Gonçalves minguava, Trincão parecia só tomar uma decisão se executasse um inofensivo drible pela estética e Edwards era limitado a toques longe da área. Perante esta inoperância a ir contra o sucesso do Boavista a cerrar espaços, a partida entrou numa letargia acentuada após o esgotamento das pilhas de Gorré (saiu aos 68’) que depositou a produção de invenções em Bruno Lourenço, o extremo do lado oposto.

O canhoto de outro estilo - mais de bola colada ao pé para atrair adversários e ludibriá-los, sem correrias frenéticas que centralizem nele uma transição ofensiva - foi ganhando segundos para a equipa respirar e dele saiu o cruzamento que o miúdo Martim Tavares recebeu, de peito e na área, para trás, obrigando-se a ir em esforço à bola para a proteger de costas voltadas para a baliza. Mesmo assim, Ricardo Esgaio esticou o pé e tocou no do jovem avançado do Boavista. E assim houve penálti para Bruno Lourenço, calmo e composto, bater (83’) com classe.

Aí se acentuou a correria e o desvario, há muito antes do golo que o Sporting batia contra a própria desinspiração para tentar avistar baliza por outros caminhos, algo já vista contra o Desportivo de Chaves, há umas semanas. Paulinho apenas entrara a 15 minutos do fim, quando Nuno Santos também saiu o fintador Arthur Gomes cair em cima de um aparentemente fatigado Malheiro e não houve Coates para habitual plano de recurso (saíra lesionado, aos 71’). Por isso, e pela competência do Boavista de Petit na cobertura de espaços e condicionamento da forma de atacar do adversário, o Sporting não criaria oportunidades para sair do Bessa sem a terceira derrota no campeonato.

Cinco dias feitos desde a vitória contra o Tottenham, para a Liga dos Campeões, a equipa de Rúben Amorim perde no relvado de um Boavista que, há meses, fazia pela vida para inscrever jogadores e dar a Petit uma equipa competitiva, mas soma 15 pontos à sétima jornada, mais do que amealhava em 2000/01, quando Armando Teixeira ainda em modo futebolista estava entre os axadrezados que virariam campeões nacionais. A sua versão treinador, uma vez mais, mostrou o quão descabida é a etiqueta que lhe chegou a ser colada de ser um produtor de equipas de marcha atrás, retranca e só preocupadas em defender.

Uma prova dada com Kenji Gorré de um lado e Bruno Lourenço do outro, com quem a vida ficará facilitada para qualquer treinador.