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O Sporting e a sua ode à execução da previsibilidade

Foram uns primeiros 25 minutos de letargia e remates à figura até o primeiro movimento descaradamente do Sporting à la Rúben Amorim ser ligado com sucesso. Depois, a equipa encarrilou muitos outros, teve um Pedro Gonçalves a ser eficaz como há duas e ganhou (3-0) ao Rio Ave jogando como, no fundo, tenta jogar sempre

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Retiremos do tempero os nervos do momento, os bichos da dúvida que surgem inopinados. Olhemos para os 2,44 metros de altura e os 7,32 metros de comprimento de uma baliza de futebol e, perante tamanha dimensão, roça o inexplicável vermos uma bola rematava que vá desde a largada até à chegada ao alvo sempre com direção trancada às mãos do guarda-redes, de um corpo, de umas mãos, refiro-me a manápulas com reincidência para nos fixarmos nas bolas que pedem apenas que elas sejam abertas para agarrar a correspondência.

A lei da atração dos corpos não o explica apesar das forças gravitacionais a conspirarem que determinam cada viagem, Galileu, Kepler ou Newton nunca foram contemporâneos do futebol embora por certo tenham sido do falar-de-cor que levam ao visto-de-fora-é-fácil. É um conforto criticar da poltrona o remate que Marcus Edwards, nas beiças da área, bate rasteiro e docilmente (6’) às mãos do guarda-redes, como o é culpar Ugarte por se deixar levar pelo encantamento de um roubo em zona alta do campo e logo pontapear a bola, mais ou menos do mesmo sítio, com estrondo (21’) mas direitinho a Jhonatan Luiz.

Ambas à figura e assim se duplica o uso de uma expressão cliché, são dois remates inofensivamente certeiros no corpo por diante do retângulo obeso de espaço e fácil seria fixarmos os primeiros 20 e poucos minutos do Sporting neste resumo, justificação haveria por terem sido melhores momentos de uma equipa lenta de processos, previsível nas intenções e repetente nos movimentos que demonstrou a época passada - os extremos a esperarem dentro para correrem nas costas do lateral quando o ala recebe a bola, a dependências nos alas para acelerar jogadas, a intenção em sempre explorar a profundidade. O Rio Ave só recebia o que esperava.

Mas o previsível não é um fim em si mesmo, jamais, quando Pote a fazer as vezes de Paulinho foge dos centrais para lá da linha do meio-campo, dando-se a receber o primeiro passe de uma transição enquanto os dois extremos fogem para o espaço nas costas da linha defensiva adversária, antes de ele logo lançar a corrida de Marcus Edwards já sabíamos que o inglês chegaria à bola, faltando saber o seguinte: o inglês, à direita, pendeu para o meio, enganou dois adversários e, quando rematou (24’), a bola sobrevoou a baliza.

A previsibilidade, se executada sem erros, faz proliferar os seus resultados. As maquinetas que nos rodeiam a vida provam-no.

A fluidez da jogada pareceu desengatar o Sporting, no par de minutos seguintes houve um estrondo de Pedro Porro a rasar um dos postes e um remate arqueado, da quinta da área, de Francisco Trincão que foi embater na barra da baliza, quiçá prova redonda para uma teoria de desatração dos corpos. Havia 25 minutos e o Rio Ave que em Alvalade, por vezes, jogava como há meses jogava na II Liga que conquistou - bola de pé para pé e acalmia nas saídas, para chamar a pressão adversária -, começou a criar raízes na sua própria metade do campo.

A mudança de maior no Sporting viu-se na pressão alta e imediata após qualquer bola que perdesse nos últimos 30 metros, Ugarte e Matheus Nunes eram tentáculos infalíveis do mesmo polvo, rápidos a caírem em cima das receções alheias e a equipa atrás dele como um bloco. Os leões eram ladrões nas zonas do campo e nos momentos em que o adversário mais se desorganiza, ou inventa, como quando Aderllan Santos picou um passe de Trincão intercetou para isolar Pote com um bem medido da sua conta. O remate do português foi um passe rasteiro (34’) para o guarda-redes.

Não seria no minuto seguinte, quando outra diagonal de dentro para fora de Edwards para perseguir um passe de Porro fez o inglês cargar com o ombro num adversário e aproveitar o duelo vencido para cruzar e Pedro Gonçalves só ter de desviar o 1-0 à boca da baliza. Os 10 minutos restantes foram de um Sporting vintage de Rúben Amorim a acontecer. Sê-lo-iam também nos 45 seguintes.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Aquela avalanche de movimentos com olho na profundidade que obrigam os defesas do Rio Ave a dedicarem mais neurónios à forma como têm os pés apoiados na relva, a espera dos extremos em só arrancarem quando a bola chega aos alas ou dois dos três da frente a unirem-se num lado do campo, para combinarem. A equipa de Rúbem Amorim multiplicou-se na própria previsibilidade e a eficácia que lhe deu alimentou a insistência. Pote recebeu um passe rasteiro de Matheus Reis na área e, com dois toques, rodou para um remate em jeito que sussurrou algo ao poste. Um cruzamento de Trincão quase seduziu um auto-golo.

Tanta feitura bem-feita e tão consecutivamente fez o Rio Ave refugiar-se na área, os seus a duvidarem de tanta coisa a passar-se ao mesmo tempo e a criação de incógnitas nas cabeças dos adversários é das sementes mais queridas por qualquer equipa. Quando Matheus Nunes, na esquerda, recebeu um mero passe para trás de Edwards, deparou-se com passividade, espera e apatia tais que, olhando para cada lado, demonstrou com um petardo que a largura da baliza é muita até quando se dista uns 30 metros dela. O 2-0, aos 66’, foi o golo da noite, quando os vilacondenses já não eram capazes de respirar com qualquer bola que tinham para transições rápidas.

O Sporting jogou ao que sempre joga com Rúben Amorim e o Rio Ave nada pôde contra isso, menos ainda quando Edwards saiu para entrar Rochinha e, durante quase 10 minutos, coincidirem em campo os três atacantes que mais precisam de outros como eles para se superlativarem. A queda do ex-Vitória por gingar diante de corpos, atraindo gente até ter nesgas de espaço para puxar por tabelas atraiu Trincão e Pote, a técnica neles vive para ser compartilhada e entre os três se fez o 3-0: o primeiro arrancou pedindo uma tabela ao segundo, que teve tempo para lançar o terceiro com um toque de cetim enquanto o outro arrastava atenções. Na área, Pedro Gonçalves picou levemente (75’) a bola sobre o corpo do guarda-redes.

Ainda se viu uma bola batida contra a barra do abono de golos de há duas épocas, avistou-se igualmente como Fatawu é uma verdura de projeto de futebolistas e ainda a Jeremiah St. Juste ser o central à direita cheio de conforto em participar nas jogadas plantadas no meio-campo adversário (sem ser testado defensivamente) quando o Rio Ave já só um alvo da experimentação alheia. Também houve uma posse matreira e egoísta da bola, gerindo um jogo que já não exigia repelões como o treinador disse faltas nas últimas duas temporadas.

Ainda se viu uma bola batida contra a barra do abono de golos de há duas épocas, avistou-se igualmente como Fatawu é uma verdura de projeto de futebolistas e ainda a Jeremiah St. Juste ser o central à direita cheio de conforto em participar nas jogadas plantadas no meio-campo adversário (sem ser testado defensivamente) quando o Rio Ave já só um alvo da experimentação alheia. Também houve uma posse matreira e egoísta da bola, gerindo um jogo que já não exigia repelões como o treinador disse faltas nas últimas duas temporadas. Uma carência que antes era notoriamente assinalável parece estar a ser tratada à boleia da correta execução do que é previsível neste Sporting.