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Debaixo de um dilúvio, foi um tiro de Sarabia que afogou a esperança dos gansos

O Sporting começou a perder com o Casa Pia, no Estádio Pina Manique, mas, na segunda parte, já depois do golo de Coates e com Paulinho em campo, deu a volta ao marcador. A equipa do regressado Rúben Amorim já está nos quartos de final da Taça de Portugal

Hugo Tavares da Silva

Gualter Fatia

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Depois da barrigada de futebol com cheirinho a outros tempos que nos brindaram Leça e Paredes, jogado a uma hora que deixa esventrado o propósito mais belo da Taça de Portugal, o Casa Pia optou por sonhar. E a maneira mais ousada de sonhar é jogar exatamente como se sonha – ousadamente. Os gansos entraram muito bem contra o campeão nacional, mas, com o passar do tempo, a equipa do regressado Rúben Amorim acabaria por mostrar quem é. O Sporting venceu por 2-1, no Estádio Pina Manique, e já está nos quartos de final da Taça de Portugal.

O Casa Pia, treinado por Filipe Martins, começou arisco, principalmente a forçar pela esquerda, com um triângulo entre Derick Poloni, Savior Godwin e Jota Silva. Os solidários Nuno Borges e Zidane Banjaqui tinham como missão segurar o meio-campo, ao lado deles estava o refinado Afonso Taira, um rapaz de 29 anos que joga como as trutas deste desporto. A energia inicial foi contagiante e, como sempre faz aos nostálgicos e apaixonados por este jogo, leva a perguntar “e se…?”.

Rúben Amorim lançou para o relvado João Virgínia, Nazinho e Daniel Bragança. Atrás do mexido Tabata, o avançado, estavam Pedro Gonçalves e Pablo Sarabia. Este trio estaria demasiado tempo desinspirado e acabaria por ser a entrada de Paulinho, ao intervalo, a desbloquear o pensamento e a fineza dos pés dos homens de verde. Lá atrás, jogaram Ricardo Esgaio, pela direita, e no centro Gonçalo Inácio, Sebastián Coates e Matheus Reis.

Depois de uma correria diabólica de Godwin, o Casa Pia voltou a entrar pela esquerda, aos 8', e Poloni, com a canhota, sacou um cruzamento excelente. Na área, a fazer o golo de cabeça, estava o atrevido e astuto Jota Silva, que dá ares de Jack Grealish, pelo cabelo e a caneleira quase inexistente, uma ferramenta de trabalho que daria que falar mais à frente no jogo. Jota, que já marcara na Taça a Farense e Valadares Gaia, está na liderança dos melhores marcadores da II Liga, com Bryan Róchez (Nacional) e Henrique Araújo (Benfica B), com oito golos.

O Sporting tinha dificuldades em aproveitar os espaços e a ligar por dentro. A relva e a bola muitíssima molhadas pareciam estar a dificultar, mas já sabemos que isto é uma mera desculpa. Os rapazes da casa queriam fazer história e entraram com o gás todo, o que não aconteceu com os visitantes, que levaram Rúben Amorim a abrir os braços demasiadas vezes.

Nas alas, Nazinho e Esgaio não davam particular profundidade nem opções que pudessem ferir o rival, algo que foi sendo alterado pelo lado direito, como admitiriam no final ambos os treinadores. Daniel Bragança foi porventura o primeiro a lembrar-se de quem é. O nível técnico, a generosidade na colagem da equipa, a presença e os movimentos curtos para dar uma opção de passe são definitivamente um deleite. O médio canhoto fez dois remates perigosos durante a primeira parte.

Gualter Fatia

O golo do empate chegou de canto, uma situação que surpreendeu cerca de zero pessoas. Aos 33’, Pedro Gonçalves bateu, o tradicional desvio aconteceu ao primeiro poste e Coates encostou no segundo poste. Antes, Matheus Reis ameaçara com um cabeceamento igualmente ao primeiro pau, tal como Tabata ameaçaria, cara a cara com Lucas Paes, mas a mancha do guarda-redes seria eficaz.

O intervalo chegou e imaginou-se uma senhora dura de Rúben Amorim aos jogadores, já que o treinador avisara na véspera que era preciso entrar bem, com intensidade, pois perder é uma possibilidade. O medo ou ódio a perder é muitas vezes o cabal motivador dos grandes vencedores.

Paulinho entrou então, saltando fora Nazinho. Tabata foi puxado para o corredor esquerdo. O Sporting começou a ligar por dentro, descobriu com mais facilidade os espaços nas costas dos médios de negro. O avançado é realmente fino, com uma serenidade que permite a equipa jogar e subir. Daniel Bragança continuou a refinar o rendimento e a ajudar a controlar o jogo. Foi isto, essencialmente, que o Sporting fez nesta segunda parte: melhorou o ritmo e controlou o jogo.

Como o futebol é muitas vezes um fenómeno virado para a justiça, os melhores em campo chegaram ao golo. Pablo Sarabia, em mais uma demonstração de talento e estofo, recebeu, posicionou-se e disparou para a baliza, com violência, de fora da área. A bola bateu na barra, pingou para lá da linha e, depois do VAR confirmar que havia entrado, o Sporting celebrou a cambalhota no marcador.

MANUEL DE ALMEIDA

O jogo acabaria por ficar quentinho, com duelos e pedidos de falta sem fim. Afonso Taira saiu, tocado, aos 64’, e uma parte da alma do bom jogo da equipa que habitualmente joga no Pina Manique desapareceu. Com 18 minutos para o fim, Tabata voltou a ser expulso, tal como com o Penafiel, depois de deixar a marca do piton na perna de Jota Silva. Pareceu mais azar do que violência, mas a marca na perna terá ajudado o árbitro a decidir. O futebolista, desolado, saiu aplaudido.

Pouca história aconteceu até ao fim. Com Ugarte e Matheus Nunes no meio e Nuno Santos na esquerda, Rúben Amorim fechou a equipa e orientou-a para ir congelando a bola aqui e ali. A organização defensiva, coordenada e comprometida com a causa, raramente permitiu ao Casa Pia sonhar com o golo do empate. A equipa da casa, que há 100 anos emprestou o equipamento a Portugal para a estreia internacional, apostava sobretudo em ações individuais, normalmente por Godwin.

Segundo o Playmaker do Zerozero, o último jogo entre estas duas equipas foi em 1939 e contava para o Campeonato de Lisboa, no terreno do Casa Pia: os visitantes golearam por 9-1.

Tantos anos depois, e debaixo de um dilúvio, o Sporting voltou a vencer no campo dos gansos, garantindo assim a passagem aos quartos de final da Taça de Portugal. Rúben Amorim voltou a ser feliz naquele relvado.