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O diretor técnico da África do Sul está suspenso do râguebi, mas não se vai calar sobre o que o suspendeu

Rassie Erasmus é o diretor técnico do râguebi sul-africano que, no verão, apareceu num vídeo de 62 minutos a detalhar mais de 30 supostos erros de arbitragem no primeiro jogo entre o país e os British & Irish Lions. A World Rugby castigou-o com uma suspensão até setembro de 2022, ele sempre disse que não foi o responsável pelo leak e, além vídeos a beber cerveja, anunciou no Twitter que vai participar num documentário sobre a polémica

Diogo Pombo

David Rogers/Getty

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Estava triste por não estar com “os rapazes” no captain’s run, o assim alcunhado último treino de uma seleção antes de um jogo, é râguebi também é oval na obviedade das suas tradições e a cerveja é uma delas, o costume de jogadores de equipas rivais bebericarem o líquido de cevada no balneário, findo um encontro, existe há muito, mas a cerveja preta na suposta mão de Rassie Erasmus era diferente. “Tenho a sensação de que os próximos dois meses não serão assim tão maus”, escreveu o sul-africano, a acompanhar um vídeo.

De copo de meio litro cheio e à mesa de um qualquer pub em Londres, o diretor de râguebi da África do Sul tragou do beberete na véspera de os springboks perderem por um ponto em Twickenham, o estádio onde a Inglaterra vai comungar no vício oval. Um dia antes do último jogo da digressão dos campeões mundiais pelo Reino Unido, quem parecia ser um quase treinador sem realmente já sabia que tinha de estar longe deste jogo, e de qualquer outro, por um período de dois meses — não assistiu à derrota no relvado, a servir de aguadeiro e com o respetivo colete identificativo, como em tempos recentes.

A World Rugby decidiu suspendê-lo, a meio deste mês, devido a um vídeo com com a duração de quase uma hora, no qual Rassie Erasmus aparecia a analisar a arbitragem que descortinou no primeiro jogo da digressão dos British & Irish Lions, pela África do Sul. Divulgado no verão e dias após o encontro, o vídeo mostra o diretor sentado, boné na cabeça e com um computador portátil à frente, a detalhar uns supostos 36 erros cometidos pelo australiano Nick Berry, o árbitro do jogo. “É um assassinato de carácter”, queixar-se-ia o homem do apito.

Erasmus é um tipo do râguebi: em 2019, era o selecionador da África do Sul quando o país conquistou o Mundial pela terceira vez, logo saindo do cargo para ser, em exclusivo, diretor técnico da federação do país, função que já tinha desde 2017. Mas, com o tempo, o râguebi ergueu sobrolhos de desconfiança. À vontade para se pronunciar nas redes sociais sobre opiniões alheias, artigos de jornais ou decisões da World Rugby, o sul-africano também personificou durante algum tempo o inusitado.

Serviu como aguadeiro durante os jogos da seleção contra os British & Irish Lions, função que é comum ficar reservada para jogadores suplentes, apenas para estar próximo da equipa e dar instruções, apesar de os springboks terem um selecionador, Jacques Nienaber. Antes de o castigar por causa do tal vídeo — que Rassie Erasmus afirma não ter sido o responsável pela publicação e divulgação — a World Rugby já reduzira o número de aguadeiros (de três para dois) permitidos nos jogos internacionais, fazendo, na prática, com que ele continuasse a ser uma espécie de treinador à beira-relvado.

A punição vai mantê-lo afastado de qualquer atividade em dia de jogo até 30 de setembro de 2022 e foi justificada pela World Rugby com a quebra do código de conduta da entidade, além da ameaça feita e cumprida ao árbitro, porque Rassie Erasmus enviou um e-mail quase profético a Nic Berry. “Sentimos que a pressão que os Lions tentaram colocar na vossa equipa [de arbitragem] através dos média serviu-lhes bem!! Nós vamos fazer o mesmo e acho que a nossa será mais factual e honesta!!”, terá escrito o sul-africano, citado pelo “Sydney Morning Herald”.

Castigado-o e obrigado-o a pedir desculpas públicas ao árbitro, a World Rugby também avisou que “a conduta futura” de Rassie Erasmus seria analisada. Nessa atuação já entrava vídeo, posto no Twitter, do gole dado no copo de meio litro de cerveja preta, a desvalorizar a suspensão. E inclui-se outra mensagem publicada no domingo.

O diretor técnico da África do Sul escreveu estar “muito entusiasmado” por “ser parte” do documentário que estará a ser feito pela Supersport, um canal televisivo de desporto sul-africano, “já que [tem] muito algum tempo em mãos”, no qual “poderá contar a [sua] versão da história”. Ou seja, instalada e corrida a polémica criada pelo vídeo de 62 minutos que até implicou uma queixa do repórter de imagem contra a World Rugby, por ter divulgado publicamente o seu depoimento, mais uma poderá vir a caminho.

Rassie Erasmus ficou limitado a dar pedaços do seu pensamento via redes sociais, onde vídeos de fogueiras, copos de cerveja e ele a ingerir outros líquidos não identificados têm sido reincidentes. Mas, avisado de que a entidade que manda no râguebi ficaria de olho nele, o sul-africano deverá voltar a pronunciar-se sobre tudo o que aconteceu.