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FC Porto

A mudança de chip não chegou aos Açores

No regresso ao campeonato depois da passagem aos oitavos-de-final da Champions, o FC Porto não foi além do empate (1-1) na visita ao terreno do Santa Clara. Fábio Cardoso até colocou a equipa do castigado Conceição a vencer logo aos 3', mas os dragões fizeram uma exibição pobre, com um futebol muito desligado e pouco agressivo, sendo castigados pelo golo de Boateng aos 83'

Pedro Barata

EDUARDO COSTA/LUSA

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Nos clichés e frases feitas que têm no dicionário da bola terreno fértil para serem usados e abusados, há um que se aplica a quando uma equipa passa de disputar um jogo nas competições europeias para regressar à I Liga. A “mudança de chip” virou conceito amplamente aplicado, referindo-se à reativação da concentração nos compromissos locais depois das viagens internacionais. A voltar a disputar partidas com menos glamour ou mediatismo, mas em que não ganhar significa perder preciosos pontos na corrida pelo título.

O FC Porto foi aos Açores depois de garantir, na Bélgica, a passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O objetivo cumprido levou a festejos no avião e à emoção de Pinto da Costa mas, algures entre Brugge, o Porto e Ponta Delgada, o chip não foi trocado.

Contra o Santa Clara, que entrou na 11.ª jornada da I Liga em antepenúltimo, o FC Porto fez uma exibição cinzenta, escassa em ocasiões de golo a partir dos 30 minutos e deixando que os açorianos fossem, pouco a pouco, aproximando-se de Diogo Costa. O golo de Boateng aos 83', elevando-se no meio da área dos azuis e brancos, determinou o empate (1-1) que acentua a irregularidade dos campeões nacionais: são já 10 pontos perdidos na temporada, quase tantos como na campanha passada, quando a equipa de Sérgio Conceição só cedeu 11 pontos.

Os visitantes até marcaram numa das primeiras jogadas do desafio. Aos 3', Fábio Cardoso, no confronto contra a sua antiga equipa, correspondeu da melhor maneira a um livre bem batido por Bruno Costa. Foi o 11.º golo do português na I Liga nas últimas cinco temporadas, registo que, no mesmo período de tempo, só é superado por Coates (12 golos).

EDUARDO COSTA/LUSA

O golo madrugador embalou os visitantes para 30 minutos de claro domínio, com a intensidade criativa de Otávio a levar a equipa para situações de perigo. No entanto, em duas ocasiões, Evanilson, em boa posição, não conseguiu marcar. Primeiro o brasileiro atirou ao lado, depois foi Gabriel Batista a evitar o 2-0 com uma boa defesa após cabeçada do avançado, na sequência de excelente assistência de Otávio.

Aos 34’, foi o próprio Otávio, depois de um livre lateral bem trabalhado pelo FC Porto, a atirar perto do poste direito dos açorianos. Esse remate foi o fecho do melhor período dos dragões, que passaram depois largos minutos de dificuldades, com escassa fluidez e ligação de jogo. Foi como se, subitamente, a superioridade portista se transformasse em apatia, talvez porque a mudança de chip só tenha durado para um terço do jogo.

No final do primeiro tempo, o Santa Clara, com a urgência que a situação na tabela provoca nos açorianos, deu passos em frente. Conseguindo recuperar a bola em zonas mais adiantadas, os locais conseguiram encontrar em melhores condições o pé esquerdo de Bruno Almeida, um dos mais refinados recursos de que dispõem. Aos 38’, um bom trabalho do canhoto permitiu a Ricardinho cruzar atrasado, mas Gabriel Silva, na área, rematou mal. Logo a seguir, foi MT a atirar de fora da área, com Diogo Costa a opor-se com a qualidade habitual.

Com Sérgio Conceição castigado na bancada, era Vítor Bruno que, pela 11.ª vez desde que o antigo internacional português lidera o FC Porto, orientava a equipa. No começo do segundo tempo, nenhum dos conjuntos criava perigo, mas era evidente que a escassez de soluções apresentadas pelos dragões estavam a convidar o Santa Clara a esticar-se, com a serenidade de Diogo Costa a responder da melhor forma a alguns cruzamentos ou remates de fora da área.

Galeno, em duas ocasiões, teve nos pés as únicas situações do FC Porto para fazer o 2-0 no segundo tempo. A melhor chance para o Santa Clara antes do 1-1 surgiu aos 68', com Gabriel Silva a rematar com qualidade para defesa ainda melhor de Diogo Costa.

EDUARDO COSTA/LUSA

A passividade do FC Porto foi castigada aos 83'. Por essa altura, já há largos minutos que os campeões nacionais se limitavam a uma postura contemplativa, perdendo duelos, errando passes e permitindo que o Santa Clara ganhasse metros.

Um canto da esquerda de Quintillà foi para o coração da área. Lá saltou Boateng, mais alto que toda a gente, e rematou de cabeça, sem muita força, mas com colocação suficiente para tornar inútil a estirada de Diogo Costa.

Soaram os alarmes nos azuis e brancos, mas, nos quase 15 minutos que ainda se jogaram depois do 1-1, a nota de destaque foi a falta de inspiração ofensiva e critério dos visitantes. Só por uma vez o 2-1 esteve verdadeiramente perto. Aos 88', um bom trabalho de Gonçalo Borges deu a Taremi a hipótese de finalizar de cabeça. Gabriel Batista, com a melhor defesa da tarde, segurou um empate que dá novo fôlego a um Santa Clara a precisar destas alegrias na temporada.

O louco calendário da primeira metade desta temporada dividida em dois pelo Mundial obriga a que a mudança de chip seja uma atividade quase diária. As semanas europeias são a regra, não a exceção, e as inconsistências de forma pagam-se caro. O FC Porto não fez essa alteração e deu continuidade a um campeonato demasiado irregular.