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O FC Porto e a bondade da insistência

Durante muito, muito tempo, o Vizela parecia a equipa que melhor ligava as jogadas atacantes e concretizava aquilo que queria, enquanto o FC Porto se movia ofensivamente pela falta de ideias e lentidão de ações. Mas, como lhe competia, insistiu até ao fim e só um cruzamento de Galeno, aos 90', deu a bola da vitória (0-1) à cabeça de Marcano. E isso não foi uma ideia, foi uma insistência

Diogo Pombo

DeFodi Images

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A bola ir ao centro do campo é protocolar e o gigante círculo que cerca o exato ponto onde se espetou o compasso serve atenuante ao não restituível, sofrer um golo é o mal que uma equipa mais quer evitar num jogo de futebol, mas quem matuta sobre regras duvido que venha a mudar esta de quem retira bolas da sua baliza ter direito a seguir com ela uns 50 ou 60 metros mais à frente. Ou, então, se a moeda atirada ao ar e posta na relva pela gravidade lhe sorrir e o jogo começar nos seus pés. O cara ou coroa sentiu o magnetismo no corpo de Pepe.

O usufruto da bola de saída pelo FC Porto foi uma réplica do uso que lhe dava a época passada e creio na anterior, a mesma cabeça calva do capitão encostada à linha do meio-campo, um primeiro passe para trás, um segundo ou dois de espera para dar tempo ao avançar de Pepe e lá vai o despejar de um passe aéreo dirigido a quem correu, a quem se pede para saltar e a quem mais se esperava. Se há momento em que bons, maus e razoáveis futebolistas se aproximam é quando os corpos saltam para irem de cabeça à bola, ainda mais quando os teóricos mais fracos atacam essa bola de frente.

Em nada resultou mais uma tentativa da equipa de Sérgio Conceição levar avante esta iniciativa de estar mais perto de dar a posse ao adversário do que efetivar algo com ela, um padrão que não se altera por outras ideias que se repetiu em Vizela, no estádio azul que é dos mais pequenos do campeonato e dos que mais se enche de locais (o quinto com melhor média de assistência em 2021/22), fosse assim e a I Liga era mais apetecível, mas, para tal, também ajuda haver jogos mais férteis em ideias, intenções e dinamismo. Não como este, onde só existem em meio costado.

A equipa de Sérgio Conceição passe a bola lenta, previsivel e emperradamente, o único que em 45 minutos esconde os intentos e arrisca uma receção orientada de costas, um drible que parte um adversário por sair para o lado contrário ou uma combinação com uma mudança posta abaixo é Pêpê, o ex-extremo e agora médio Pêpê, a jogar entre a lentidão de processos de Uribe e Grujic, a inexistência de Loader nos momentos ofensivos e as ligações que não saem entre Taremi e Evanílson.

É uma primeira parte em que o FC Porto remate quando um canto dá um ressalto a Uribe e um lançamento lateral longo com apeadeiro numa cabeça vai depois à de Taremi, que atira a bola às mãos do guarda-redes. São episódios aos 8’ e aos 13’ a que se junta outro do iraniano já nos descontos, igualmente inofensivo. Os dragões nada criam e tudo transformam em passividade atacante.

E o Vizela, numa das primeiras bolas que teve para sair da própria área, mostrou ao que ia quando o central Bruno Wilson, muito pressionado, bateu com o peito do pé direito na bola, mantendo-o rente à relva e na direção dos avançados, onde um recebeu e o outro o circundou para ficar com ela de frente para a baliza. A equipa do Álvaro Pacheco fiel à barba e à boina na cabeça não abdicou de construir jogadas com passes curtos e de forma apoiada, que quase sempre fugiram à pressão desgarrada do FC Porto e foram ter ora com Kiko Bondoso, Zohi ou Nuno Moreira, os da frente cujo único pecado reincidente esteve no último passe.

Os três tabelavam, jogavam a dois toques - atraindo e só depois soltando a bola -, um vinha para o outro fugir e o Vizela foi perigoso num par de remates, ambos de Nuno Moreira, como o campeão nacional não logrou ser até ao intervalo. Bondoso era o mais gentil para com o jogo, todos os seus toques na bola a terem um propósito simples e ele a executá-los dessa forma, como é mais difícil jogar futebol e ainda por cima com a rapidez que o afastava de desarmes. Assim roubou a bola à tranquilidade de Grujic para correr área dentro, cruzar atrasado e, dessa vez, Nuno Moreira falhar (47’) na bola só com a baliza na paisagem. No minuto prévio, o entrado Gabriel Verón rematou na pequena área para Buntic defender.

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/Lusa

O despertar da partida aparentava ser um novo amanhecer, a agitação das águas paradas, e, verdade, o ritmo do jogo acelerou-se e a tomada de riscos do lado do FC Porto acentuou-se pelas peças lançadas para o tabuleiro. Otávio, uma delas.

Na estreia do pequeno foco de intensidade esta época, fixou-se em lugares mais próximos da área e entre as linhas do Vizela para Grujic, enquanto durou, se responsabilizar pelos passes que ligam setores até Sérgio Conceição querer ter lá o sonar que existe mais nos pés de Stephen Eustáquio. Aí e apesar da maior velocidade nas ações, o FC Porto já meio que se emperrara em si próprio pela hora de jogo e rendera-se à acumulação de corpos na área - Taremi, Verón, Toni Martínez e por vezes as chegadas do próprio Otávio eram outro chamariz à redundância.

Os dragões empurraram, quase em cada posse de bola, os jogadores do Vizela para a área, mas era raro quebrarem-nos pelo centro do campo (o acerto no passe curto nunca houve) e abafarem-nos quando perdiam o redondo objeto. Kiki Afonso rematou-o a rasar a base do poste direito (60’) após um cruzamento e Nuno Moreira tirou outro a que o central Samu quase chegou. E os singelos toques de Kiko Bondoso continuou a desatar nós, mas, quando cãibras o frenaram pelos 80’, já era uma ilha a tentar socorrer bolas tiradas da área.

O derradeiro quarto de hora limitou o Vizela a resistir, a aguentar o ímpeto portista que mesmo sem grande plano aparento, era um esforço bombardeador de tentativas. Aos três homens residentes na área já se juntara Galeno na ala esquerda para ser a ameaça constante de fintas e um-para-um que obriga a que os adversários se juntem por lá de modo a garantirem coberturas. O brasileiro poucas bolas filtrava para quem esperava por elas perto da baliza, a relação era desproporcional, ele insistia nas suas valências para proveito próprio e uma tabela quase inadvertida com Toni Martínez deu-lhe a bola que rematou em arco (85’), pertíssimo do poste.

Cheirando a hora do desespero, o FC Porto contou os derradeiros minutos a tentar aproximar-se da área com conduções de Otávio, lançamentos logos e os proverbiais cruzamentos para a área. O decisivo veio do extremo que finta mais do que serve outros pelo método mais tradicional, contra quem Álvaro Pacheco até trocou de lateral direito para os últimos minutos. Mas, quando Galeno se rendeu ao cruzamento, aos 90’, estava sozinho: a bola saiu-lhe rápida e tensa, semelhante a um remate, encontrou Iván Marcano na área para ser o central quase inexistente na época passada (massacrado por lesões) a desbloquear o que já se vestia como um jogo sem golos.

Ganhou o FC Porto quando contou o tempo quase inteiro a insistir, a ir contra a sua maré de desinspiração de ideias ofensivas enquanto outros jogadores eram mais bondosos a engenhar coisas com a bola. A bondade portista esteve na insistência até ao fim.