Perfil

Opinião
Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Bola no braço ou braço na bola? Uma análise ao lance de pontapé de penálti do Benfica - Vizela (por Duarte Gomes)

O antigo árbitro internacional explica a decisão de Fábio Veríssimo no lance aos 99 minutos que permitiu ao Benfica colocar-se na frente do marcador frente ao Vizela

Duarte Gomes

Gualter Fatia/Getty

Partilhar

Dão-me licença que tente explicar?

Vamos falar de lances chatos, difíceis e controversos como o pontapé de penálti assinalado a favor do Benfica, aos 98'20", do jogo com o Vizela. Pode ser?
Ponto prévio: a questão das infrações por "mão ou braço na bola" sempre foram umas das mais difíceis de objetivar na lei. É por isso que situações como aquela jamais gerarão consensos, sobretudo quando acontecem em jogos em que o day after mais parece uma guerra civil do que uma possibilidade de realmente tentarmos perceber o que aconteceu.
Mas mais importante do que entrar nesse peditório é dar às pessoas ditas normais, educadas e honestas algumas ferramentas para que possam avaliar, por si mesmas, jogadas terríveis como aquela.
Vamos lá ver se nos entendemos relativamente a alguns conceitos técnicos que não estarão claros:
1. Bola JOGADA com qualquer parte do corpo (pé, cabeça, peito, perna) e que suba INESPERADAMENTE para uma mão ou braço do jogador, regra geral... NÃO É DE PUNIR.
Porquê? Porque, ao abordar o lance com uma parte legal do corpo, o jogador está a demonstrar a toda a gente que não quer infringir. Tem é azar ou infelicidade na forma como aborda o lance, o que leva a bola para uma trajetória rápida e imprevisível, rumo a um qualquer braço ou mão.
Aí raramente há TEMPO DE REAÇÃO para evitar o que quer que seja. Reparem: o jogador não teve vontade de infringir. O jogador não fez abordagem de risco. Pelo contrário! O que teve foi má sorte. Foi "vítima" de uma casualidade inevitável, que qualquer pessoa sensata, que perceba do jogo e da justiça que se espera de cada decisão, perceberá sem maiores explicações.
EXEMPLO - Pontapé de penálti assinalado por braço de Lucas Paquetá no jogo com o FC Porto (Liga Europa, 9 de março), com decisão revertido pelo VAR.
Tenta jogar com a perna, bola sobe de forma inesperada e vai tocar no braço. Zero intenção, zero vantagem, zero benefício.
2. Por outro lado, se a bola NÃO FOR JOGADA/TOCADA deliberadamente por um jogador, MAS DESVIAR/RESVALAR numa parte do seu corpo e seguir para a mão ou braço, regra geral a decisão de punir ou não punir depende de fatores como o tipo de ABORDAGEM, o possível BENEFÍCIO e sobretudo a POSIÇÃO de mãos e braços.
A leitura in loco de todos os aspetos é difícilima e nem sempre cristalina, daí o drama na análise das jogadas (e o drama pior nas respetivas reações).
Aqui, mais do que conhecer regras e instruções que os árbitros possam receber, o importante é ter tato. Saber prático. Cheiro. Sensibilidade.
É preciso sentir o jogo, perceber o movimento, entender intenções, riscos. Intuir o que todo o lance nos diz. A pergunta final é sempre a mesma:
- O que é que o futebol espera nesta lance? Que decisão serve, com maior justiça e qualidade, a esta situação?
Para que estejamos sintonizados:
BOLA TOCA (NÃO É JOGADA DELIBERADAMENTE) NUMA PARTE DO CORPO DE UM JOGADOR E SEGUE DEPOIS PARA A MÃO/BRAÇO.
Para analisar então:
- A abordagem do atleta foi de risco? Ou seja, o jogador viu o remate e escolheu colocar-se na sua linha de trajetória, de forma a formar uma espécie de tampão, de parede defensiva para a sua baliza? Ou esteve sempre de costas, à margem de toda a jogada e nunca viu o que se estava a passar?
- O jogador fez algum movimento imprudente (falta de cuidado ou atenção), colocando as mãos/braços numa posição arriscada, fora da zona do corpo, em área evitável, sem que isso se justificasse? Ou nunca os tirou de uma posição normal e expectável para o seu movimento?
- O jogador cortou, efetivamente, uma linha de remate? Travou ou desviou a marcha da bola? "Matou" a jogada? Teve benefício? Ou não teve vantagem alguma dessa ação?
- O jogador levou a mão/braço na direção da bola ou foi a bola que foi tocar, inesperadamente, na sua mão/braço?
- A ação/movimento do jogador era evitável? Podia ter sido outra? Diferente? Sem risco? Ou o atleta nada fez para ser punido, teve apenas infelicidade ou azar de estar no sítio errado?
EXEMPLO 1 - Vitória SC/Sporting (época 2021/22): remate frontal de Gonçalo Inácio, com a bola a "resvalar" no peito de Alfa Semedo e a seguir depois para o seu braço esquerdo, que estava aberto, em posição anormal e desfasada.
Decisão: pontapé de penálti.
A bola, apesar de tabelar/tocar no corpo do defesa - reparem, não foi jogada por ele -, foi depois "cortada" por um braço que estava com clara volumetria, fruto de uma abordagem de risco que Alfa Semedo entendeu fazer, ao procurar "crescer" para intercetar remate à sua baliza.
EXEMPLO 2 - SL Benfica/Vizela, jornada passada: o defesa vê o adversário armar o remate e só depois ESCOLHEU fazer movimento de rotação, de forma a tapar a sua baliza, a constituir-se como um "muro", para evitar possível lance prometedor.
Decisão: pontapé de penálti.
Ao tomar aquela opção, a de se colocar em linha de remate para o bloquear,o jogador arriscou. Collina diria "pôs-se a jeito".
Não teve a atenção que devia. Foi imprudente e a imprudência é sancionada tecnicamente. Ao rodar, os braços levantaram para fora da zona do seu corpo e um deles acabou por travar a trajetória de uma bola que se dirigia para zona periogosa. O corte teve benefício. O ressalto anterior não anula a vantagem obtida por um cotovelo que estava distanciado do corpo, que "matou" a jogada e que só aconteceu porque o defesa assumiu o risco de "crescer" para evitar males maiores para a sua baliza.
Agora a parte mais importante, no meio disto tudo:
- Estas são mesmo lances diabólicos, que até os árbitros (e video árbitros) têm dificuldade em decidir.
Ainda esta segunda-feira, Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, reconheceu que um dos maiores dramas do futebol moderno é não conseguir resolver este, o das infrações por mão na bola. Citou até um exemplo de uma reunião em que participou recentemente e em que, perante determinado lance, metade dos treinadores tinha uma visão, a outra metade outra. Eram todos de elite.
Esqueçam lá essa coisa de concordarmos todos com este tipo de situações. Não vai acontecer. E a culpa nem é (só) dos árbitros, comentadores de arbitragem, jornalistas, comentadores educados ou pirómanos avençados. É sobretudo da incapacidade do IFAB em resolver uma situação que é problemática para todos.
É verdade que já conseguiram objetivar a questão de golos obtidos por um jogador que tenha visto a bola tocar-lhe (ainda que sem querer) na mão ou no braço.
Podiam, em relação a lances diabólicos como estes - os de ressalto/toque no corpo, a seguir bola na mão/braço - fazer exatamente o mesmo:
- Sempre que a bola fosse jogada ou tabelasse em qualquer parte do corpo de um jogador e viajasse para a mão ou braço, era assinalada falta. Ponto final, parágrafo.
Seria justo? Não. De todo. Mas seria factual. Toda a gente percebia, aceitava e nem comentava.
Drama a drama, é preciso acabar com o que dá aos honestos matéria para discussão e aos terroristas material de combate.