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Mereceu a vitória quem colocou o capacete arco-íris numa terra de intolerância

João Garcia esteve num dos GP Portugal em Monsanto, no primeiro no Estoril, já viu um bocadinho de tudo - até Stéphanie do Mónaco a deixar em polvorosa os fotógrafos na pista - mas nunca num Mundial de Fórmula 1 como este de 2021, com Hamilton e Verstappen empatados quando faltam poucos dias para conhecermos o campeão.

João Garcia

Mark Thompson/Getty

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Comecei a gostar de automóveis ainda não conseguia ler o Chico Cambota, no saudoso "Motor", impresso em papel de jornal e com as fotos a preto e branco.

Lembro-me de ter visto um Grande Prémio de Portugal, em Monsanto, levado pela mão do meu pai. Ele guiava bem, ainda faltavam muitos anos para se recusar a fazer piscas (“Eu sei para onde vou”), a acender os médios (“Vejo bem à noite”) ou a sair da faixa do meio (“Assim tenho menos trabalho”). Fosse por influência dele, fosse por qualquer outra coisa, o bicho mordeu-me forte. Só esteve meio escondido nos tempos de brasa da Revolução, quando eu andava por meios em que o automóvel era coisa burguesa e não conseguia convencer ninguém de que as corridas eram do povo.

Do primeiro GP no Estoril, recordo que a excitação pelos automóveis, pelo barulho, pelo odor único a borracha e gasolina. Ah!, recordo também as calças de ganga, rasgadas logo abaixo da nádega de Stéphanie do Mónaco, a princesa rebelde, então namorada de Alain Prost. Quando se debruçava sobre os rails, havia sempre alguém a disparar a máquina fotográfica

Do que não me lembro é de um campeonato do Mundo tão disputado, por marcas (Mercedes, com 587,5 pontos, e Red Bull, 559,5) e pilotos (Verstappen e Hamilton com os mesmos 369,5 pontos), como o que está a terminar. É possível que as estatísticas e os especialistas me desmintam. Porém, por favor, não o façam antes de dia 12, que a incerteza faz parte da emoção de assistir.

O que me agarra à F1 é ver automóveis e pilotos que disputam o milésimo de segundo. É assistir a como sabem onde começar a travar e quanto (como será, mesmo, que tomam estas decisões?), como decidem acelerar, sem que a traseira os ultrapasse, como conseguem os estrategas tomar decisões em segundos e como alguém foi capaz de conceder aquelas máquinas que passam dos 300 e aguentam embates com desacelerações de 12G (com o corpo a pesar 12 vezes mais do que efetivamente tem quando se sentam na scooter que os devolve à box).

Domingo vi uma coisa que nunca tinha visto. Uma prova cheia de incidentes, talvez a destruir aquilo a que os puristas chamam verdade desportiva, mas com dois homens a mostrar que não são de cá: Hamilton e Verstappen. É verdade, julgo eu, que não são as chuteiras de Ronaldo que o diferenciam dos restantes e no automobilismo não é assim. Quem ganha ou perde é um enorme conjunto de pessoas. A verdade, porém, é que alguns fazem a diferença. Dizia-se que Schumacher tirava um segundo por volta ao Ferrari. Max e Lewis não sei que milagre fazem, mas a verdade é que deixam os colegas de equipa quase sempre para trás.

Desta vez, assisti a um Hamilton com coração de aço e sangue gelado e a um Max a recordar o irrequieto e truculento miúdo que começou a guiar na F1 antes de ter idade para conduzir automóveis. Foi um duelo impressionante, com o holandês e o inglês a embaterem forte, quando o primeiro decidiu abrandar, como um cavalheiro, para deixar passar o seu rival - é certo que por imposição da direção da corrida, pois antes ultrapassara o Mercedes de forma irregular. Hamilton não esperava tamanha gentileza, ninguém o tinha avisado, e a física voltou a mostrar como é mesmo verdadeira a impenetrabilidade da matéria.

Hamilton está um senhor. Foi ele que animou as demonstrações anti-racismo na Fórmula 1 e, ou me engano muito, ou foi o único a responder às solicitações da comunidade LGBT, levando um capacete com as cores do arco-iris à Arábia Saudita, país que não tolera as igualdades de género. Se assim foi, merece a vitória.