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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

De Rafa e Zivkovic até João Félix e Tiago Dantas

Em dia de AEK-Benfica para a Liga dos Campeões, o treinador Blessing Lumueno escreve sobre alguns talentos benfiquistas

Blessing Lumueno

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Há jogadores que nos ficam na retina pela qualidade que aparentam ter e pelo pouco rendimento que conseguem nas suas equipas. E esses jogadores, em que se colocam enormes expectativas, são desde logo apelidados como “flops” sem se tentar perceber alguns dos possíveis motivos do seu menor rendimento.

O motivo primordial pelo qual os jogadores não conseguem ter rendimento é a confiança. Porque os pés é que rematam mas é a cabeça que manda rematar, e se a cabeça não estiver bem o remate vai para fora. E essa confiança começa a ser construída desde o momento que o jogador chega, e lhe dado ou não o sinal do plano para o seu desenvolvimento dentro da equipa, das tarefas que se esperam que ele cumpra, e sobretudo o que é que ele vai acrescentar e trazer de mais-valia ao clube.

Não é fácil chegar e lesionar-se, por exemplo. E isso é algo que pode transtornar um jogador e fazer com que os adeptos numa fase em que o jogador deveria estar a render (mas ainda se está a adaptar porque esteve lesionado) tenham menos paciência e o assobiem de forma constante cada vez que entra em campo por não estar a dar o que se esperava de si. É uma bola de neve que se transforma num problema enorme de desconfiança do jogador de si próprio, do treinador no jogador, e do público impaciente por resultados. Mas, se o plano for bem definido à partida, e for mostrado ao jogador por A+B qual o caminho a percorrer tudo isto pode ser amenizado.

A impressão que fica nos casos de Rafa e Zivkovic é que ninguém na equipa técnica percebeu, exactamente, o que é que cada um deles pode dar ao colectivo.

Gualter Fatia

Quais são às suas melhores características, como é que se sentem mais confortáveis a jogar, e (sabendo que eles se têm que adaptar à equipa) como é que a equipa se poderia ajustar para tirar o melhor rendimento deles e elevar o rendimento colectivo. Ou seja, parece que ninguém percebeu o porquê de terem chegado estes jogadores em particular e não outros quaisquer.

Rafa e Zivkovic têm um problema em comum: a posição onde sentem maior conforto. Se quiserem, a posição onde tiveram mais rendimento, e onde chamaram à atenção para serem contratados para o Benfica.

No Benfica, quem decide, ainda não percebeu que há uma mudança abrupta de rendimento dos dois quando jogam “com o pé contrário”. Isto é, Zivkovic à direita e Rafa à esquerda. Os melhores momentos de cada um deles aparecem com os movimentos interiores que fazem, e conseguem com isso desequilibrar o adversário criando espaço para eles ou libertando depois num colega livre. É tão gritante a diferença que não se percebe ao fim deste tempo todo com os jogadores nos treinos e nos jogos o porquê de se insistir em colocá-los em posições menos confortáveis para que eles possam render. É claro que num caso de necessidade deve-se prioritizar aquela especificidade, mas o que vemos é que se continua a colocar os jogadores em zonas em que sabemos a priori que não vão estar tão bem quanto noutras.

Um bom jogador vai sempre conseguir tirar partido de uma ou de outra situação, e sabendo que ali não estará no seu melhor saberá também proteger-se do erro. Mas, por melhor jogador que seja, nunca vai render o mesmo na sua melhor posição do que numa posição mais estranha.

Porque é ali que vai estar cem por cento seguro, estável, e que poderá criar onde está habituado a criar normalmente. Veja-se Zivkovic: quando passou a jogar como médio ofensivo ofereceu um rendimento bem superior do que o anterior. Porquê? Porque as tarefas que tinha, as zonas que pisava, a forma como recebia e tinha que jogar o jogo estavam mais próximas daquilo que de melhor ele pode trazer ao jogo, tendo em conta que o futebol que a equipa joga não vai de encontro ao que ele de melhor pode oferecer.

E esse é outro factor pelo qual os jogadores não vingam: a forma de jogar da equipa não ter pontos de contacto com o que eles possam trazer de melhor. E é por isso que não se percebe como é que se pode tirar o melhor destes jogadores, e o que é que afinal eles podem trazer de tão bom ao jogo.

Tiago Dantas é jogador do Benfica B

Tiago Dantas é jogador do Benfica B

Gualter Fatia/Getty

João Félix e Tiago Dantas, talentosíssimos, são dois outros casos em que ficará difícil perceber o porquê de não terem rendimento. Porque a inteligência com que eles jogam, a forma como desafiam o que se pensa do jogo por cá, poderá não ter a resposta adequada na equipa principal e poderá até ameaçar e melindrar quem pretere a inteligência pela força.

Porque os franzinos e criativos, para vingarem, precisam que a equipa lhes ofereça condições para que possam mostrar o melhor de si. Precisam que sejam atrevidos o suficiente para desafiar a norma vigente de evitar, por exemplo, jogar-se para dentro do bloco, onde eles estarão à espera e confortáveis para receber/enquadrar e criar mesmo que sem tempo e sem espaço.