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Silêncio ensurdecedor

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O uso das braçadeiras arco-íris não seria o mais poderoso gesto de ativismo de desportistas da história. Colocá-lo na categoria da recusa de Muhammad Ali em combater no Vietname ou de qualquer coisa que a atual seleção do Irão faça é quase insultuoso, medindo-se o insulto pelas consequências de cada gesto: usar as braçadeiras valeria um cartão amarelo, não combater na guerra valeu a Ali perder alguns dos melhores anos da sua vida desportiva — e dói pensar no que pode acontecer aos jogadores iranianos ou às suas famílias caso os gestos que façam neste Mundial, como não cantar o hino contra a Inglaterra, desagradem a um regime repressivo e impiedoso.

Mas não é pela dimensão ser menor que a iniciativa deve ser ignorada. Estamos no mundo do futebol masculino, o planeta do “só comento coisas relacionadas com o jogo”, do “não vamos misturar política com desporto”, da milionária indiferença. Ao usarem aquela braçadeira, as sete seleções tentavam tornar este Mundial, jogado num país que criminaliza a homossexualidade, num sítio um pouco mais acolhedor para quem tem no futebol masculino um lugar tantas vezes tão hostil.

Mas a FIFA parece apostada em homenagear Zeca Afonso. “Eles comem tudo”, controlam tudo, mandam em tudo. As braçadeiras têm de ser as da FIFA, com mensagens que não irritem os senhores do Catar; as camisolas não podem ter a palavra “Love”, que para falar de amor já pagamos nós milhões a Morgan Freeman e David Beckham.

A FIFA de Infantino, o homem que pede que se afaste a política do futebol ao mesmo tempo que vai à cimeira do G20 apelar a um cessar-fogo entre a Ucrânia e a Rússia do Putin que lhe atribuiu a “ordem da amizade” em 2019, quer mandar nos dois Mundiais que se jogam neste Mundial. Organiza aquele que se passa dentro de campo, sacando daí lucros estratosféricos, e monitoriza o que se passa fora dele, ao ponto de os dinamarqueses terem dito que há uma “coação agressiva” por parte do organismo.

Neste ambiente de imposição do silêncio, foi em silêncio que a seleção da Alemanha deixou uma das imagens que marcaram este Mundial. Ao pousarem para a fotografia oficial antes do embate contra o Japão, os homens da mannschaft taparam a boca, numa óbvia referência a quem tenta calar quem quer marcar posições face a este Mundial imoral e manchado de sangue. A imagem não foi mostrada pela transmissão televisiva do jogo.

No Catar sofrem em silêncio os trabalhadores migrantes que, numa forma moderna de escravatura, ergueram este Mundial. Sofrem em silêncio as mulheres que têm a sua vida condicionada às autorizações de um guardião masculino. Sofrem em silêncio as pessoas LGBTQIA+, perseguidas, detidas, espancadas.

Que os jogadores da Alemanha tenham feito aquele gesto significa que dedicaram algum tempo, por pouco que tenha sido, a pensar nele. O que significa que dedicaram algum tempo a pensar em como protestar a favor de pessoas que estão em posições mais muito frágeis que eles. Porque eles, tal como o presidente da FIFA, jamais saberão o que é ser gay, mulher ou trabalhador migrante no Catar.

Em setembro, a Human Rights Watch Alemanha tinha revelado, à Tribuna Expresso, que tivera reuniões com os jogadores da seleção, que colocaram questões sobre o Catar, pediram informação, tentaram adquirir consciência da realidade na qual aterrariam em novembro e dezembro. Perante o silêncio ensurdecedor de outras seleções, como Portugal, que se refugiam em chavões pouco comprometedores, a Alemanha escolhe não ficar calada. Nem que para isso tenha de mostrar que a querem calar.

As histórias do dia

Jogos do dia

Suíça - Camarões (10h, Sport TV1)
Uruguai - Coreia do Sul (13h, Sport TV 1)
Portugal - Gana (16h, Sport TV 1)
Brasil - Sérvia (19h, RTP 1)

Veja o resto do calendário do Mundial.


A foto

11 homens de boca tapada. Foi assim que a Alemanha protestou contra as tentativas de silenciamento de quem, neste Mundial, ouse defender os direitos humanos além das formas impostas pela FIFA para defender os direitos humanos, desde que não se ofenda ninguém

11 homens de boca tapada. Foi assim que a Alemanha protestou contra as tentativas de silenciamento de quem, neste Mundial, ouse defender os direitos humanos além das formas impostas pela FIFA para defender os direitos humanos, desde que não se ofenda ninguém

Visionhaus/Getty

Hoje Portugal estreia-se no Mundial 2022. Continue a acompanhar todos os gritos e silêncios vindos do Catar, onde temos o nosso colega Hugo Tavares da Silva, na Tribuna Expresso.

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